A infância passou sem que Hygor, hoje com 27 anos, jamais tivesse sido chamado para uma festa de aniversário ou para uma tarde de brincadeiras na casa de um amiguinho. A infância está passando, e a história insiste em se repetir com seu irmão, Nilton, 7. Um dia, JanaÃna, a mãe, resolveu percorrer os becos do Morro Chapéu Mangueira e bater à porta das cerca de 30 casas que, como a dela, abrigam crianças especiais na comunidade do Leme, Zona Sul do Rio. Nomes e detalhes variavam, mas o mesmo enredo de exclusão lhe foi contado três dezenas de vezes. As respostas das outras mães só confirmaram o que seu coração já sabia.
[g1_quote author_name=”JanaÃna Rodrigues” author_description=”coordenadora da SOS Anjos Especiais” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]
Essas crianças quase não são vistas nas áreas de lazer, tanto da favela quanto do shopping. Mas elas existem! Isso sempre me incomodou, por isso resolvi agir
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Veja o que já enviamosNaquele ano, 2012, JanaÃna Rodrigues Novaes virou a JanaÃna dos Anjos. Criou a ONG SOS Anjos Especiais e passou a promover para esta criançada, em seu quintal, muito mais do que festas de Natal, Páscoa ou 12 de Outubro: criou eventos de inclusão social. “Essas crianças quase não são vistas nas áreas de lazer, tanto da favela quanto do shopping. Mas elas existem! Isso sempre me incomodou, por isso resolvi agir”, desabafa a mulher de 53 anos, que dá duro diariamente no caixa de um mercado e ainda cuida da casa e dos filhos.
Na lida com os meninos, conta com a ajuda do marido, Cosme, 57, funcionário administrativo da Prefeitura. Incapacitado pelas sequelas de uma meningite aos 6 meses, Hygor tem 1,90 metro e 120 quilos, mas age como criança. Já o pequeno Nilton, vÃtima de hidrocefalia, foi adotado pelo casal há 4 anos. A mãe do menino foi morta em decorrência de envolvimento com drogas.
Além de tudo isso, JanaÃna ainda corre atrás de donativos, como refrigerantes, guardanapos, copos, talheres de plástico e outros apetrechos de festa. As doações são a única forma de viabilizar os eventos para os âanjos especiaisâ, já que a ONG não conta com qualquer patrocÃnio. âEu presto contas direitinho. No Natal de 2014, uma moça doou cem reais. Mandei para ela foto do bolo que encomendei e recibo da senhora que fez: quem doa tem que saber em que o dinheiro foi usadoâ, afirma.
Festa de Papai Noel
Sua próxima meta é conseguir doações para voltar a oferecer, em dezembro, o famoso âAlmoço com Papai Noelâ aos âanjosâ do Chapéu Mangueira e da comunidade vizinha, Babilônia. “Também já têm vindo algumas pessoas da Rocinha e da Ladeira dos Tabajaras”, conta. Desde a criação da ONG, em 2012, o único Natal sem a festa foi o do ano passado. “A crise espantou todo mundo, até mesmo os ‘padrinhos’ das crianças, que são ‘da rua'”, explica. ‘Padrinhos da rua’, elucida, são doadores de fora da favela, com melhores condições financeiras, que compram presentes para os âanjosâ, entregues durante o evento.
O momento mágico do festejo natalino é quando o âPapai Noelâ â pai de uma garota do grupo â desce por uma escada e vai abraçar os jovens e crianças. âEles enlouquecem! Mesmo os grandes, que têm cabeça de pequeno, ficam encantadosâ, conta JanaÃna, que não para de imaginar eventos e mais eventos.
âTinha vontade de fazer um de Dia das Mães, mas não tenho condições de dar presentes e não vou tirar essas mulheres de casa para não ganhar nadaâ, diz ela, sonhando em um dia lhes poder oferecer um bolo com desenho da Mulher Maravilha. âTer filho especial e sem dinheiro não é para qualquer uma. Deus exagerou na dose ao nos fazer fortes! As crianças normais crescem e batem asas. As nossas vão ficar conosco para sempre, mesmo depois de grandes como o Hygorâ, constata.
Planos também não faltam para comemorar o Dia dos Pais e até para fazer passeios com os âanjosâ fora do morro. Mas tudo, como sempre, esbarra na falta de recursos. Quando registrou a ONG, JanaÃna acreditou que fosse conseguir algum patrocÃnio. âTirei CNPJ, tudo direitinho, mas e daÃ? Ainda sou só um projeto social. Se você conseguir alguém que te dê aquele âempurrãoâ, você chega lá. Comigo não aconteceu. Mas não vou parar só por causa de dinheiroâ, promete.
Segundo JanaÃna, excetuando os âpadrinhos da ruaâ, geralmente quem faz doações para as festas, como o âAlmoço com Papai Noelâ, é gente humilde, do próprio morro. âSe cada pessoa fosse um pequeno elo, no final terÃamos uma grande correnteâ, ensina.
