Empresas e mercados estão contribuindo de forma surpreendente para a luta contra os ataques a uma das maiores e mais ricas áreas protegidas do mundo, o corredor do Xingu de diversidade socioambiental, com 28 milhões de hectares. à uma superfÃcie superior à do Estado de São Paulo, composta por um mosaico de Terras IndÃgenas e Unidades de Conservação. Parte muito importante dos rios voadores estudados por Antônio Nobre e pelo aviador Gérard Moss originam-se nesta vasta extensão territorial. As árvores funcionam como verdadeiras bombas bióticas, que lançam na atmosfera mais água que o volume despejado pelo Xingu no Amazonas diariamente. Sem elas, as chuvas no Sudeste do Brasil provavelmente desapareceriam.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]A proteção da floresta passa pela capacidade de sua exploração sustentável por populações tradicionais. E a força destas populações será tanto maior quanto mais elas se beneficiarem das relações com organizações que não fazem parte do seu universo, que ampliam seus horizontes e lhes permitem esta unidade tão única entre suas tradições e processos criativos de inovação.
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Veja o que já enviamosRelatório recente do Instituto Socioambiental mostra que, apesar de sua e proteção formal, amplia-se a agressão a este território na extração de madeira, na pesca, na pecuária e na mineração, todas praticadas de forma ilegal. Na Terra IndÃgena Cachoeira Seca, por exemplo, a exploração ilegal de madeira aumentou 300% entre 2012 e 2014. Mais de 760 quilômetros de estradas ilegais foram abertas para o escoamento do produto, neste perÃodo. E o estrago continuou em 2015, com mais 576 quilômetros de estradas ilegais.
A madeira é revestida de aparente legalidade nas serrarias de Uruará, Trairão e Placas o que permite sua venda em Altamira, Santarém, São Paulo e para fora do paÃs, sem que haja qualquer investigação e ação consistentes para erradicar estes crimes. Na raiz da destruição e da ilegalidade está a própria Usina Hidrelétrica de Belo Monte, que ampliou a demanda de madeira em toda a região. E claro que este previsÃvel aumento da demanda não foi acompanhado de medidas para atenuar seus efeitos.
A distribuição de benefÃcios à s populações locais, por parte da empresa controladora de Belo Monte (parte de suas obrigações de compensação ambiental), nem de longe responde ao Plano Básico Ambiental (PBA) ou a um planejamento estratégico. Oferecer grandes somas de recursos materiais e financeiros a populações indÃgenas e ribeirinhas sem planejamento nem o devido acompanhamento é o caminho para desestruturá-las, tornando-as dependentes de doações que não são eternas e que já estão minguando.
à neste contexto desolador que ocorre um dos mais férteis e promissores projetos levados adiante por um conjunto de organizações não governamentais, por comunidades locais e por empresas. O ponto de partida está no empenho em fazer das iniciativas econômicas das populações ribeirinhas, não reconhecidas como impactadas por Belo Monte (e portanto sem recursos do PBA) a base fundamental para o fortalecimento da diversidade socioambiental desta imensa e decisiva região. Com o funcionamento dessas iniciativas nas Reservas Extrativistas, grupos indÃgenas da região foram se aproximando e se conectando.
Em suas vinte terras indÃgenas e dez unidades de conservação contÃguas do Xingu vivem, além dos ribeirinhos (âbeiradeirosâ), 26 povos indÃgenas que falam 24 idiomas. Até recentemente exploravam, além da caça e da pesca, as seringueiras, as castanheiras, além do babaçu, da copaÃba e diversos outros produtos do extrativismo. Na esmagadora maioria dos casos, seus produtos eram trocados por artigos vindos das cidades, quase sempre sem a interveniência de dinheiro. Barcos-armazéns (os âregatõesâ) preenchiam (e ainda preenchem) uma função importante ao receber os produtos do extrativismo e abrir acesso a bens fora do alcance destas comunidades.
Mas as relações entre regatões e estas populações colocavam-nas em situação de imensa dependência e impediam que se beneficiassem de melhor renda para sua produção. O resultado era o desânimo com as atividades produtivas, acompanhado pela depreciação da própria condição de indÃgena ou beiradeiro. Abria-se assim o caminho para que estas populações acabassem por fazer parte das atividades ilegais fadadas a destruir sua cultura e, com ela, a própria biodiversidade e os serviços ecossistêmicos fundamentais por ela prestados.
à por meio das âparcerias comerciais diferenciadasâ que esta realidade está começando a mudar. Empresas compradoras de borracha, de castanha, de babaçu e de óleo de copaÃba reconhecem que, além do produto que lhes é entregue, as comunidades responsáveis por sua extração cumprem a função de preservar os ecossistemas dos quais dependem não só estes produtos, mas uma série de outros ativos socioambientais, a começar por aqueles que contribuem para o equilÃbrio do sistema climático. Ao mesmo tempo, o Instituto Socioambiental, o IMAFLORA com o apoio de diversas outras organizações estimularam o surgimento de pontos de troca de produtos (chamados de âcantinasâ) que permitiram organizar, nas comunidades, a comercialização. Os recursos, antes concentrados na cidade e nos regatões, chegam ao interior da mata. As empresas estabelecem um contrato com os extrativistas que lhes dá garantia e estabilidade de preço e entrega. Ao mesmo tempo, estes centros comunitários de comercialização passam a contar com capital de giro que lhes permite comprar produtos para o abastecimento dos extrativistas. Os regatões não são suprimidos, claro, mas foram obrigados a aumentar os preços pelos quais compram os produtos do extrativismo em toda a região. Com isso, os jovens foram atraÃdos para atividades das quais estavam inteiramente descrentes.
Este conjunto foi sintetizado num Selo de Qualidade, lançado em março último, o Origens Brasil. Os produtos do extrativismo passam a ser reconhecidos comercialmente como portadores da própria integridade da floresta. A Wickbold, por exemplo, instalou nas embalagens dos pães que contêm castanha da Terra do Meio, um código QR, pelo qual os consumidores podem ter acesso aos extrativistas responsáveis por seus produtos, à história da região e a outras aspectos que contribuem para valorizar seus modos de vida. Além disso, as empresas, juntamente com as ONGs estão levando aos extrativistas inovações tecnológicas para aumentar a qualidade de seus produtos e os rendimentos que deles obtêm. A Mercur, por exemplo, está desenvolvendo junto com as comunidades técnicas compatÃveis com os modos de vida locais que melhoram a qualidade da borracha que lhe é entregue, gerando inovações que podem agregar mais valor à borracha nas próprias comunidades. A Atina, empresa de cosméticos, atua para aprimorar os resultados do que se obtém de farinha do coco babaçu.
Não há dúvida de que a escala de tudo isso ainda é reduzida. O importante, porém, é que a proteção da floresta passa pela capacidade de sua exploração sustentável por populações tradicionais. E a força destas populações será tanto maior quanto mais elas se beneficiarem das relações com organizações que não fazem parte do seu universo, que ampliam seus horizonte e lhes permitem esta unidade tão única entre suas tradições e processos criativos de inovação. Elas passam a ter ganhos materiais, culturais e morais com a exploração da floresta em pé. Com isso, as chances das atividades ilegais reduzem-se consideravelmente e, como consequência, ampliam-se as possibilidades de que a floresta siga prestando os serviços ecossistêmicos dos quais todos dependemos.
O grande aprendizado é que na raiz destas iniciativas estão (tanto para as empresas, como para as ONGs) valores. Os produtos, os lucros empresariais e as inovações nada mais são que meios para uma finalidade maior, um valor maior e dos quais tudo depende: a diversidade socioambiental.
