Na quente tarde do último sábado (dia 2), os fardos repletos de recicláveis da Cooperativa Popular Amigos do Meio Ambiente (Coopama), em Maria da Graça, Zona Norte do Rio, aguardavam há duas semanas o movimento de mãos que separam os materiais por tipo de matéria prima. O galpão estava vazio de gente, num reflexo da paralisação dos caminhoneiros que levou caos ao paÃs. Sem diesel nos caminhões da coleta seletiva da Comlurb, a empresa pública de limpeza da capital, a Coopama parou. Os 14 catadores receberam uma ajuda de custo e foram mandados para casa â só retornaram ao trabalho na última segunda-feira. Oscilação é marca registrada da cooperativa e do mercado da coleta seletiva no Rio.
Dois anos depois de a prefeitura prometer universalizar a coleta seletiva de recicláveis nos 160 bairros da cidade, a realidade é bem diferente. Enfrentando crise sem precedentes, a Comlurb oferece o serviço em 113 bairros, sendo 80 integralmente (ou 50% do total). Os caminhões compactadores recolhem diariamente 56 toneladas de recicláveis (1.700 t. por mês), muito longe das prometidas 280 toneladas/dia ainda em 2016. Todo o material é doado para 22 cooperativas. Considerando o total gerado pelo domicÃlios da cidade, a coleta seletiva recolhe 0,95%.
[g1_quote author_name=”Claudio Novaes” author_description=”Diretor financeiro da Coopama” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosNo passado a gente tinha de 30 a 25 catadores. Este ano são 14. Até janeiro, recebÃamos 12 caminhões por semana da Comlurb. Agora são seis.
[/g1_quote]Uma combinação de alto custo â a coleta seletiva tem custo médio de R$ 1 mil por tonelada, ou cinco vezes maior que a convencional â e baixa eficiência â não raro caminhões cumprem suas rotas com pouco material â ajuda a explicar os avanços tÃmidos, quase inexistentes. A Comlurb não respondeu ao #Colabora sobre o quanto a coleta seletiva representa no custeio da companhia. Hoje, 13 caminhões fazem o serviço, e há dois anos eram 16. O mercado da reciclagem no Rio, avalia Cláudio Novaes, diretor financeiro da Coopama, é quase totalmente mantido pela informalidade. Uma profusão de caminhões âpiratasâ ou alternativos, burros-sem-rabo e catadores informais rodam a cidade à caça de papel, papelão, PET, plásticos e alumÃnio. Sobra pouco material com valor de mercado para os caminhões oficiais da Comlurb.
âSomos a segunda região metropolitana do paÃs e não chega material reciclávelâ, lamenta Cláudio, um homem negro de rosto redondo e sorriso tÃmido, nascido no Complexo do Alemão, e responsável por recrutar catadores que atuavam no antigo lixão de Jardim Gramacho, desativado em 2012. âNo passado a gente tinha de 30 a 25 catadores. Este ano são 14. Até janeiro, recebÃamos 12 caminhões por semana da Comlurb. Agora são só seis. E por causa da greve (dos caminhoneiros), dei uma graninha para cada um e mandei eles para casa. Voltaram agora (dia 4), com a situação normalizadaâ.
[g1_quote author_name=”Claudio Novaes” author_description=”Diretor financeiro da Coopama” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]à lei da oferta e procura: quando há muita oferta, o preço da venda dos recicláveis desaba. Veja esses fardos de sacolinha plásticas. Não vendo por mais do que 15 centavos o quilo. à muito pouco
[/g1_quote]Diversificar para sobreviver
Ao rodar o galpão da Coopama com a reportagem do #Colabora, Cláudio mostra a estratégia usada para a sociedade sobreviver: a diversificação dos materiais. A cooperativa recebe toneladas de televisores fabricados com pequenos defeitos de grandes varejistas. A venda dos componentes para a indústria transformadora é um bom negócio. Outra aposta é na reciclagem do isopor â há uma máquina que transforma o material numa espécie de resina â e das embalagens tetra pak, que viram telha ecológica. No entanto, lidar com esses materiais exige expertise e capacitação raros entre os catadores.
âà preciso recorrer a outros materiais, porque depender da coleta dos resÃduos domiciliares complica. à a lei da oferta e da procura: quando há muita oferta, o preço da venda dos recicláveis desaba. Veja esses fardos de sacolinha plásticas. Não vendo por mais do que 15 centavos o quilo. à muito poucoâ, diz.
[g1_quote author_name=”Luiz Carlos Fernandes ” author_description=”Gerente da Coopama” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Falta vontade polÃtica para fazer o sistema funcionar direito. O poder público deve comprar participação das empresas que geram os resÃduos. à lei, tem que fazer
[/g1_quote]Outra questão que joga contra a Coopama é a baixa qualidade dos materiais domiciliares que chegam ao galpão. à comum os recicláveis virem misturados com lixo orgânico. O Ãndice de perdas pode a superar os 60%. No último sábado, por exemplo, o caminhão da Comlurb descarregou 4 toneladas na Coopama, vindas dos bairros de Botafogo, Humaitá e Lagoa. Se, ao fim e ao cabo, 2,4 toneladas acabem de fato indo para a reciclagem, nas indústrias transformadoras, já será um grande feito. Os ganhos com a venda dos recicláveis garantem salários de R$ 300 para cada cooperativado â mais, é inviável.
âAs pessoas confundem, mas a Coopama não recicla, só recebe a faz a triagemâ, explica Luiz Carlos Fernandes, um dos gerentes. âEm resumo, falta vontade polÃtica para fazer o sistema funcionar direito. O poder público deve cobrar participação das empresas que geram os resÃduos. à lei, tem que fazerâ.
Lei federal surtiu pouco efeito
Falta conscientização da sociedade também, argumenta o gari Manoel da Silva Filho. Há 8 anos na Comlurb, ele cansou de ver materiais como seringas e agulhas junto ao lixo reciclável. Acontece que poucos cariocas acondicionam o lixo reciclável em sacos transparentes adequados. Como o produto é caro, a companhia de limpeza recomenda o uso de sacos verdes ou azuis. Evitar o uso dos sacos pretos é fundamental â como a cor impede a visão do lixo, fica impossÃvel saber se o material é reciclável ou orgânico.
[g1_quote author_name=”Manoel da Silva Filho” author_description=”Gari” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Vem muita coisa que não tem nada a ver junto ao lixo reciclável. O pessoal põe seringa na maldade, no meio de outros materiais
[/g1_quote]âVem muita coisa que não tem nada a ver junto ao lixo reciclável. O pessoal põe seringa na maldade, no meio de outros materiaisâ, critica, olhando para a massa de recicláveis com cheiro que denuncia a presença de lixo orgânico.
Em alguns bairros, conta Manoel, os Ãndices de coleta seletiva chegam a ser desprezÃveis, em função da atuação do mercado informal.
âNo Estácio e em São Cristóvão por exemplo, quando a gente vai coletar, os burros sem rabo já coletaram tudoâ.
A promulgação da PolÃtica Nacional de ResÃduos Sólidos (lei 12.305), em 2010, representou uma esperança de alavancagem das práticas de coleta seletiva e reciclagem. Inspirada em modelos de logÃstica reversa europeus, a lei é clara ao preconizar a redução da geração de resÃduos e determinar que só pode ir para aterros sanitários o que não for possÃvel ser reutilizado. O texto reforça a proibição, como fizera a Lei de Crimes Ambientais 12 anos antes, dos lixões. Decorridos oito anos, houve mais avanços na destinação final correta, em aterros sanitários, do que na reciclagem.
[g1_quote author_name=”Carlos Canejo” author_description=”Mestre em Engenharia Ambiental” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]O ser humano sempre tem muitas preocupações, e, certamente não quer mais uma, ainda mais se preocupar com ‘lixo’. à necessário ressignificar este termo. Lixo não é lixo
[/g1_quote]O acordo do setor das embalagens não decolou, e a indústria teme pagar a â alta â conta da logÃstica reversa sozinha. Por enquanto, grandes empresas que colocam as embalagens no mercado sinalizam apenas com mais apoio a cooperativas. Um modelo que vem patinando há décadas.
Lixo não é lixo
Na opinião do Carlos Canejo mestre em engenharia sanitária e ambiental pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e professor da Universidade Veiga de Almeida (UVA), a baixa adesão da população ao tema é um dificultador:
âO ser humano sempre tem muitas preocupações, e, certamente não quer mais uma, ainda mais se preocupar com ‘lixo’. à necessário ressignificar este termo. Lixo não é lixo. à necessário fazer com que a população entenda que ela tem que participar, que existem diferentes tipologias de resÃduos e que cada uma delas tem diferentes fluxos de tratamento e destinaçãoâ, opina.
Sobre o serviço prestado pela Comlurb, Canejo reflete que a questão a ser debatida é: âPara que queremos ter a coleta seletiva?â.
âNão há indústria de reciclagem no municÃpio. A Comlurb coleta e doa para cooperativas, geralmente pequenas e sem poder de negociação. Estas, revendem o material a atravessadores, que pagam muito pouco pelo quilo, pois precisam de escala para comercializar com a indústria, que fica fora do estado. Logo, apesar do potencial, cria-se um mercado insustentável focado na subsistência de poucas cooperativasâ, pondera. âà necessário reduzir o custo logÃstico de transporte ao mÃnimo possÃvel, por isso a indústria precisa estar aqui. Só assim teremos sucesso em programas de coleta seletiva. Também é muito necessário que o governo regule os valores de venda dos materiais recicláveis, para não haver dissonâncias muito fortesâ.

Boa noite Emanuel, excelente matéria!
Eu tenho buscado informações sobre a situação atual da do programa de coleta seletiva no municÃpio do Rio, será que vc pode me ajudar com algumas referências bibliográficas e/ou fontes de pesquisa? Para composição do meu pré projeto de mestrado, também na Uerj.
Grato irmão.