(Reportagem publicada originalmente no Coca-Cola Journey)Â
Como milhares de cearenses, Miguel Silveira Neto, nascido há 45 anos em Mundo Novo, no interiorzão do estado, teve sua vida profundamente marcada pela escassez de água. Ele ainda se lembra de quando tinha 6 anos e acompanhava a mãe ao açude mais próximo, a um quilômetro de casa. âA gente enchia a lata de água, ela fazia uma rodinha de pano na cabeça, botava a lata em cima e vinha caminhando tranquilamente. Só tirava quando chegava de voltaâ, conta. âEram latas quadradas de querosene, de 20 litros cada umaâ, acrescenta.
Outra lembrança marcante é da seca em 1983, quando muitos conhecidos deixavam de fazer pelo menos uma das refeições diárias por conta da falta dâágua. Lavar roupa, obviamente, não era moleza: âTinha um açude a três quilômetros daqui. Todo mundo ia. Minha mãe levava as roupas numa bacia grande, lavava tudo e estendia no arame da cerca ou no chão. Precisava esperar secar, pois não dava para trazer a bacia pesada de roupa molhada na cabeça. Quando dava umas duas horas, a gente saÃa debaixo do sol quente e chegava em casa à s trêsâ.
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A dureza dos tempos passados não fez Miguel perder o humor. à com certa nostalgia que ele conta o método para impermeabilizar as latas de querosene quando furavam. âTinha de pegar um punhado de areia e socar no buraco. Quando a areia entrava em contato com a água, tapava o furo e não vazava maisâ, explica.
Apesar de jamais ter tolerado o desperdÃcio, Miguel confessa que usava a água de maneira errada e não tinha a menor noção de higiene na juventude â como, de resto, toda a comunidade: âDo jeito que pegava a água, consumia. Ninguém sabia de onde vinham problemas tipo dor de barriga etc. Sempre culpava algum alimento. Chegou do roçado, comeu uma manga… Passou mal à tarde… Foi a manga! Nunca era a águaâ.
[g1_quote author_name=”Miguel Silveira Neto” author_image=”Operador de água” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Eu faço o que amo, não faço por fazer. Abrir uma torneira e ter água no seu chuveiro, na sua pia… Poder lavar uma vasilha, limpar uma casa é muito importante.
[/g1_quote]A chegada do Sistema Integrado de Saneamento Rural (Sisar), que começou a ser implantado no Ceará em 1996 e instalou sistemas de abastecimento de água gerenciados pelos próprios moradores em pequenas comunidades, trouxe um novo alento para quem vive nas áreas de seca. Em 2012, Miguel tornou-se o operador de água da região, com as funções de tirar a leitura do hidrômetro e fazer pequenos consertos de manutenção. âPara serviços mais complicados, entramos em contato com o pessoal do Sisar e eles vêm para dar suporteâ, diz.
Miguel garante que não quer outra vida. âEu faço o que amo, não faço por fazer. Abrir uma torneira e ter água no seu chuveiro, na sua pia… Poder lavar uma vasilha, limpar uma casa é muito importanteâ, observa. Com tanto amor pela água, Miguel tem um segredo: não gosta de nadar por conta de um quase afogamento na infância. Mas adora chuva: âGosto de olhar as nuvens se juntando no inverno porque sei que em pouco tempo vai choverâ.
*Esta história faz parte de uma série sobre brasileiros que trabalham para preservar o bem mais valioso do planeta, a água. Todos são beneficiados por projetos apoiados pela Coca-Cola Brasil e também aparecem no documentário âTerra molhadaâ. Clique aqui para conhecer mais histórias.
[g1_divider] [/g1_divider]COCA-COLA BRASIL
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