No Brasil, a vida de idoso não é fácil. São muitas mazelas, muita humilhação, muito sofrimento. O desprezo da própria famÃlia é o que mais dói. Claro, que cuidar de idoso também não é tarefa fácil. Dependendo do estado de saúde fÃsica e mental, exige muita paciência e extrema dedicação. Mas, nesse mundo enlouquecido, o que é o pesadelo de um, pode ser o sonho do outro. E no bairro do Encantado, mãe, filha e 31 vovôs e vovós transformam o sonho e o pesadelo numa única realidade feliz, na Casa dos Sonhos da Terceira Idade, um lugar de repouso e acolhimento de velhinhos e velhinhas.
A fundadora e presidente da Casa, Leontina Bianconi, 76, nasceu em Taquaritinga (SP), e trabalhava como técnica de enfermagem na Casa de Saúde Liberdade, em São Paulo. âMas, sempre gostei de cuidar de idoso e botei na minha cabeça que ia fazer uma casa de repousoâ, lembra e chora de emoção. Casou com um sargento da Aeronáutica e mudou-se para o Rio. Com 24 anos e dois filhos pequenos, precisou trabalhar para ajudar na renda da famÃlia. E como cuidar de idoso lhe dava intensa alegria, arrumou emprego de enfermeira particular da mãe de um alemão. A partir daÃ, virou cuidadora de idosos, trabalhando na casa das pessoas. âFoi o meu pontapé inicialâ, conta Leontina, que juntou dinheiro e comprou uma casa velha no Encantado. O imóvel permaneceu fechado durante uns anos, enquanto ela juntava dinheiro para realizar a reforma e o seu sonho. âFui fazendo devagar. Eu era a servente de pedreiraâ, lembra e ri.
Fim de um sonho
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Veja o que já enviamosFinalmente, em 1983, abriu a Sonho Meu Casa de Repouso Ltda, que funcionou até 2006. Leontina se viu obrigada a fechar as portas e mandar cerca de 60 idosos de volta para suas famÃlias. âFechou porque minha filha nasceu, minha mãe ficou meio sozinha e veio a lei do idosoâ, explica Ellen Bianconi, filha de Leontina e coordenadora da Casa dos Sonhos da Terceira Idade. âEra muita coisinha para fazer e se adaptar ao estatuto. A fiscalização vinha e dizia âA parede é branco gelo. Ih, não pode, tem que ser branco neve!â. AÃ, implicavam com a barra de apoio dos banheiros, porque estava a 50 centÃmetros de altura e o correto era 45cm. Isso foi desanimandoâ. Porém, um mês após o fechamento, Leontina infartou. âSegundo o médico, foi por estresseâ, diz a presidente da Casa. Então, decidiram reabrir. âUma amiga deu ideia de abrir como ONG. Me meti num curso de estruturação de ONG e captação de recursos. AÃ, a gente tinha o espaço. Fomos devagarinhoâ, explica Ellen.
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Nossas atividades objetivam a auto-estima, o bem estar e a saúde. Dar mais qualidade de vida
[/g1_quote]Hoje, a casa tem 31 hóspedes, sendo quatro não dormem lá. âVêm de manhã e vão embora à noite. A famÃlia não tem com quem deixarâ, conta Ellen. A maioria dos idosos têm Alzheimer, em nÃveis diferentes. âTem uns que começam a conversar e, de repente, esquecem o que estavam falando, uns ficam agressivos e tem uns que não sabem mais nada. Pensam que sou a filha deles ou até a mãeâ, afirma Ellen, que também hospeda idosos que sofreram AVC e alguns senis. A casa tem três andares. No segundo, onde ficam as 18 vovós, são 12 quartos. No primeiro, são seis quartos para os vovôs. âEu durmo no terceiro andar, onde tem a lavanderiaâ, diz Leontina. A Casa cobra pela hospedagem. Quem mora lá há mais tempo paga R$1.200. Mas hoje para internar os preços variam de R$2.600,00 a R$3.200,00. âMas não tem ninguém que paga R$3.200,00â, avisa Leontina, antes de soltar outra risada. Além de cinco refeições por dia, os vovôs e vovós participam de várias atividades. âA gente desenvolve atividades cognitivas e motoras. Faz quebra-cabeça, jogo da velha, caça-palavras. Promove competições entre homens e mulheres. Também trabalhamos com música. Eles adoram âAtirei o pau no gatoââ, conta a psicóloga Rosana Lima, 52. Segundo a assistente social Karen Menezes, 25 anos, o objetivo é romper com a exclusão da sociedade e famÃlia. âNossas atividades objetivam a auto-estima, o bem estar e a saúde. Dar mais qualidade de vidaâ. Karen também verifica os direitos dos hóspedes, além de promover passeios. âForam conhecer o novo Maracanã, museus, fazemos piqueniquesâ.
Doações são bem-vindas
As visitas são diárias, das 14h à s 17h, sendo que o responsável pelo idoso pode entrar mais cedo, à s 9h, e sair mais tarde, à s 19h. Muitas famÃlias acompanham a estadia dos seus velhinhos, mas algumas se limitam a pagar pela hospedagem. âCerta vez, uma moça veio do Flamengo, de táxi, trazer um remédio para a mãe, que custava R$32,00. Ela entregou o medicamento e foi embora correndo porque o táxi estava esperando. Fiquei tão furiosa que perguntei: ‘Você não vai nem olhar a sua mãe? Da próxima vez telefona, porque eu mesma compro o remédio. Assim, você vai ter menos despesa’â, lembra Leontina. Segundo Ellen, a Casa não passa por necessidades, apesar de, à s vezes, faltar uma coisa ou outra. âDe vez em quando aparece alguém na porta fazendo doações. Isso ajuda muitoâ, diz Ellen.
O sonho atual da mãe, da filha e dos 31 vovôs e vovós é reformar a casa e ganhar uma máquina de lavar industrial. âA gente adoraria. Temos seis lavadeiras comuns e todo mês precisamos consertar, porque é muita roupa para lavarâ, explica Ellen. âTambém queria ajuda para construir uma varanda aqui embaixo, com um cantinho para fazer uma horta.O PHI fez para gente um espaço de convivência bacana lá em cima, mas é aqui embaixo que acontecem as atividadesâ. Se alguém se dispuser a visitar os velhinhos, para contar uma história ou apenas dar um abraço, as portas estão abertas.
