Inclusão de cegos por meio do futebol e outros esportes

Atletas do Urece no Futsal

Urece - Esporte e Cultura para Cegos

Por Karolyna Gomes | Mapa das ONGsODS 10 • Publicada em 29 de outubro de 2015 - 04:49 • Atualizada em 3 de setembro de 2017 - 01:39

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Atletas do Urece no Futsal
Atletas paralímpicos da Urece participam do Intercâmbio de Futsal para Cegos na Argentina

Formar a melhor equipe esportiva de deficientes visuais do Brasil para competições nacionais e internacionais. Com esse sonho nasceu, em outubro de 2005, a Urece – Esporte e Cultura para Cegos. Urece não é uma sigla, e sim um nome próprio, surgido entre os atletas de futebol como sinônimo de raça, vontade e entrega. Atualmente, a instituição mantém equipes de atletismo, natação, goalboll feminino e masculino, futebol para cegos e futebol de baixa visão. No Brasil, existem mais de 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual, dos quais 582 mil cegas e seis milhões com baixa visão, segundo dados do Censo Brasileiro de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Presidida pelo campeão paralímpico de futsal, Anderson Dias, e fruto da união de nove amigos que se conheceram  no Instituto Benjamin Constant, a Urece completa 10 anos em 2015. “O esporte está em nosso DNA”, diz o coordenador de Relações Institucionais e um dos fundadores da ONG, Gabriel Mayr. As comemorações serão em grande estilo: a ONG implementará, ainda este ano, a narração audiodescritiva no Maracanã. A iniciativa tem como parceira a Football for Hope, área de Responsabilidade Social da Federação Internacional de Futebol (Fifa). As duas entidades começaram a se aproximar em 2013, durante a Copa das Confederações.

O projeto possibilitará uma experiência completa aos deficientes visuais que forem assistir às partidas de futebol do Campeonato Brasileiro. Os equipamentos foram doados pela Fifa, e uma ONG britânica desenvolveu o projeto para a entidade internacional, o Centro de Acesso ao Futebol na Europa (Cafe),  treinou 16 voluntários, que narraram os jogos. A meta agora é sair à cata de investidores-chave nas áreas de futebol, deficiência, igualdade e arquitetura de estádios.

Queremos tirar pessoas com deficiência de casa, proporcionando uma experiência vibrante com o esporte que é paixão nacional: o futebol

Mauana Simas
Coordenadora do projeto narração audiodescritiva

A estreia da tradução intersemiótica – outro nome dado à narração audiodescritiva – começou na Copa do Mundo de 2014. O recurso tecnológico já está disponível em outros países, especialmente na Europa, onde a inclusão dos deficientes está presente em diferentes esportes, como vôlei, basquete, esqui e Fórmula 1. “A audiodescrição é semelhante à narração de rádio, mas com ênfase na experiência do local onde está sendo realizado o evento esportivo”, explica a coordenadora do projeto, Mauana Simas, jornalista com pós-graduação em Acessibilidade Cultural. Narradores especialmente treinados fornecem descrições adicionais de todas as informações visuais significativas, como linguagem corporal, expressão facial, entorno, lances, uniformes, cores e qualquer outro aspecto importante para descrever o ambiente do estádio e o empenho dos atletas. “Queremos tirar pessoas com deficiência de casa, proporcionando uma experiência vibrante com o esporte que é paixão nacional: o futebol”, diz Mauana.

“Estamos conseguindo viabilizar a realização desse projeto no Maracanã com a ajuda financeira do Football for Hope. Mas se outro estádio, seja no Rio de Janeiro ou fora, nos solicitar o serviço, não teremos, a princípio, como nos comprometer”, lamenta Mayr. É que a Urece ainda não conseguiu finalizar um modelo de negócios que seja autosustentável. “Achávamos que o Maracanã compraria a ideia, e de fato eles nos apoiam, mas apenas cedem o espaço no estádio. Para desenvolver a transmissão temos custos que envolvem treinamento, deslocamento, entre outros. Ainda estamos estudando a melhor forma de captação, uma vez que o projeto é muito novo, e nunca foi desenvolvido, de fato, no país”, afirma Mayr.

Pioneirismo, inclusão social e padrinhos famosos

Gabriel Mayr, fundador da ONG, com Pelé

Além dos títulos conquistados nos campos de futsal, a Urece é pioneira em projetos esportivos para deficientes visuais no país. Quatro anos depois de abrir as portas, montou a primeira equipe das Américas de futebol feminino para cegos e as atletas disputaram o primeiro torneio mundial da modalidade ocorrido em  Marburg, na Alemanha.

O pioneirismo está presente ainda em outras modalidades esportivas. O jornalista Marcos Lima se tornou o primeiro brasileiro cego a esquiar na neve. A façanha, realizada através do projeto ‘Esquiando no Escuro’, aconteceu em 2008, nas montanhas do interior da República Tcheca.

Uma década depois de abrir as portas, a Urece descobriu que seu papel vai além da medalha de ouro conquistada nos campeonatos. Ao formar a primeira equipe feminina cega de futebol das Américas, os integrantes entenderam que o esporte é uma ferramenta de inclusão social. A ONG hoje tem assento no conselho da Rede Esporte Pela Mudança Social (Rems) e faz parte da rede nacional e global da Street Football World.

A falta de estrutura que tínhamos quando o projeto foi iniciado nunca nos abalou. Muito pelo contrário. Nossa proatividade e empenho nos ajuda, até hoje, a adquirir mais conhecimentos

Gabriel Mayr
Sócio-fundador da Urece

Nos seus primórdios, a Urece nem sabia direito o que era CNPj. O que fez a diferença na sua trajetória empreendedora foi participar do programa Shell Iniciativa Jovem, de onde saiu o primeiro plano de negócios. Começava aí um processo de profissionalização, que foi amadurecendo com o tempo. Oito anos depois, um novo modelo de negócios seria construído. A Urece começaria a vender cardápios em braille para o comércio do Rio de Janeiro.

Praticamente sem dinheiro para continuar suas atividades, a Urece foi convidada a participar de um video com a Budweiser. “O projeto se chamava ‘Rise as One’ (Levantar Comum, na tradução literal), uma campanha para a Copa do Mundo, que reuniu sete histórias, e uma delas foi conosco”, lembra Mayr. A participação incluía à época um prêmio: uma Van, no valor de superior a R$ 100 mil reais.

“Nós teríamos custos com seguro, motorista, manutenção, etc. Era um momento difícil, estávamos quase fechando por falta de dinheiro para tocar os projetos. Então negociamos essa doação, e pedimos uma impressora que imprime em braille. Os custos dela são equivalentes a uma Van”, relembra Mayr. O prêmio deu novo gás para a equipe. Com a impressora, passaram a produzir 50 cardápios mensais. A clientela foi crescendo aos poucos: Bobs, The Bakers, Amarelinho, Umas e Ostras, KFC, Rede Windsor, Lamas, Confeitaria Colombo, La Fiorentina… Além dos cardápios, a ONG passou também a produzir livros e apostilhas.

A Urece foi ganhando musculatura, novos parceiros e, especialmente, se profissionalizando. A próxima etapa é apostar na transparência. O site da entidade passará a publicar periodicamente relatórios com as prestações de contas.

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