Numa lanchonete perto do Instituto Nacional de Câncer (Inca), no Centro do Rio, a menina carequinha e de chinelos, de uns 5 anos, aponta para um sanduÃche no balcão. Aflita, a mãe tenta distrair a criança e sua fome â não porque o doutor tenha imposto restrições à pequena paciente, mas sim porque na carteira não sobrava um tostão. A cena ocorreu há mais de 15 anos e, desde aquele dia, quando pagou o lanche da garotinha, a professora e pedagoga Maria Leonor nunca mais parou de estender as mãos â e a alma â a crianças com câncer e suas mães.
No ano 2000, ao fundar a Casa de Apoio à Criança com Câncer São Vicente de Paulo, no bairro de Irajá, Zona Norte do Rio, Leonor já tinha presenciado inúmeras outras cenas parecidas, enquanto enfrentava um caso da doença na famÃlia. A ONG oferece cama e comida a crianças de baixa renda que moram longe dos hospitais do SUS em que fazem quimioterapia ou radioterapia, no municÃpio do Rio. As mães, claro, também são acolhidas. âTemos hóspedes de outras cidades do Estado do Rio, do Acre, do Maranhão… de vários locais do Brasil onde não há tratamento. Essas pessoas não podem pagar hotel, nem têm famÃlia no Rioâ, explica Leonor.
A Casa também fornece transporte de ida e volta aos hospitais, cestas básicas mensais, recreação e atividades culturais. Como se não bastasse, ainda batalha para que os pequenos tenham acesso aos medicamentos necessários – tarefa nem sempre fácil. Atualmente, a ONG cuida de cerca de 120 crianças e adolescentes, e ainda há uma fila de espera. âPara pernoite, temos vagas para 20 menores e suas mães. Mesmo após a alta, continuamos em contato, fazendo o controle da situação. Há crianças que só têm liberação definitiva 10 anos depoisâ, conta a dona da Casa voltada a pacientes de até 18 anos de idade, mas cujo fluxo maior é de pequenos dos 12 aos 14 com câncer, doença falciforme, talassemia e outros males graves do sangue não contagiosos.
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Veja o que já enviamosAo longo de 16 anos, a Casa tem visto alguns de seus pacientes não resistirem, mas também coleciona histórias com final feliz. Uma delas é a de Paula Mara da Silva André, vÃtima de leucemia há 10 anos, quando tinha apenas 12. Moradora da cidade de Itaperuna, noroeste do Estado do Rio, a garota que sonhava ser professora passou uma temporada na Casa com a mãe. âEla fazia quimioterapia, mas continuava estudando. Ia para sua cidade fazer provas, depois voltava a ser internada â era aquele sofrimento. Até que finalmente se curou, virou professora e, em 2014, se casouâ, lembra Leonor.
Doações e voluntariado
A ONG não tem parceria com governo, nem conta com apoio fixo de empresas. As atividades são mantidas com doações feitas pela sociedade civil. âPrecisamos muito de alimentos. Quem puder doar, peço que entre em contato antes, para saber quais os itens da cesta básica que estão em faltaâ, diz Leonor. Brinquedos, roupas e sapatos também são recebidos com imensa alegria pelas crianças e suas mães, em ocasiões como o Dia das Crianças e o Natal, quando a Casa oferece festividades para os hóspedes.
âTambém precisamos de dinheiro que nos ajude com a manutenção e as contas da Casaâ, diz a pedagoga, que sonha poder um dia comprar o imóvel, que é alugado. Para captar recursos, Leonor conta com uma pequena equipe de telemarketing e também com a ajuda de voluntários. Um deles é a jornalista Sheila Vasconcellos, que divulga a Casa com paixão e que, no inÃcio deste ano, ganhou o prêmio internacional Bakken Invitation Award 2015, concedido a projetos de pessoas de todo o mundo que, enquanto lutam contra doenças, encontram tempo para fazer trabalho voluntário. Portadora de diabetes tipo 1, Sheila passou a usar bomba de insulina 24 horas por dia após ter sofrido dois acidentes graves por perder os sentidos devido a desequilÃbrio nos nÃveis do hormônio. Seu projeto, vencedor do prêmio em dinheiro, é voltado à capacitação profissional das mães hospedadas na Casa de Apoio.
Mães heroÃnas
âA vida da mãe para quando o filho fica doente. O mundo cai. Ela larga tudo para cuidar da criança. Enquanto isso, não estuda nem trabalha… No dia em que a criança receber alta ou (Deus a livre!) falecer, ela vai precisar de sustento. Então, resolvemos dar cursos profissionalizantesâ, explica Leonor. As oficinas gratuitas â de Beleza, Artesanato ou Gastronomia â são oferecidas enquanto mãe e criança estiverem morando na Casa. âAssim, elas podem montar um buffet, ou fazer maquiagem e cabelo, ou produzir bijuteriasâ, exemplifica.
Além das oficinas, a Casa promove o Dia da Beleza duas vezes por ano, no Dia das Mães e no Natal. Nessas datas, vários salões da região participam de um verdadeiro mutirão de autoestima. âElas fazem cabelo, unha, tudo de graça. E ainda ganham um almoço especialâ, detalha Leonor. Os quitutes ficam por conta do especialista em gastronomia José Macieira, também responsável pelas oficinas profissionalizantes oferecidas à Casa pela sua ONG, o Instituto Macieira. âCom autoestima reforçada, a mãe consegue superar melhor esse momento e fortalecer o filho. A mulher é o eixo da famÃlia. à criatividade e prosperidade!â, entusiasma-se Leonor.
Também com os recursos do prêmio recebido por Sheila, Leonor pretende comprar máquinas para confeccionar camisetas e sandálias com a marca da Casa. A ideia é vender as peças no site e na própria ONG, para visitantes. âà mais uma maneira de tentar dar sustentabilidade a nossa atividadeâ, afirma a pedagoga formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) que, antes de abrir a Casa, trabalhou como professora em escolas de comunidades carentes, atuou em projetos sociais ligados a jovens usuários de drogas e moradores de rua e foi dona de uma escolinha de Maternal e Jardim de Infância. Quando o câncer cruzou o caminho de sua famÃlia, mudou também o rumo de Leonor. âHoje sei que estou exatamente onde deveria estarâ, conclui.
