“A infância é a semente, o futuro da nação”, dizia um dos primeiros versos do samba da Porto da Pedra em 2001, ano em que sagrou-se campeã do grupo de acesso A. Desenvolvido para celebrar os 10 anos do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), o enredo “Um sonho possÃvel! Crescer e Viver! Agora é lei!” venceu não só na avenida. No ano seguinte, a agremiação de São Gonçalo abraçaria a criação de um programa social para ensinar artes circenses a crianças carentes da região, o Crescer e Viver. E deu samba também no circo.
[g1_quote author_name=”Vinicius Daumas” author_description=”coordenador do Crescer e Viver” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]
A rua é um lugar de sedução. Se houver um espaço que ofereça risco e seja tão sedutor como a rua, melhor. E o risco é intrÃseco à atividade do circo
Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosCom a necessidade de crescer não só no nome, o projeto posteriormente deixou as dependências de Porto da Pedra e se abrigou debaixo de uma lona vizinha à estação do metrô da Praça Onze, região central do Rio de Janeiro. Segundo um dos idealizadores, Vinicius Daumas, uma das propostas é trabalhar com o conceito “aberto” de circo social. “à uma ferramenta para influir na formação por meio das artes circenses, envolvendo crianças em estado de risco. A rua é um lugar de sedução. Se houver um espaço que ofereça risco e seja tão sedutor como a rua, melhor. E o risco é intrÃseco à atividade do circo”, analisa Vinicius.
A Escola de Circo Crescer e Viver divide-se em dois programas: o Circo Social, para crianças e jovens entre 7 e 17 anos de comunidades populares, e o Profac (Programa de Formação do Artista de Circo), para idade entre 16 e 25 anos, destinado à profissionalização.
Primeiros passos no picadeiro
O Circo Social ensina os alunos a dar os primeiros passos no picadeiro. Embora destinado principalmente a jovens carentes, não discrimina quem é oriundo de classes sociais mais favorecidas.
O Profac equivale a uma universidade de circo e tem duração de três anos. Vinicius diz que o curso tem três objetivos: formar o performer, o empreendedor e o educador. Para ingressar no Profac, é necessário passar por uma prova de aptidão fÃsica, que leva em conta força, explosão e equilÃbrio, entre outras exigências. São cinco dias de testes. As inscrições para o próximo ciclo se encerraram no dia 27 de setembro. Os 60 candidatos lutarão por 25 vagas valendo-se apenas do talento, pois a prova não considera a condição social.
Atualmente, há 80 alunos no Circo Social (que funciona às terças e quintas à tarde e aos sábados de manhã) e 60 no Profac (segunda a sexta de manhã). Ambos são gratuitos. A escola conta com profissionais de circo, dança e teatro, além de monitores.
Há quem migre de um programa ao outro, como Richard Gomes Estrela, o Bubuco, 18 anos. Ele que começou aos 6 anos no Circo Social, onde agora é monitor ganhando R$ 400,00 mensais, e cursa o Profac. Morador de comunidade na Cidade Nova, diz que o Crescer e Viver mudou sua vida: “Eu era muito levado. Agora aprendi a respeitar os outros”.
Nascido Paulo Ricardo da Silva Moraes, Bubuco fui criado pela madrinha. O pai, traficante, e a mãe, viciada em drogas, morreram. Por ser muito irrequieto, passou um ano e três meses morando em um abrigo. Até que a sua madrinha ultimou: “Ou se comporta ou não te levo mais para o circo”. Hoje é uma das referências na escola.
Turma misturada
Há três anos no Circo Social, Graziele Fernandes, 15 anos, só não largou o curso ao se mudar do Morro São Carlos, nas vizinhanças, para Costa Barros, Zona Norte do Rio, por paixão à s atividades do picadeiro. “Gosto do meio artÃstico. Quero ser atriz, profissão que posso conciliar com o circo. Tem pessoas que acham que não dá futuro. Eu acho que dá”, afirma a adolescente, durante uma pausa nos exercÃcios de tecido.
Com apenas 10 anos de idade, Daniel Gomes Nunes também traça seu futuro: “Falam que eu daria um bom palhaço”. Indagado por quê, explica: “Faço muita piada na hora da aula”.
Da ideia empreendida há 15 anos com o amigo Junior Perin, então vice-presidente de projetos sociais da Porto da Pedra, Vinicius Daumas diz não ter previsto inicialmente os avanços que a combinação de gente tão distinta socialmente poderia proporcionar embaixo da lona da Crescer e Viver. Para ele, um feliz resultado: “Dessa mistura de classes surge uma nova geração sem os vÃcios que hoje mais nos assolam, vindos da barreira social. Não tem preconceito de classes sociais e econômicas. Esse é o maior benefÃcio para o futuro”.

Muito Bacana Marcelo! Grato pela atenção!