Existe um lugar onde a educação é 100% pública, o transporte escolar é gratuito, a delegacia fecha na hora do almoço, o prefeito é professor de filosofia e quase dá para contar nos dedos o número de famÃlias dependentes de auxÃlio social: 12 não têm moradia e 18 recebem cestas básicas. O IDHM (Ãndice de Desenvolvimento Humano Municipal) é 0,806, equivalente ao de Montenegro, das belÃssimas paisagens do filme âCasino Royaleâ, do 007. O número de pessoas extremamente pobres é traço e o de pobres â que recebem até US$ 5,5 por dia â representa apenas 0,37% da população local, estimada em 4.606 habitantes. Ou seja, há apenas 17 habitantes vÃtimas da pobreza, segundo dados do Atlas do Desenvolvimento Humano. Esse lugar se chama Rio Fortuna e é o primeiro municÃpio mais rico em renda familiar e o terceiro em renda per capita de Santa Catarina.
Indicadores da vulnerabilidade social
De acordo com dados do Censo de 2010, última aferição disponÃvel, as famÃlias de Rio Fortuna viviam, em média, com R$ 5.310,87 mensais e, individualmente, com R$ 1.570,51 no local. Santa Catarina é o estado com o menor número de pobres no paÃs: só 9,4% da população vivem com até US$ 5,5 por dia ou R$ 12,9 (a equivalência da moeda refere-se a 2016), como revelou a pesquisa SÃntese dos Indicadores Socias do IBGE 2017.
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Veja o que já enviamosComo se vive neste local tão distante da média dos indicadores do Brasil, paÃs onde um quarto da população é vÃtima da pobreza? O produtor de leite Ambrósio Tenfen, de 59 anos, abriu as portas da sua propriedade, de 50 hectares, para a nossa série de reportagens “Extremos do Brasil” e nos ajudou a entender algumas particularidades de Rio Fortuna. Ele mantém 42 vacas, que produzem de 700 a 900 litros de leite por dia, ou seja, uma média de 19 litros por vaca por dia, equivalente ao patamar europeu e bem distante da média brasileira, de 4,4 litros de leite por animal, segundo dados do IBGE. Ele revela que seu lucro é de R$ 0,30 por litro de leite vendido. Faço as contas e chego ao rendimento mensal de R$ 7.200 no fim do mês supondo que ele produza uma média de 800 litros diários. Se produzir 900 litros, lucrará R$ 8.100.
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Entusiasmado, Ambrósio explica as técnicas que adota em suas terras: ele utiliza ordenhadeiras mecânicas, compra sêmen para inseminação artificial com o objetivo de melhorar a qualidade genética dos animais e se vale da silagem, método de fermentação de forragens para alimentar o gado em tempos de escassez das pastagens, como no inverno. Quantos funcionários trabalham em sua propriedade? A pergunta soa estranha a Ambrósio. Somente ele e sua mulher, Denilde, se encarregam de tudo. São 12 a 14 horas de trabalho diário. âQuando preciso de ajuda para a silagem, por exemplo, chamo um amigo. Depois, retribuo a ajuda trabalhando para eleâ, explica singelamente.
Cai a lenda do âgrande produtor ruralâ, recorrente no imaginário de um habitante das grandes cidades. Aliás, Ambrósio é um pequeno proprietário, segundo a classificação fundiária do Incra (Instituto de Colonização e Reforma Agrária). Sua propriedade tem 3,5 módulos fiscais, cujas medidas no Brasil variam conforme o municÃpio. Em Rio Fortuna, cada módulo tem 14 hectares. As pequenas propriedades têm de um a quatro módulos. âQuando se fala em pequeno produtor no Brasil se pensa num pobre coitado, de chapéu de palhaâ, afirma o engenheiro agrônomo João Paulo Dornelles Reck, da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), citando outro mito. âNão é o que acontece aqui em Rio Fortuna, onde são empregadas técnicas modernas, os produtores têm renda e estão atentos ao mercadoâ, argumenta.
Outra caracterÃstica do municÃpio, na contramão da concentração da exploração dos produtos agrÃcolas por uma única empresa, é a distribuição da atividade econômica e da renda. São 808 propriedades rurais e 700 famÃlias trabalhando nelas. Daà a falta de mão de obra. âHá muitos empreendedores na região. Não há mão de obra para contratarâ, argumenta o engenheiro, que percorre as propriedades oferecendo capacitação e orientação. No caso de Rio Fortuna, praticamente toda a produção de leite, que é a principal atividade agropecuária do municÃpio, é comprada por seis laticÃnios do local. Atrás da produção de leite, estão a fumicultura e a piscicultura, que vem se destacando: Rio Fortuna produz hoje cem toneladas de peixe por ano.
Não há fila de espera nas creches e só 10% da população não têm carro
[/g1_quote]Quando se fala em pequeno produtor no Brasil se pensa num pobre coitado, de chapéu de palha
[/g1_quote]Para que quero saber o que acontece no Rio ou em São Paulo? Só assisto ao noticiário local
[/g1_quote]Quando precisamos de ajuda, chamamos os vizinhos. Depois, trabalhamos em troca para eles também
[/g1_quote]Cerveja é o produto que mais vendemos, mas só depois do expediente
[/g1_quote]Ambrósio é considerado uma das referências para os produtores locais e é por essa razão que Reck nos leva até sua propriedade. Apesar disso, ele não acessa a internet, não tem smartphone e só assiste ao noticiário local. âPara que quero saber o que acontece no Rio ou em São Paulo?â, devolve a pergunta. âCelular bom para a roça é esse aquiâ, aponta para o aparelho, sem internet. Nas horas de lazer, ele e a mulher participam da vida comunitária da igreja. Ãnico dos sete irmãos que é agricultor, pai de duas filhas e avô de quatro netos, o produtor rural poderia ir longe, mas seu sonho está bem próximo: viajar para o Paraná, onde tem parentes.
A distância do mundo virtual parece ser mais uma caracterÃstica geracional em Rio Fortuna, onde há apenas 1,13% de crianças fora da escola e só 0,32% dos moradores de 15 a 24 anos â ou menos de 15 â não estudam nem trabalham. Formado em agronomia, o jovem Luiz Henrique Roecker, de 24 anos, está entre os 99,6% que trabalham ou estudam. Junto com os pais, Roseli e Luiz Gonzaga, de 48 e 53 anos, ele vive da produção de leite e do corte de eucalipto em Rio Fortuna. Vamos até a propriedade da famÃlia com a ajuda da engenheira agrônoma Marcela Padilha, da Epagri. Enfrentamos os 60% de estradas não pavimentadas para chegar até a casa dos Roecker. Recém-formado em Agronomia, Marcela explica, o jovem vem sendo considerado como exemplo para as novas gerações do municÃpio. Luiz Henrique tem smartphone, usa o Google, o WhatsApp, o Facebook e assiste a alguns vÃdeos no You Tube âpara saber novas dicas sobre inseminação das vacasâ, exemplifica ele. O sonho do jovem é um dia poder conhecer as fazendas leiteiras do Canadá e Estados Unidos que, para ele, são referência.
Seu amor pelo que faz está estampado na camiseta que usa, com a inscrição âI loveâ à frente do contorno de uma vaca. O modelo foi escolhido pelos alunos do curso que fez na Epagri, do qual saiu com o prêmio Amigo da Turma. O amor não é apenas declarado. O jovem diz que passou a dar nomes de gente à s vacas. Só não batiza aquelas que serão destinadas ao corte para o consumo da famÃlia para âevitar criar laçosâ.
Não há instituições de ensino superior em Rio Fortuna, mas Luiz Henrique se valeu de transporte subsidiado pela prefeitura para ir estudar em Orleans, cidade vizinha. A produtividade da propriedade â de 43,5 hectares â aumentou com a sua formação e os cursos. Hoje, eles produzem de 5 a 6 mil litros por mês com as 16 vacas que estão em perÃodo de lactação â são 42 no total. A famÃlia vende a R$ 1,10 o litro de leite, o que garante um faturamento em torno de R$ 6.500 por mês, fora o corte de eucalipto. Quanto aos lucros, Roecker diz que estão registrados em planilha. âEstamos numa fase de muito investimento, a famÃlia está se capitalizandoâ, explica. Eles compraram recentemente um resfriador (de leite), novos animas e estão investindo no sombreamento das pastagens, que âmelhora o bem-estarâ das vacas, explica ele.
A famÃlia Roecker planta e cria o que come. Na horta, há batata, aipim, couve, laranja, pêssego, ameixa e fruta do conde, entre outras frutas e verduras. Galinhas e gado para consumo próprio também são criados por eles. A mãe cuida da horta e das vacas, junto com Luiz Henrique. O pai toca o corte de eucalipto. âNão precisamos de mais mão de obraâ, afirma o jovem. âQuando precisamos, trocamos de dia com os vizinhosâ, conta Luiz Fernando, referindo-se à polÃtica de âuma mão lava a outraâ, recorrente no municÃpio e também citada por Ambrósio. As práticas sustentáveis estão presentes também no lixo: todo o material orgânico é utilizado como adubo na propriedade. A coleta de lixo reciclável é feita a cada dois meses na zona rural, onde vivem.
Na cidade, há cinco mercados, seis farmácias, um hospital, duas escolas da rede municipal e uma da rede estadual. Não há escolas particulares. O salário inicial de um professor do ensino fundamental é R$ 4 mil. O prefeito Lindomar Ballmann (PSD), formado em filosofia, conta que chegou a pensar em abrir uma creche em Rio Fortuna antes de entrar para a vida pública, mas desistiu. âNão há fila de espera aquiâ, afirma. No municÃpio, não há linhas de ônibus â apenas transporte escolar. âSó 10% da população não têm carroâ, afirma Ballmann. Os ônibus escolares cobrem uma área de 300 km2 . Para buscar crianças em áreas mais remotas, a prefeitura contrata carros que as levam até o ponto mais próximo na estrada a partir da qual poderão ser servidas pelos ônibus. Apenas 39,5% das vias públicas são pavimentadas no municÃpio, onde 65,74% da população é rural. Onde há pavimentação, entretanto, há calçadas acessÃveis, com pisos táteis.
Não há bolsões de miséria no municÃpio, como mostram os indicadores sociais do IBGE. Existe uma carência de 12 moradias pelos dados oficiais, mas o prefeito, ao mesmo tempo que se orgulha disso, teme que a divulgação acabe provocando um crescimento desordenado, atraindo mais gente para o local. Ele também sabe de cor que entre 15 e 18 famÃias recebem cestas básicas, distribuÃdas no municÃpio a quem têm renda inferior a um quarto do salário-mÃnimo. Cruzamos a rua e fomos até o Centro de Referência e Assistência Social da prefeitura em busca de mais dados. Constatamos que apenas 32 famÃlias são contempladas com o Bolsa-FamÃlia e que o valor destinado pelo governo federal a elas é de R$ 4.838 mensais (em Marajá do Sena, o outro extremo da nossa reportagem, é 50 vezes maior). As assistentes sociais sabem pelo nome quem são as quatro crianças de 6 a 15 anos que não tiveram sua situação escolar informadas pelos pais.
Qual seria o segredo do sucesso de Rio Fortuna? âExiste um fator cultural. A colonização foi predominantemente alemã, com refugiados de guerra que deixaram suas propriedades como herança para os filhosâ, explica o prefeito. âExiste um padrão que se criou e está sendo mantido. A essa hora (são 11h), os bares estão vaziosâ, prossegue. A informação é confirmada por Dilnei Nack, de 45 anos, dono do Nack bar. Cerveja é o produto que mais vende, mas só âdepois do expedienteâ.

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