O barco desliza pelo Rio Tapajós. O barulho da água acaricia o ouvido. Ao fundo, sons de macacos e de papagaios, como se eles estivessem nas proximidades. As buzinas do trânsito de São Paulo atrapalham a viagem por alguns segundos. Aos poucos, o barulho urbano vai sumindo. Você vê a Floresta Amazônica, de uma altura de 30 metros, e tem a sensação de estar assistindo tudo de um dos galhos de uma copa de árvore gigante. Chega a dar um frio na espinha. Ao fundo, uma voz suave. à a apresentadora Marina Person, a guia neste passeio virtual pela maior floresta tropical do mundo. A realidade amazônica atropela a paulistana após alguns segundos de um vÃdeo produzido pelo Greenpeace. O filme é exibido em óculos de realidade virtual para as pessoas nas ruas da maior metrópole do paÃs.
Maior organização de defesa do meio ambiente do mundo, o Greenpeace utiliza, desde meados do ano passado, a tecnologia 3D para explicar melhor ao cidadão as suas causas. Os óculos de realidade virtual são um instrumento a mais no processo de conscientização e de captação de recursos financeiros da ONG.
âA Floresta Amazônia é um paraÃso e até agora a gente só conhece um pedacinho da fauna e da flora. Mas hoje surge uma ameaça. O governo brasileiro está planejando construir mais de 40 hidrelétricas na áreaâ, alerta a locutora. Em seguida, Marina afirma que o projeto ameaça este paraÃso da biodiversidade e os últimos rios que correm livres na região amazônica. O vÃdeo, de pouco mais de um minuto, de agosto de 2016, mostra o dia-a- dia do povo Mundurucu, que vive há séculos na sua terra Sawré Muybu e resiste à destruição da floresta, com apoio do Greenpeace.
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Veja o que já enviamosâParece que a gente está lá na Amazônia. Ajuda a entender melhor a defesa da floresta, sem dúvida nenhumaâ, disse o bancário Kléber Fernando Santos, 31 anos, que parou para ouvir as explicações dos representantes do Greenpeace em seu horário de almoço, pouco depois de sair de um restaurante na Avenida Paulista.
âQueremos mostrar a Amazônia e a beleza deste lugar para as pessoas que nunca foram lá e talvez nunca tenham a oportunidade de irâ, explica Pedro Espinoza, diretor de Captação de Recursos do Greenpeace Brasil. Os vÃdeos dos óculos de realidade virtual são exibidos dentro de shopping centers e em eventos especÃficos que reúnem muita gente em São Paulo. âO resultado em termos de captação não é tão grande quanto imaginávamos no inÃcio, mas eles ajudam a fidelizar o apoiadorâ, diz.
Interatividade
A ideia do Greenpeace é distribuir os óculos para os doadores e enviar periodicamente links de vÃdeos, até mesmo em forma de séries, para manter a conscientização das pessoas de forma mais interativa. âVamos usar cada vez mais a tecnologiaâ, ressalta Espinoza .
A pessoa que entendeu a causa, mesmo que não se torne doadora, depois provavelmente vai trocar informações com a famÃlia e os amigos. âAssim, ajuda a espalhar a mensagem e a plantar uma sementeâ, afirma. à muito importante para a ONG explicar da maneira mais realista possÃvel as causas que defende. Seu financiamento ocorre única e exclusivamente através de doadores comuns, pessoas fÃsicas.
âNão aceitamos doações de empresas, de governo e de partidos, porque precisamos ter independência e credibilidadeâ, explica Espinoza. No Brasil, 60 mil pessoas apoiam o Greenpeace com doações mensais (uma média de R$ 40). No mundo, são mais de três milhões de apoiadores.
O trabalho de rua é árduo. Os representantes da ONG levam, em média, mais de duas horas para conseguir um doador. âPara conseguir um parceiro é preciso abordar entre 25 e 30 pessoasâ, informa Espinoza. Mais de 160 representantes do Greenpeace conversam com as pessoas nas ruas de São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Curitiba, Salvador e Porto Alegre, durante seis horas por dia, convidando-as para participar da ONG. âElas são o nosso sangue. Só conseguimos trabalhar por causa deste apoioâ, ressalta o diretor de Captação de Recursos.
[g1_quote author_name=”Pedro Espinoza” author_description=”diretor de Captação de Recursos do Greenpeace Brasil” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Hoje, a cultura da doação está aumentando porque as pessoas começam a se dar conta de que existem organizações que precisam de ajuda para sobreviver
[/g1_quote]Foi o Greenpeace que inventou a estratégia do diálogo direto com as pessoas nas ruas – copiada depois por várias outras ONGs. âComeçou na Europa, nos anos 90â, lembra Espinoza. Estes grupos já estão presentes nas ruas das capitais brasileiras há 10 anos. âAntes disso, a América Latina não fazia levantamento de fundos, não havia cultura de doaçãoâ, observa Espinoza, lembrando que os paÃses da região haviam saÃdo recentemente de regimes ditatoriais e amargavam altos Ãndices de pobreza.
âQuando os paÃses começaram a crescer, as organizações filantrópicas pararam de receber dinheiro internacional, porque eles não eram mais prioridade. O dinheiro começou a ir para paÃses com problemas mais gravesâ, conta. âHoje a cultura da doação está aumentando porque as pessoas começam a se dar conta de que existem organizações que precisam de ajuda para sobreviverâ, diz. Quanto mais ONGs saÃrem à s ruas nas campanhas de arrecadação melhor. âAs pessoas passam a compreender e a doar mais. Isso contribui com a cultura da doação e com a conscientização das pessoas, que percebem que podem ser agentes de mudançasâ.

Galera do Colabora, a matéria está muito boa, mas confesso que dá um certo bode ler reportagens que contrapõem uma São Paulo sempre caracterizada como cidade cinzenta, caótica e insuportável, versus um ambiente natural idÃlico e perfeito. Frases como “as buzinas do trânsito de São Paulo atrapalham a viagem por alguns segundos”, que aparece no texto, e “nas ruas da (cada vez mais) cidade cinza”, que aparece na newsletter, provavelmente entram mais como detalhes para mostrar o contraste cidade horrorosa X floresta maravilhosa do que como descrição real, até porque o uso do óculos 3D se dá dentro de shoppings e eventos, como a matéria descreve. Queria sugerir que nas próximas matérias vocês observem se não estão depreciando desnecessariamente as cidades, em especial São Paulo, que só leva porrada. Tem que criticar e falar a verdade sobre os problemas da cidade, mas não fazer disso um massacre a cada oportunidade. Cidades são lugares incrÃveis, cheios de diversidade, oportunidades, é onde a sociedade convive com mais vigor. O campo ou a floresta tampouco são paraÃsos em todos os aspectos, vide a pobreza e a desigualdade gritantes que existem no meio rural. Dá para falar de uma realidade sem idealizá-la e sem enxovalhar as outras. Se fosse uma matéria sobre o uso dos óculos 3D no Centro do Rio, vocês fariam uma descrição depreciativa? “O fedor de urina e o medo de assalto atrapalham um pouco a viagem”…isso soaria forçado, porque o Rio é muito mais do que fedor de urina e medo de violência, assim como São Paulo é muito mais do que cinza e trânsito.
Bons pontos, mesmo considerando que o Dória vem deixando SP a cada dia mais cinza.