Não basta ter o dinheiro da passagem ou direito à gratuidade. Embarcar pela porta da frente de um ônibus, no Rio de Janeiro, e desembarcar ileso pela de trás é um desafio. PerigosÃssimo no caso dos mais velhos.
âFoi tudo muito rápidoâ, conta Luiz Claudio Carvalho de Souza, 51 anos, gari da Comlurb e dublê de motorista de ambulância do Hospital Miguel Souto, na Zona Sul da cidade. No dia 8 de abril ele deixou o plantão no hospital e embarcou, por volta de 19h30m, num ônibus da linha 110 (Leblon-Rodoviária). No ponto final ainda pegaria outro ônibus para Belford Roxo, onde mora com a mulher e dois filhos (19 e 22 anos), A viagem interrompida seria a terceira das quatro que faz diariamente para vir ao Rio trabalhar e voltar para casa. Luiz Claudio, no entanto, voltou ao Miguel Couto com duas fraturas no úmero.
[g1_quote author_name=”Alessandro A. Chaves” author_description=”Ortopedista” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosA entrada dos passageiros, de fato, deveria ser pela porta traseira. à mais simples, especialmente para os mais velhos, se equilibrar. E os motoristas só deveriam dar a partida depois de todos os passageiros embarcados estarem devidamente acomodados.
[/g1_quote]Reza o Google que esse osso, popularmente conhecido como ombro, é longo e o maior do membro superior articulando com a escápula, o rádio e com a ulna através das articulações do próprio ombro e do cotovelo. Resultado: dois meses, no mÃnimo, no estaleiro.
âEu estava em pé, na fila para passar pela roleta, de costas para o motorista. Ele deve ter tido dificuldades porque também desempenhava a função de cobrador. Bateu na traseira de outro ônibus da mesma empresa, o 460 (Leblon-São Cristóvão) e não tive como me equilibrar, não tinha onde me segurar. Fui arremessado sobre o capô e na hora senti muita dorâ.
âEssas quedas e tombos, muitos causando sequelas, são inevitáveisâ, explica o professor Luiz Pinguelli Rosa, mestre em Engenharia Nuclear, doutor em FÃsica e professor titular de Energia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. âAntigamente os passageiros entravam pela porta de trás dos ônibus e se deslocavam na mesma direção em que ele seguia. Não era uma garantia de equilÃbrio absoluto. Mas muito diferente da situação de hoje. Com a mudança da entrada para a porta da frente a força transformada em energia sobre o corpo humano quando o ônibus dá a partida ou freia bruscamente é infinitamente maior quando estamos na direção contrária da que o ônibus segue. A entrada deveria ser por trásâ, ensina Pinguelli.
Embora não haja estatÃsticas sobre acidentes com passageiros dentro de ônibus, motivados ou não por colisões com outros veÃculos, a observação de médicos em prontos-socorros e ortopedistas indica aumento considerável e crescente dos casos, alguns gravÃssimos.
âSão fraturas de tornozelo, ruptura de tendão, ombro, muitas com indicação cirúrgicaâ, explica o doutor Alessandro A. Chaves, 46 anos, há 21 como ortopedista do Miguel Couto, com passagens pela medicina esportiva no Flamengo e no Botafogo. âTambém não são raros os casos de entorses, dores agudas nas costas causadas por choques nas vértebras e dores lombares. Não é comum, mas podem ocorrer fraturas transtrocanterianas no fêmur, muito difÃceis de tratar e que registram 50 por cento de morbidade no primeiro mês.”
Dr. Chaves tem a mesma opinião do professor Pinguelli. âA entrada dos passageiros, de fato, deveria ser pela porta traseira. à mais simples, especialmente para os mais velhos, se equilibrar. E os motoristas só deveriam dar a partida depois de todos os passageiros embarcados estarem devidamente acomodados”.
Os ônibus viraram uma espécie de terror na vida dona Carolina Mendes, 62 anos, diarista obrigada a se deslocar neles pelo menos doze vezes por semana. âO mais difÃcil é subir, o degrau é alto, e me manter de pé até passar pela roleta. Já me machuquei várias vezes. Lembra as gincanas que as escolas promoviam antigamente. à difÃcilâ.
Sem entrar no mérito da questão fÃsica apontada pelo professor Pinguelli, o sindicato que representa as empresas de ônibus do Rio garante que nada há de errado com os veÃculos que prestam serviços na cidade.
âO setor investe maciçamente em qualificação e modernização dos recursos humanos. A Universidade Corporativa do Transporte, que conta com parcerias de instituições de referência em gestão e educação, foi criada em 2008 com esse propósito de oferecer uma atualização constante do treinamento dos profissionais de transporte público e formar excelências em operação e planejamento do sistema de mobilidade urbanaâ.
Embora não especifique quais estudos precederam a mudança da entrada traseira para a dianteira, o Rio Ãnibus garante que a alteração foi feita com base em âestudos técnicos que levam em consideração a segurança das viagens e representam a evolução do sistema de transporte coletivo. à importante ressaltar que a entrada dos usuários pela porta dianteira é uma tendência em todo o paÃs e até mesmo em outras cidades do mundoâ.
Viajante inveterada, a jornalista Françoise Vernot está convencida de que não é possÃvel comparar os ônibus urbanos que circulam no Rio com os que costuma usar na Europa e Estados Unidos. âà tudo rigorosamente diferente. Conforto, respeito ao passageiro, regularidade, o estado de ruas e avenidas onde buracos são raros, diferentemente das crateras com as quais nos defrontamos diariamente. A gente caminha no ônibus em movimento como se flutuasse num tapete. Nem é preciso falar a lÃngua, você percebe a diferença de treinamento dos motoristas por meio de gestos”.
Os relatos no ambulatório do Miguel Couto não confirmam a evolução a que o Rio Ãnibus se refere. âHá tempos a mesma história vem se repetindo: âComo foi a queda, onde o senhor ou senhora caiu?â, eu pergunto. E a resposta mais frequente é: no ônibusâ, conta o doutor Chaves.

à Celso a atividade jornalÃstica de fato anda muito baixa.