Recentemente, o ministro da Saúde, Marcelo Castro, protagonizou mais uma polêmica na grande mÃdia e nas redes sociais ao afirmar: âNós estamos há três décadas com o mosquito aqui no Brasil e estamos perdendo feio a batalha para ele. Ano passado foi o (ano) que teve o maior número de casos de dengue no Brasil em toda a históriaâ. Anteriormente, em novembro de 2015, em decisão ética e corajosa o ministro decretou situação de emergência em saúde pública de interesse nacional, atitude que lhe valeu inúmeras crÃticas em parcela dos meios de comunicação e nas mÃdias sociais, por ser a medida considerada âexageradaâ e vexatória, algo que âdeixava o Brasil mal diante do mundoâ.
Tenho dito e repetido que a situação atual é de extrema gravidade, e que essa epidemia de más-formações congênitas em razão da infecção pelo vÃrus zika poderá se transformar em verdadeira tragédia sanitária, provocando sofrimento superado apenas pela pandemia de HIV/Aids. A cada dia fica mais evidente que estamos diante de uma epidemia de zika congênita. Em frequência cada vez maior, estão sendo observadas diversas alterações congênitas em crianças que foram expostas ao vÃrus zika, demonstrando que a microcefalia é uma das más-formações, mas não a única. Até o final de 2016, poderemos ter cerca de quinze mil casos suspeitos de microcefalia notificados.
A epidemia de zika congênita que está ocorrendo no Nordeste, Região que concentra 86% (oitenta e seis por cento) dos casos suspeitos de microcefalia, possivelmente atingirá os demais estados do PaÃs nos próximos meses e anos
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Veja o que já enviamosPor mais que a frase dita pelo ministro possa incomodar, temos que admitir que é carregada de honestidade e de coerência ética diante da gravidade da situação. Assim como o ministro, ao analisar o que aconteceu nas últimas três décadas de sucessivas epidemias de dengue, também eu acredito que estamos perdendo essa batalha contra o mosquito Aedes aegypti, que também transmite os vÃrus chikungunya e zika.
Embora houvesse relatos desde meados do século XIX e inÃcio do século XX, a circulação dos vÃrus da dengue no Brasil só foi comprovada em 1982, quando ocorreu uma epidemia em Boa Vista (RR). Depois de curto perÃodo de relativa calmaria, a dengue tornou a aparecer em 1986, no Estado do Rio de Janeiro, de onde nunca mais saiu. Variando apenas as cidades, epidemias são registradas quase que anualmente no Brasil; no entanto, comumente observamos em muitas autoridades sanitárias, profissionais de saúde e meios de comunicação, certa perplexidade diante dessas epidemias, mostrando-se surpresos com a ocorrência e a magnitude das mesmas.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]à angustiante ter que admitir que enquanto os graves problemas estruturais não forem superados, vamos conviver com epidemias de dengue, zika e chikungunya no Brasil, a menos que um novo aporte cientÃfico e tecnológico seja disponibilizado para toda a população
[/g1_quote]Nossas condições climáticas e sociais são favoráveis à proliferação do mosquito transmissor desses vÃrus. Temos elevadas temperaturas ambientais e chuvas em abundância, além de graves deficiências na coleta dos resÃduos sólidos urbanos e irregularidade no abastecimento de água para uso doméstico; a intermitência no fornecimento de água estimula o seu armazenamento inadequado, e pode gerar novos criadouros de Aedes aegypti, favorecendo a ocorrência de dengue, zika e chikungunya. Isso para não falar da histórica violência urbana existente, principalmente na periferia de cidades de médio e grande porte, realidade que muitas vezes dificulta o acesso dos agentes que atuam no controle desses mosquitos.
Nos últimos 30 anos, inúmeras campanhas de controle do Aedes foram feitas, enfrentamos várias âbatalhasâ de uma suposta âguerra contra o mosquitoâ. Essas mobilizações ajudaram a reduzir o impacto e a magnitude das epidemias, mas, infelizmente, mostraram-se insuficientes para impedir a disseminação do vÃrus. Nunca é demais lembrar que as condições que contribuem para a proliferação de focos desses mosquitos têm suas raÃzes fincadas em um modelo de desenvolvimento social e econômico adotado pelo Brasil ao longo de séculos. Embora importantes, as campanhas de prevenção à dengue não mudam, e nem teriam governabilidade para mudar, a determinação social relacionada com a ocorrência das doenças transmitidas por esse mosquito.
à angustiante ter que admitir que enquanto os graves problemas estruturais não forem superados, vamos conviver com epidemias de dengue, zika e chikungunya no Brasil, a menos que um novo aporte cientÃfico e tecnológico seja disponibilizado para toda a população, como, por exemplo, uma vacina ou uma nova forma de controlar a proliferação do Aedes. Nesse contexto, a frase do ministro expressa uma dura e triste realidade. Devemos ter humildade e honestidade para admitir que o modelo de controle do mosquito que realizamos durante os últimos trinta anos â baseado no uso de inseticidas, larvicidas e redução de focos domiciliares â foi insuficiente para resolver o problema.
Para todos nós, brasileiros, a decisão da Organização Mundial da Saúde de decretar emergência de saúde pública de interesse internacional deve servir de estÃmulo para uma profunda reflexão. Mais que motivo para desânimo, tal medida poderá significar um ponto de partida para a mudança na forma pela qual cuidamos do ambiente; também poderá se transformar em oportunidade Ãmpar para mobilizar a sociedade contra os mosquitos e em defesa de soluções estruturantes para sanar as graves deficiências na coleta dos resÃduos sólidos urbanos e os crônicos problemas no abastecimento de água para uso doméstico.

O descaso histórico com o saneamento ambiental que inclui o saneamento básico, fornecimento regular de água, coleta de esgoto e de resÃduos sólidos em nosso paÃs é um fator preponderante nesta grave epidemia. Não é uma mera coincidência que a epidemia começou pelo Nordeste, região onde o saneamento básico tem investimentos pÃfios ao longo da história e o processo de urbanização ocorre de maneira totalmente desordenada sem a presença do estado. Esta é uma realidade de diversos municÃpios brasileiros que estão sob grave risco de epidemia. Infelizmente o Brasil chegou ao século XXI com uma epidemia transmitida por um mosquito semelhante à situação enfrentada por Oswaldo Cruz em 1903 na luta contra a febre amarela. Depois de 110 anos ainda temos os mesmos problemas ?
Otimo Artigo !!! Muito bom !!!
Gostei bastante do artigo. Continue assim.
Chego a sentir medo viu, sinceramente dia após dia esse mosquito só aumenta o grau de perigo…nossa!
Aqui onde eu moro nos últimos anos tem tido muito casos de Dengue, nunca mais ouvi falar da Zica Virus. O que será que aconteceu? Da até medo
Complicado. Perto da minha residência tem muito vizinho que ainda deixa água em vasilhas de plantas e tem alguns terrenos com pneus. Fico com medo, mas a prefeitura não faz vistoria. Uma pena!
Deveria ser lei não deixar água acumulada. Me sinto mal quando vejo tantos lugares ainda que não tem consciência da gravidade que é o mosquito da dengue. Lamentável.
A população não seu deu conta ainda do risco.
Meu Deus! Isso é terrÃvel.
Todos precisam de conscientizar o risco que esse mosquito trás.