Já imaginou ser, além de consumidor, coprodutor de frutas, verduras e cereais que chegam à sua mesa? Sim, isso é possÃvel até para os mais urbanos seres humanos. E é uma filosofia de consumo difundida em paÃses como Japão, Estados Unidos e Alemanha. Por aqui, recebeu o nome de Comunidade que Sustenta a Agriculturaâ (CSA),  um modelo de desenvolvimento agrário sustentável no qual o escoamento de produtos orgânicos é feito diretamente para o consumidor, numa relação direta entre quem produz e quem consome. A cada ano mais CSAs são criadas, proporcionando aos pequenos agricultores a garantia do investimento na sua produção e maior participação da comunidade nas áreas agrÃcolas próximas à s grandes cidades. Atualmente existem mais de 60 CSAs em funcionamento no paÃs.
Como funciona?
Cada coprodutor contribui com uma quantia fixa mensal, que, no Brasil, varia de R$ 130 a R$ 180, dependendo da região. Os agricultores se comprometem a entregar semanalmente uma cesta com os seus produtos – tudo sem agrotóxico! Uma semana vem alface, batata doce, almeirão, morangos, feijão; na outra, cenouras, couve-flor, mexericas, rúcula, aipo… A variação depende das estações do ano, do clima, do preço das sementes e mudas. O agricultor se organiza com a renda fixa. O consumidor tem a garantia de produtos frescos e sem veneno, além de ser “obrigado” a variar seus alimentos e trabalhar sua criatividade na cozinha.
[g1_quote author_name=”André Garcia” author_description=”Pedagogo” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosDepois de 17 anos sem férias, um agricultor de Botucatu, em São Paulo, confessou, com lágrimas nos olhos, que depois de entrar para uma CSA conseguiu enfim uns dias de descanso remunerado
[/g1_quote]Ao participar de uma CSA,  produtor pode se dedicar livremente à sua produção, sem se sentir pressionado pelas oscilações de mercado, pois ele tem a garantia de escoamento da produção. E existe também a divisão da responsabilidade que aproxima quem produz e quem consome, além de evitar o desperdÃcio de alimentos. Este modelo de produção protege as pequenas estruturas agrÃcolas e seus produtores, que optam por plantar um alimento livre de veneno que, no entanto, tem menos rentabilidade. Por isso é muito importante estabelecer relações de confiança, e o agricultor deve apresentar todas as informações sobre os seus gastos.
[g1_quote author_name=”Alceu Castilho” author_description=”Jornalista” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Esse tipo de organização converge para o resgate da solidariedade camponesa, em detrimento da concentração de capital que marca a lógica do agronegócio.
[/g1_quote]âDepois de 17 anos sem férias, um agricultor de Botucatu, em São Paulo, confessou, com lágrimas nos olhos, que depois de entrar para uma CSA conseguiu enfim uns dias de descanso remuneradoâ, conta o pedagogo André Garcia, ex-coordenador de uma CSA de Curitiba, no Paraná, que estudou agricultura biodinâmica na mais antiga CSA do Brasil em atividade, a Demétria, em Botucatu, que já tem mais de cinco anos, reproduzindo o modelo que já dá certo há décadas nos Estados Unidos, na França, na Alemanha, na China.
à uma nova forma de economia?Â
As CSAs têm como maior inspirador o austrÃaco Rudolf Steiner, criador da pedagogia waldorf e da agricultura biodinâmica,  e a ideia foi trazida para o Brasil por Hermann Pohlmann, que já praticava na Alemanha, em 2011.  A  biodinâmica prevê novas formas de propriedade em que a terra deveria ser mantida pela comunidade, a partir de novas formas de cooperação  em que redes de relações humanas substituem o sistema tradicional de empregador/empregado e cria novas formas de economia baseada não no lucro, mas nas necessidades das pessoas. âà uma tecnologia social, um remédio para a terraâ, define Garcia.
“Esse tipo de organização converge para o resgate da solidariedade camponesa, em detrimento da concentração de capital que marca a lógica do agronegócio. à importante assinalar que o campesinato é uma classe que se organiza há milênios. Por isso insisto na ideia de resgate, e não apenas de contraponto. Foram os atravessadores e concentradores de renda – e de terra – que chegaram depois, portanto cabe aos camponeses (somente Brasil e Estados Unidos falam em “agricultores familiares”, nomenclatura do Banco Mundial) afirmar as caracterÃsticas de seu modo de produção, fundado, sim, na solidariedade entre seus pares, e não na concentração de terra e renda. Trata-se de mais uma iniciativa no sentido da resistência, em meio a um conflito provocado por aqueles que avançam sobre os territórios tradicionaisâ, avalia o pesquisador Alceu Castilho, editor do Observatório De Olho nos Ruralistas.
Como se sentem esses coprodutores?
Em Curitiba, no Paraná,  desde julho de 2015, os agricultores Carlos e Silvia Kmiecick estão vinculados à CSA SÃtio São Carlos, localizados em Campo Magro, na periferia da cidade. Toda quarta-feira eles entregam seus produtos na Escola Waldorf Turmalina. Desde que aderiram ao CSA, Silvia e Carlos foram pouco a pouco reduzindo a sua participação nas feiras livres e se sentiram mais seguros para ampliar a famÃlia. SÃlvia já está grávida do segundo filho.  Além de receber os produtos, os associados participam da distribuição e, uma vez por mês, são convidados a ir até o sÃtio participar do plantio, do roçado, da limpeza dos legumes. Silvia e Carlos ensinam  também educação ambiental aos coprodutores, principalmente para as crianças. âAssim realmente nos sentimos corresponsáveis com a produção dos alimentos que consumimos, para minha famÃlia é restaurador, nos sentimos fazendo a diferença, mesmo que seja pequenaâ, afirma a psicóloga Tânia Alves, 43 anos, mãe de Luna, 11, e Ravi, 4.Â
Para Tânia, fazer parte de uma CSA não é só comércio, mas sim a confiança, visto que o consumidor sabe de onde vem o alimento que está consumindo. Os agricultores, além de seguirem as culturas anuais de frutas e hortaliças, seguem parâmetros da CSA Brasil, que estimula o plantio de alimentos que precisam de menos água para serem produzidos. Plantar alface, por exemplo, tem um custo ambiental muito maior do que plantar quiabo. Um sistema de agricultura solidária e mais sustentável, sem intermediários, com ajuda dos coprodutores para a organização da distribuição e o financiamento de sua produção. Para os envolvidos, fazer parte de uma CSA é promover também saúde: individual, consumindo produtos orgânicos; ambiental, respeitando a natureza; social, porque ajuda o agricultor a ficar no campo; econômico, oferecendo preços justos e estimulando a economia local; saúde cultural, porque respeita a diversidade, e espiritual porque aproxima as pessoas da natureza.
Como é o movimento pelo mundo?
Espalhados pelo mundo, em paÃses tão diversos quanto Japão, Estados Unidos, Cuba, França, Marrocos, China, Portugal ou Mali, esses grupos de pequenos agricultores e consumidores têm criado comunidades em torno de alimentos cultivados localmente, baseadas em princÃpios de ajuda mútua, compartilhamento dos riscos e tarefas coletivas. Os nomes das iniciativas de agricultura comunitária pelo mundo são diferentes, mas na essência são  agricultores e cidadãos-consumidores que estão se adaptando à s culturas locais.
Um dos primeiros grupos da âera modernaâ da agricultura comunitária surgiu na Alemanha, nos anos 1960, em Fuhlhagen, perto de Hamburgo, na fazenda Buschberg. No Japão, em 1971, Teruo Ichiraku, filósofo e lÃder de cooperativas agrÃcolas,  alertou os consumidores para os perigos do uso de produtos quÃmicos na agricultura e desencadeou o movimento da agricultura orgânica no paÃs. Três anos mais tarde, um grupo de mães e donas de casa preocupadas com este assunto juntaram-se a um grupo de agricultores familiares e formaram o primeiro Teikei (Parceria). Atualmente são 20 milhões de japoneses participando dos Teikei em todo o paÃs.
Em 1985, Jan Vandertuin divulgou a CSA de Topinambour, perto de Zurique, na SuÃça, nos Estados Unidos, e ali Robyn Van En semeou o conceito em conferências de agricultura orgânica e biodinâmica.  Ao longo das décadas de 1980 e 1990, os grupos de CSA  dos Estados Unidos floresceram  com a criação de mais de 1000 comunidades, envolvendo cerca de 4 milhões de coagricultores. No Brasil, foi em 2011, no Fórum Mundial Social em Porto Alegre, que o conceito da CSA foi apresentado pela primeira vez como um grande potencial para o futuro da agricultura no Brasil. âA roda da economia gira mais rápido com o agronegócio, mas com o tempo os agricultores ficam doentes com os agrotóxicos, a terra empobrece, a qualidade dos alimentos cai, aos poucos estamos despertando para a necessidade de cuidar de nós mesmos e do nosso planetaâ, alerta Garcia. E, ao lado de tantas outras iniciativas, como as hortas comunitárias, os grupos de compra solidários, as feiras de orgânicos, as CSAs apresentam atualmente um forte potencial de crescimento e de amadurecimento de um modelo mais sustentável de agricultura.
