Em meio à fama repentina com o filme Lixo Extraordinário, do artista plástico Vik Muniz, o catador Sebastião Carlos dos Santos, o Tião, viu o fim dos lixões gigantescos do entorno da BaÃa de Guanabara. Entre eles, o maior de todos, o de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, onde vivia desde a infância e de onde, assim como outros 1,7 mil catadores, tirava seu sustento. Tião foi à cerimônia do Oscar de 2011, acompanhou em Londres o leilão da tela de Vik com o retrato dele, arrematada por 28 mil libras, e participou do inÃcio de projetos com os quais sonhava desde a fundação, em 2004, da Associação dos Catadores do Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho (ACAMJG), da qual é presidente.
[g1_quote author_name=”Sebastião Carlos dos Santos, o Tião” author_description=”Catador” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Houve a polÃtica de fechamento dos lixões e não foi criado um sistema para absorver as pessoas que viviam desses lixões. Nos paÃses desenvolvidos a coleta seletiva surgiu do avanço da consciência ambiental. Aqui ela nasceu da pobreza, da exclusão social. Já reciclávamos em Gramacho há 35 anos, mas à margem do sistema.
Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosMorando em Xerém, âno meio do matoâ, ao pé da Região Serrana do Rio de Janeiro, pai de uma menina de 15 anos e outra de 8 meses, Tião hoje faz de 30 a 40 palestras por ano, foi consultor do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) de 2013 até o começo do ano passado e estabilizou-se na nova vida que o filme de Vik Muniz, lançado em 2010, lhe proporcionou. Em contrapartida, não viu os sonhados projetos avançarem.
A própria sede da ACAMJG, onde funciona o Centro de Referência em Coleta Seletiva Valter dos Santos, é a prova de que ainda há muito o que fazer. Os três galpões, um deles sem paredes laterais, para triagem e armazenamento do material, e o prédio administrativo ocupam 18 mil dos 41 mil metros quadrados do terreno cedido para o projeto. O resto, onde estavam previstos mais três galpões para a capacitação total de até 650 catadores, virou vazadouro clandestino de lixo, um dos problemas surgidos com o fim dos lixões gigantescos.
O outro problema é o baixo Ãndice de coleta seletiva nos municÃpios do estado. âHouve a polÃtica de fechamento dos lixões e não foi criado um sistema para absorver as pessoas que viviam desses lixõesâ, afirma Tião. âNos paÃses desenvolvidos a coleta seletiva surgiu do avanço da consciência ambiental. Aqui ela nasceu da pobreza, da exclusão social. Já reciclávamos em Gramacho há 35 anos, mas à margem do sistemaâ. Apesar do Pacto da Reciclagem, lançado em setembro de 2013 pelo governo do estado com a expectativa de atingir 10% de logradouros no estado com coleta seletiva, esse Ãndice hoje, na Região Metropolitana do Rio, está em 2,5%.
Aprovada em 2010 pelo Congresso, a PolÃtica Nacional de ResÃduos Sólidos previa o fim de todos os lixões do PaÃs até 2014. Não cumprido, o prazo foi ampliado pelo Senado no ano passado para entre 2018 e 2021, a depender do municÃpio. No Rio, os lixões do entorno da BaÃa de Guanabara começaram a ser desativados em 2009. O de Jardim Gramacho, o maior deles, que recebia lixo de 8 milhões de pessoas, acabou em 2012. Foi substituÃdo pelo Centro de Tratamento de ResÃduos (CRT) de Seropédica, que em fevereiro deste ano registrou o vazamento de 50 mil litros de chorume (lÃquido que sai do lixo).
Também foram sendo gradualmente substituÃdos por aterros sanitários lixões como o de Babi, em Belford Roxo, que servia a uma população de 600 mil moradores da Baixada Fluminense, e o de Itaoca, em São Gonçalo, para 1 milhão, além do lixão de Bangu, esse na região da BaÃa de Sepetiba, na Zona Oeste, para 800 mil pessoas. âHá 9 anos, o estado do Rio de Janeiro tinha 90% de seu lixo tratados em lixões a céu aberto e 10% em aterros sanitários. Hoje esse número se inverteuâ, diz o deputado estadual Carlos Minc, ministro do Meio Ambiente de 2008 a 2010 e secretário estadual da pasta no Rio de Janeiro de 2006 a 2008, e de 2011 a 2013, após voltar do Ministério.
[g1_quote author_name=”Carlos Minc” author_description=”Deputado e ex-secretário de Meio Ambiente” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Estamos atrasadÃssimos nisso. Temos traço de educação ambiental. As prefeituras deveriam contratar cooperativas de catadores para que fossem feitas coletas diárias, escalonadas, nos bairros populares, mas isso não é feito
[/g1_quote]Se não há mais grandes lixões na Região Metropolitana do Rio, persistem os vazadouros clandestinos, pequenas áreas controladas pelo tráfico de drogas onde caminhões jogam livremente, sem qualquer proteção, os resÃduos de quem não quer pagar a taxa média de R$ 50 por tonelada dos aterros sanitários, um problema que é agravado pelo fracasso nas tentativas de ampliação da coleta seletiva e que, para Minc, é também uma questão de educação ambiental. âEstamos atrasadÃssimos nisso, temos traço de educação ambiental. As prefeituras deveriam contratar cooperativas de catadores para que fossem feitas coletas diárias, escalonadas, nos bairros populares, mas isso não é feitoâ.
O deputado não considera o fim dos lixões propriamente um legado dos Jogos OlÃmpicos de 2016. âNem se falava em OlimpÃada quando começamos a tratar da extinção dos lixões na Secretariaâ. Tião, por sua vez, não esconde a expectativa frustrada com relação aos Jogos da cidade. âEsperávamos um projeto para empregar pelo menos 40 catadores no Maracanã, no Parque de Madureira e na Vila OlÃmpica, mas alegaram falta de verba e só 10 catadores vão trabalharâ.
Na página 79 do Caderno de Encargos da Rio 2016, no item sobre a gestão dos resÃduos, está previsto que âtodo resÃduo gerado dentro e fora das instalações deverá ser descartado conforme a PNRS â PolÃtica Nacional de ResÃduos Sólidos. Incluindo o manuseio, coleta, transporte, transbordo (quando necessário), segregação e destinação final conforme as normas de sustentabilidade do Rio 2016 e legislação local vigenteâ.
A frustração de Tião com a OlimpÃada se soma ao atraso dos projetos que viu nascer, como o Catadores em Rede Solidária (CRS), uma parceria entre a Secretaria de Estado do Ambiente (SEA), o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), a organização não-governamental Pangea, Centro de Estudos Socioambientais, e a Fundação Getúlio Vargas, por meio da FGV Projetos. âAqui em Gramacho estamos vivendo de parcerias com a iniciativa privada. Dos governos, hoje, não tem saÃdo mais nadaâ, diz o presidente da ACAMJG.
Firmado em junho de 2012, durante a conferência sobre o clima Rio+20, o CRS chegou a mapear a situação de 3.084 catadores cadastrados em 41 municÃpios do estado, mas não avançou na inclusão social desses catadores. O relatório trimestral sobre o programa, apresentado em março deste ano na CPI dos Lixões, da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), aponta que âa previsão é que o projeto não atinja 100% de execução ao final de dezembro de 2016. Faltará a conclusão das atividades de assessoria e capacitação para os empreendimentos e para a formação das redesâ.
Em Duque de Caxias, a prefeitura mantém um galpão nos arredores do antigo lixão de Gramacho que emprega 20 catadores na coleta seletiva com um salário de R$ 1,2 mil. Para Tião, levando-se em conta o universo de 1.707 catadores que viviam do antigo lixão e eram a fonte primária de uma economia local que gerava outros 6 mil empregos, é pouco. “As fábricas dos arredores do lixão dispensavam entre 800 e 900 toneladas só de pet por semana. Muitas casas agora não têm nem água, cortada com o fim das fábricas. No lixão eram 12 mil toneladas sendo despejadas por dia, à disposição dos catadores. Hoje os resÃduos estão sumindo, temos de ir atrás deles”.
Para isso, a ACAMJG conta com três caminhões. Um deles veio junto com os três galpões, o prédio e a inauguração do polo de reciclagem de Gramacho, em 2011; os outros dois saÃram de projetos inscritos na Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Também estão para chegar ao Centro de Referência em Coleta Seletiva Valter dos Santos R$ 500 mil em máquinas como esteiras, prensas, moinhos de vidro e elevadores. A cooperativa emprega 80 pessoas com salários entre R$ 1,2 mil e R$ 1,6 mil, e coleta material de clientes cadastrados, entre eles órgãos do governo federal e empresas.
Tião não vai nos caminhões nem trabalha mais como catador. Fica a maior parte do tempo na administração da cooperativa, onde faz de tudo. Além das palestras, também sai de vez em quando para buscar parcerias apresentando propostas de coleta seletiva. “Cada posto de trabalho depende da capacidade de produção. Se eu fosse botar mais gente para trabalhar aqui, teria de baixar o salário pra R$ 500”, conta o ex-catador que chegou no lixão de Jardim Gramacho aos 11 anos, com a mãe, Gerusa Maria, e mais sete irmãos, e aos 13 começou a trabalhar por lá.
Em 2014, Tião lançou o livro Do lixo ao Oscar, contando sua vida antes e depois do filme de Vik Muniz. Depois do conto de fadas pessoal, ele ainda espera a realização do sonho coletivo de todos os catadores, a expansão e consolidação da coleta seletiva como hábito arraigado da população, com apoio de governos e prefeituras, o que, pelo visto, vai ficar para depois das OlimpÃadas. “Temos algumas iniciativas como referências aqui e ali, mas na grande maioria dos casos, o lixo ainda é algo a ser empurrado para debaixo do tapete”.
