Se você faz parte daquele grupo de pessoas que desconfia, intuitivamente, que mesmo fazendo a coisa certa – como reduzir seu tempo no chuveiro, economizar energia e lidar de forma adequada com os resÃduos que o seu consumo produz – a conta não fecha, você vai gostar de conhecer as ideias da economia circular. E, como já deu para perceber, reciclar com a abordagem de apenas descartar adequadamente após o uso soa tão antiquado quanto anotar o número do fax no cartão de visitas…
Em um mundo com 7 bilhões de seres humanos, crise hÃdrica e aquecimento global, separar plástico, vidro e papel não basta. à preciso repensar a produção dos bens desde o inÃcio, de forma a poupar recursos naturais e reduzir a geração de resÃduos. Na lógica que rege a economia, representada pelo modelo linear extração-fabricação-uso-descarte, as duas pontas da equação crescem exponencialmente, com impactos sobre o meio ambiente que podem levar o planeta ao colapso.
[g1_quote author_name=”Flavio de Miranda Ribeiro” author_description=”Assessor-técnico da Cetesb” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosAs estimativas de consumo de recursos naturais para 2020 são de 10,6 toneladas por habitante/ano, o que representa um crescimento de 16,5% sobre o valor de 1980 – 9,1 toneladas por habitante ao ano. Se considerarmos o crescimento populacional no perÃodo, a previsão de consumo dos recursos será de 82 bilhões de toneladas ao ano, comparado aos 40 bilhões de toneladas/ano de 1980
[/g1_quote]âAs estimativas de consumo de recursos naturais para 2020 são de 10,6 toneladas por habitante/ano, o que representa um crescimento de 16,5% sobre o valor de 1980 – 9,1 toneladas por habitante ao ano. Se considerarmos o crescimento populacional no perÃodo, a previsão de consumo dos recursos será de 82 bilhões de toneladas ao ano, comparado aos 40 bilhões de toneladas/ano de 1980. Ou seja, mais do que o dobro, sendo que para alguns materiais esse valor é ainda mais significativo, como no caso dos metais, de 175%, ou dos minerais não-metálicos, de 125%â, explica o engenheiro Flávio de Miranda Ribeiro, assessor-técnico da Cetesb que publicou, em 2014, juntamente com o também engenheiro e professor da FEA-USP Isak Kruglianskas, o artigo A Economia Circular no contexto europeu: Conceito e potenciais de contribuição na modernização das polÃticas de resÃduos sólidos, sintetizando os principais conceitos da economia circular.
Se as perspectivas de consumo dos recursos naturais, com a manutenção do modelo linear, parecem assustadoras, as estimativas de geração de resÃduos sólidos completam o cenário: dados da ONU revelam que somente o lixo eletrônico representa cerca de 50 milhões de toneladas ao ano em todo o mundo. De acordo com estimativas da Royal Society of Arts citadas por Ribeiro e Kruglianskas, 90% dos materiais extraÃdos do meio natural se tonam resÃduos durante o próprio processo de fabricação, e cerca de 80% do conteúdo material dos próprios bens é descartado em menos de seis meses. Há que se considerar ainda a geração de resÃduos pós-consumo e outro dado preocupante: o desperdÃcio da energia utilizada ao longo de todo o processo. E boa parte dela vai para o lixo junto com os produtos descartados ao fim de sua vida útil. E não é recuperada.
Mas de onde veio a ideia da economia circular (EC) e o que a torna tão diferente â e revolucionária â diante do processo linear a que estamos acostumados? A EC está relacionada a conceitos que surgiram por volta da década de 1970, como o gerenciamento do ciclo de vida e a ecologia industrial, entre outros. Porém, diferentemente desses conceitos, que se concentram numa âprodução mais limpaâ, a EC tem como foco o projeto (design) dos produtos.
âNão se trata de desenhar um produto simplesmente, mas projetá-lo de forma a utilizar os recursos naturais com o menor impacto e visando ao reaproveitamento dos materiais no processo de produção o maior tempo possÃvelâ, diz o arquiteto Alexandre Gobbo Fernandes, diretor de projetos da EPEA Brasil, empresa que se dedica a assessorar organizações que queiram âmaximizar a pegada positivaâ. No final de outubro, Fernandes fez palestra num workshop no Instituto Europeu de Design (IED), no Rio. O evento marcou o lançamento da campanha Mar sem Lixo, Mar da Gente, plataforma global de soluções sobre o lixo nos oceanos apoiada pela Swissnex. O seminário propôs uma questão prática: como aplicar os conceitos da economia circular à s escovas de dentes, o lixo mais comum nos mares do mundo? à certo que devemos descartá-las periodicamente, então não seria melhor se pudessem ser reaproveitadas, vale dizer, produzidas de forma que os materiais nelas usados voltassem ao processo de produção o maior número de vezes possÃvel? No conceito da economia circular, resÃduo é um erro de projeto. A indústria pode ser restaurativa e não predatória, pregam os adeptos da EC.
A EC também propõe a revisão dos padrões de consumo: consumir menos e buscar produtos de melhor qualidade, mais duráveis e que possam ser consertados, reformados. âA EC está mais avançada na Europa. Esse avanço, além da questão ecológica, reflete a preocupação das empresas e dos governos do continente com o acesso à s matérias-primas e com a questão do desemprego em seus paÃsesâ, diz o engenheiro Flávio Ribeiro.
Um novo paradigma de reciclagem: Houston, nós temos a solução
Em 2013, após uma década de observação das ideias de Cradel to Cradle postas em prática, Michael Braungart e William McDonough lançaram um novo livro, The Upcycle: Beyond Sustainability–Designing for Abundance. A expressão upcycle, que significa recuperar e dar um novo uso a alguma peça velha sem que ela vá para a reciclagem, ampliou seu alcance. A proposta dos autores não é nada modesta: que os seres humanos reescrevam seu papel na história do mundo natural. A boa notÃcia é que a visão de McDonough e Braungart, além de simples, é extremamente otimista, e otimismo, nos dias que correm, em meio a atentados e desastres ambientais, vamos combinar, é artigo de alto luxo.
O livro oferece uma série de cenários para a integração do homem ao meio natural de forma que, em vez de predadores da natureza, tornam-se co-criadores do que classificam da mais simples invenção: a abundância. Com o projeto adequado (design), dizem, a indústria pode fazer muito mais do que âzero danoâ: pode melhorar tudo aquilo com que entra em contato. Dá para imaginar?
Em sua página, McDonough (http://www.mcdonough.com) comenta o livro e destaca alguns pontos. Um deles: esqueça a palavra resÃduo. O arquiteto americano usa o exemplo da minhoca que, após se alimentar, por meio de seu próprio organismo, produz nutrientes riquÃssimos para o solo. O ser humano, com sua inteligência, também pode criar nutrientes mais ricos.
Para isso, deve-se pensar que cada componente de um projeto está sendo emprestado e, um dia, será devolvido à natureza. E é responsabilidade de quem o utiliza devolvê-lo para a biosfera ou para a âtecnoesferaâ, em condições tão boas quanto as que encontrou quando o pegou. McDonough diz que, mesmo estando há décadas nessa pregação, ainda se espanta quando uma empresa diz que um produto tecnológico tem âciclo do produtoâ ou âciclo de vidaâ. âEsses produtos não morrem e desaparecem. Esse é o problema e, ao mesmo tempo, a oportunidade: você está vivo, a sua torradeira, não. (…) A mudança é possÃvel, benéfica e lucrativaâ.
Mas ele adverte: fazer âmenos malâ não é o mesmo que âfazer mais bemâ. Não se trata de minimizar a pegada de uma pessoa ou sociedade, mas de pensar numa pegada benéfica. A chave do processo, já discutido no Cradle to Cradle, é que em tudo existe um dos dois ciclos de nutrientes â biológico ou tecnológico, e um projeto deve considerar a perspectiva da reprodução infinita desses ciclos. âProjetos com uma visão curta desse processo resultam numa tirania que atravessa gerações: o projeto correto, o bom design, é um direito humano! Não há função mais séria â e deliciosa â na vida e nos negócios do que criar a alegria. Houston, nós temos a soluçãoâ, diz o arquiteto.
