âCada vez que a minha madrinha ia fazer o álbum comigo, eu me sentia amado. A gente não saÃa muito do abrigo, então o contato com alguém de fora fazia com que eu me sentisse uma pessoa de verdadeâ. Essa é a lembrança que Willian Jonathan dos Santos, 22 anos, tem de uma das ações do Instituto Fazendo História, uma ONG de acolhimento que ajuda crianças e jovens afastados da famÃlia a se apropriar de suas histórias e transformar sua trajetória de vida.
O álbum ao qual Willian se refere faz parte do primeiro projeto do instituto, o Fazendo Minha História. Esse trabalho começou informalmente em 2000, quando a psicóloga Claudia de Freitas Vidigal trabalhava em um abrigo com 20 adolescentes e seus bebês ouvindo e contando histórias. A abordagem do resgate de histórias de vida foi criada a partir de sua experiência como voluntária na antiga Febem (Fundação Estadual do Bem Estar do Menor), hoje Fundação Casa, em 1997. Logo depois, em 1999, atendeu gratuitamente crianças abrigadas em seu consultório. A consolidação dessas experiências resultou na criação da ONG, em 2005.
Uma década depois, o Fazendo Minha História atendeu 1.249 crianças e jovens em 70 serviços de acolhimento com 543 colaboradores voluntários. Vale lembrar que a medida de acolhimento é excepcional e provisória, e existe para garantir os direitos de crianças e adolescentes quando estes estão ameaçados ou são violados. Segundo dados do instituto, 22% dos recursos mobilizados são aplicados neste projeto.
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Veja o que já enviamosAs fontes de recursos são diversas, mas 35% do dinheiro da instituição é doado por empresas. O restante vêm de doações de pessoas fÃsicas, projetos com apoio de leis de incentivo, como, por exemplo, Rouanet, Fumcad, Condeca, Proac, editais e prêmios, programa de Nota Fiscal Paulista, plataforma de crowdfunding e rendimento de fundo reserva.
Hoje, o Fazendo Minha História é o maior projeto da ONG e uma importante referência na área de acolhimento de crianças e adolescentes. A psicóloga Lara Naddeo conta que a parceria é feita com abrigos interessados no trabalho da instituição e que o primeiro passo é sensibilizar as equipes. âPrimeiro, nós formamos os nossos voluntários. Depois, preparamos a equipe do abrigo para receber o projeto. Aà implementamos uma biblioteca com cerca de 250 livros e apresentamos o projeto para as crianças. Nenhuma é obrigada a participar, mas a maioria quer fazer.â Em 2015, foram distribuÃdos 3.732 livros e 586 profissionais participaram das formações do projeto.
Durante pelo menos um ano, cada voluntário atende duas crianças ou jovens de 0 a 18 anos. O vÃnculo construÃdo permite que os encontros sejam um espaço para elas expressarem suas vivências e histórias por meio de atividades, brincadeiras, leituras e também com a montagem do álbum. âNós criamos uma metodologia que facilita falar de história de vida com a criança e o álbum é uma ferramenta importanteâ, diz Lara. O voluntário dá apoio e ajuda, mas cada criança faz o seu álbum como quer, com suas fotos, desenhos, textos e colagens.
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âQuando as histórias podem circular com mais facilidade, o educador fica mais preparado para lidar com as crianças, porque entende melhor as manifestações e comportamentos de
cada uma. Já as crianças conseguem lembrar e entender o que aconteceu e vai acontecer com elas, e ter o registro é importante para que essas lembranças não se apaguem
à com muito carinho que Willian Jonathan fala dos dois álbuns que fez durante os 14 anos no serviço de acolhimento. âTer pessoas pensando no seu bem-estar e no seu futuro me tornou quem sou hoje. Além de colocar a nossa história naquele livro, a gente pensava o porquê de tudo que acontecia, o que causou nossa moradia naquela ONG. Isso ajuda muito a refletir, se tornar um cidadão e ter voz para falar o que você pensa.â
Outro projeto do Instituto que também mudou a vida de Willian Jonathan foi o Grupo nÃs, que oferece apoio para os adolescentes na fase de transição da vida no abrigo para a vida adulta autônoma. âQuando eu saà não tinha ninguém da minha famÃlia biológica. No grupo consegui trabalhar a questão de moradia, como se manter num trabalho, postura no trabalho, além de participar de discussões e conhecer São Pauloâ, lembra ele, que hoje cursa Fotografia e trabalha em uma academia de ginástica.
Para além do abrigo
Em mais de 10 anos de existência, a ONG criou outros projetos: o Com Tato, que oferece atendimento psicológico para crianças e adolescentes; o Primeira Infância, focado no acolhimento de bebês; a Formação para técnicos e educadores que trabalham em abrigos; o Apadrinhamento Afetivo, no qual um voluntário se torna padrinho ou madrinha de uma criança ou adolescente e o acompanha em consultas médicas, reuniões escolares e outros eventos, além de ter uma convivência familiar e comunitária com a criança. Há também Acolhimento em Rede, uma grupo virtual de troca de experiências e informações na área de
acolhimento.
O mais novo projeto é o FamÃlias Acolhedoras, em que uma famÃlia acolhe bebês de zero a dois anos em sua casa, evitando que eles fiquem em abrigos. Pioneiro no Brasil, o trabalho foi lançado este ano e faz parte de um posicionamento polÃtico do instituto, que é contra a institucionalização de crianças com menos de dois anos. Já existem três famÃlias no programa e outras 12 em processo de formação. Para se candidatar, é preciso ter no mÃnimo 25 anos, não estar no cadastro de adoção e nem ter esse desejo.
A atuação polÃtica da organização acontece também na articulação com as Varas de Infância e Juventude, o CREAS (Centro de Referência Especializado em Assistência Social) e a Secretaria Municipal de Assistência Social. âProcuramos provocar a construção de novas polÃticas para crianças e adolescentes acolhidos participando de espaços de discussão como seminários, grupos de discussão, palestras que pensam em metodologiasâ, explica Daniela Vasconcellos, uma das responsáveis pela área de desenvolvimento institucional. O Fazendo História também participa da campanha Fale Por Mim, contra a institucionalização de crianças menores de 3 anos na América Latina e Caribe.
