Grifes famosas engajadas no empreendedorismo social

Empreendedorismo social para moradores de comunidade

Pipa Social

Por Fabio Terra Teixeira | Mapa das ONGsODS 10 • Publicada em 12 de novembro de 2015 - 11:05 • Atualizada em 3 de setembro de 2017 - 01:37

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Empreendedorismo social para moradores de comunidade
Empreendedorismo social para comunidades

Há quatro anos que a ONG carioca Pipa Social produz moda ética e estimula o empreendedorismo social. Seu público alvo são mulheres de todas as idades, de diferentes comunidades do Rio de Janeiro. Se não fosse a ajuda de estranhos e a parceria costurada com grifes como Farm, Cantão e Osklen, a entidade já teria fechado as portas da sua sede, em Botafogo, na zona Sul do Rio de Janeiro. Além de contar com o trabalho voluntário de profissionais de moda, a entidade também recebe estagiários da PUC-Rio e da Universidade Veiga de Almeida.

A idealizadora do projeto, Helena Rocha, acredita que a entrada da Pipa Social no varejo é a única forma de viabilizar economicamente o projeto e, sobretudo, criar oportunidades de emprego e renda. “Precisamos diversificar nosso cardápio de clientes”, comenta. A alternativa veio de uma parceria com o shopping Rio Sul, que forneceu o espaço para que os produtos sejam vendidos diretamente ao consumidor. “A saída seria deixar de ser fornecedora e começar a atuar no varejo”, diz Helena. O quiosque da Pipa Social vai ficar no shopping até o final do ano.

Outra frente de trabalho será a criação de um site de vendas online. A previsão é de que até novembro ele esteja de pé. O e-commerce está previsto para entrar em operação em novembro.

A Pipa Social vive da ajuda de terceiros, seja através de doações, especialmente de tecidos e aviamentos, ou de ajuda financeira. Cada beneficiária ganha uma bolsa de estudos no valor de 300 reais. É uma ajuda de custo para bancar transporte e a compra de materiais para confeccionar as roupas. O dinheiro é repassado pelo Instituto Phi.

Formada em comunicação, Helena é uma veterana do terceiro setor. Começou a atuar na área de forma voluntária, há mais de 20 anos, criando planos para divulgar o trabalho das ONGs. Logo, começou a se envolver mais e passou a montar cursos de capacitação:

– Comecei na Saúde Criança, onde montamos cursos de capacitação para mulheres que estavam fora do trabalho por causa de filhos com doença crônica. Muitas delas eram sozinhas. Os maridos abandonavam porque elas tinham dado “filho com defeito” para eles. Queríamos dar um trabalho para elas fazerem enquanto as crianças estavam internadas, então montamos um curso de design de roupas e acessórios. Dávamos a formação e montávamos uma lojinha dentro do hospital para elas venderem o produto. Foi uma iniciativa eficaz, que se espalhou.

Desde então, Helena tem trabalhado com a capacitação de mulheres por meio da moda. O problema, de acordo com ela, é que ao fazer o acompanhamento das beneficiadas, notava que apesar de aprenderem a técnica, elas não conseguiam viver do conhecimento adquirido.

Atualmente são atendidas 15 mulheres, mas Helena está convencida que se conseguir ampliar o número de bolsas de estudo disponível, esse número pode rapidamente triplicar. Segundo cálculos preliminares, a moda ética produzida na Pipa Social ajuda em muito a aumentar a renda das beneficiárias do projeto. Hoje, este percentual está em torno de 40%, mas Helena aposta que este incremento de renda pode chegar a 60%. Até o momento, cerca de 30 mulheres foram beneficiadas diretamente com as bolsas. Outras, porém, estiveram na ONG e aprenderam técnicas mesmo sem o estímulo financeiro. O banco de talentos da Pipa conta hoje com 104 pessoas.

Microempreendedorismo feminino

Cinco bolsistas já conseguiram abrir seu próprio negócio. Além de fazerem serviços para suas próprias comunidades, elas também pegam demandas da própria Pipa. A ideia era que a ONG se tornasse, além de uma central de capacitação de mão de obra, uma interface entre as mulheres das comunidades e o mercado. Uma das empresas criadas pelas ex-bolsistas é o Panda Kraft, que vende roupas e acessórios infantis.

– São duas moças que se uniram para abrir esta pequena lojinha. Agora, com essa nossa tentativa de levar a Pipa ao varejo, até chamamos elas de volta. Na prática, se tornaram nossas fornecedoras – comenta Helena. – Só capacitar não é o suficiente. O que tentamos fazer é multiplicar isso. Queremos inseri-las no local onde vivem e permitir que elas criem seu próprio mercado. Uma crocheteira, por exemplo, não vai ser contratada em lugar nenhum, vai ser autônoma. Por isso queremos que ela se profissionalize. Se elas não conhecerem os canais para isso, acabam voltando a fazer faxina, perdendo o que aprenderam.

O que fazemos aqui é mais delicado. A maioria das moças é aposentada ou dona de casa. Trabalhar aqui é uma forma de complementar a renda.

Georgina dos Santos
bolsista do Pipa Social

Georgina dos Santos, 58 anos, conhecida como “Tuca”, é hoje uma das 15 bolsistas da Pipa. Moradora do Dona Marta, comunidade próxima à sede da ONG, ela é uma das que mais comparece ao local. A vida toda trabalhou com a elaboração de roupas de carnaval, especialmente para o bloco Espanta Neném.

– Era um trabalho menos especializado. A roupa de carnaval não precisa durar nem uma lavagem. O que fazemos aqui é diferente, mais delicado – conta ela. – A maioria das moças é aposentada ou dona de casa. Trabalhar aqui é uma forma de complementar a renda.

Segundo Tuca, o dinheiro já a ajudou a tocar uma reforma em sua casa. O perfil de Tuca não difere muito do de outras mulheres da ONG. De acordo com Helena, a maior parte trabalhava em fábricas de roupa, na linha de produção.

– A maioria é de facção (termo usado para descrever fábrica de roupa) – conta Helena. – Elas vão, ficam dez horas por dia e se não batem a meta tem um valor descontado do salário. É um esquema bem desumano. Aí chegam aqui e acham que estão no céu, até porque aqui vão fazer várias coisas diferentes, não só uma parte só da roupa.

Há cinco meses como voluntária, Mariane Pimenta de Andrade é uma das poucas que não veio por meio de instituições de ensino superior.Com formação em moda, mas sem exercer a profissão, ela procurava uma forma de contribuir para a sociedade quando recebeu a indicação da Pipa como um local onde seus talentos seriam úteis.

– Além da minha formação em moda, tenho um bom inglês. Então estava procurando algum tipo de trabalho em uma destas duas áreas. Por sorte acabei podendo usar meu conhecimento mais específico, quando me contaram da Pipa e vi que aqui se trabalha com voluntárias.

Agora Mariane atua como modelista, orientando as bolsistas na confecção das peças que servirão de modelo para uma produção maior. O trabalho precisa ser feito com cuidado. Uma falha na peça modelo significa redução no lucro da venda ou diminuição no pequeno estoque de tecido que a ONG recebe de doação. A falta de experiência das voluntárias, por isso, se torna um problema.

– Há uma dificuldade com as voluntárias porque é tudo muito sazonal. Teve uma época em que só tínhamos voluntárias inexperientes. Tentamos dar uma lapidada, mas a produção sofre – conta. – Também há o problema do estágio não ser pago. Se elas arranjam algo que pague, abandonam a Pipa.

Para ela, uma das maiores dificuldades é garantir um corpo de voluntárias constante. O problema é reconhecido por Helena, que o elenca entre suas prioridades caso consiga gerar mais recursos. Atualmente, a única funcionária contratada pela Pipa é uma secretária, que ajuda a organizar o dia a dia na ONG.

– As meninas de faculdade estão em estágio voluntário, que é um semestre. Depois de um semestre vem outro grupo. Não tenho condições de pagar. Minha equipe é toda voluntária e quero acreditar que entrando no varejo possamos aumentar a nossa verba. Assim poderíamos pagar alguém para ficar como coordenadora de estilo e orientar as bolsista

Fabio Terra Teixeira

Jornalista formado pela PUC-Rio, desde 2010. Áreas de interesse: Economia, Sustentabilidade e Administração Pública. Especializado em análise de dados e documentos públicos. Trabalha no jornal "O Globo".

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