Relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), divulgado na manhã desta quarta-feira (24/07), aponta que o mundo estaria longe de alcançar o objetivo de desenvolvimento sustentável (ODS-2) de erradicar a fome até 2030 e haveria uma prevalência global de subnutrição em nÃvel semelhante por três anos consecutivos depois de ter aumentado acentuadamente após a pandemia de covid-19. âEntre 713 e 757 milhões de pessoas podem ter enfrentado a fome em 2023 â uma em cada 11 pessoas no mundo, e uma em cada cinco em Ãfricaâ, afirma a FAO no documento âSituação da segurança alimentar e nutricional no mundoâ.
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O relatório cita que a fome cresceu impulsionada por um número crescente de conflitos, crises econômicas e eventos climáticos extremos. “Prevê-se que 582 milhões de pessoas serão cronicamente subnutridas no final da década, mais de metade deles na Ãfrica”, aponta o texto. Segundo o relatório, a fome está aumentando na Ãsia Ocidental, no Caribe e na maioria das sub-regiões da Ãfrica.
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Veja o que já enviamosProgressos, porém, têm sido vistos na redução da fome na maioria das sub-regiões da Ãsia e na América Latina. âO aumento da fome não é inevitável. A América Latina já reduziu a fome pelo segundo ano consecutivo – mostrando que, com as polÃticas certas, os governos podem melhorar o acesso aos alimentos e construir sistemas alimentares resistentes ao clima. No Brasil, 13 milhões de pessoas foram retiradas da fome no ano passado através de programas que visam sistematicamente as famÃlias pobres, fornecendo alimentação escolar saudável proveniente de pequenos agricultores, apoiando a agricultura familiar e implementando polÃticas alimentares para as comunidades urbanas mais pobres. Com as ações certas, uma participação profunda e uma implementação coordenada, podemos inverter a maré da fomeâ, lembrou Elisabetta Recine, presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do Brasil (Consea) e integrante do Painel Internacional de Peritos em Sistemas Alimentares Sustentáveis, ao comentar o relatório
Europa, Estados Unidos e Canadá não têm estimativas de fome. Os principais fatores que levam à fome – conflitos, alterações climáticas e choques econômicos – estão ocorrendo com mais frequência e com maior intensidade. “Esses números sobre a fome são um grande alerta. A fome global permanece catastroficamente alta, com 733 milhões de pessoas ainda indo para a cama com fome todos os dias â 36% a mais do que há uma década”, disse Alberto Broch, presidente da Confederação das Organizações de Produtores Familiares do Mercosul Alargado (Coprofam).
O relatório da FAO ressalta que as mudanças climáticas, em particular, aceleraram muito e foram o fator mais preponderante para a insegurança alimentar e a subnutrição em 2023. “O sistema alimentar industrial global é desastrosamente vulnerável a choques climáticos, econômicos e de conflitos crescentes â com as mudanças climáticas afetando cada vez mais os agricultores. Construir sistemas alimentares resilientes ao clima agora é uma questão de vida ou morte. Assim como é estabelecer pisos de proteção social e garantir que os trabalhadores recebam salários dignos”, apontou Olivier De Schutter, Relator Especial da ONU sobre extrema pobreza e direitos humanos e co-presidente do Painel Internacional de Especialistas em Sistemas Alimentares Sustentáveis (IPES-Food).
Redução da fome no Brasil
O relatório cita o Brasil ao falar sobre o percentual de investimento em segurança alimentar e nutricional dentro dos gastos com a agricultura, apontando que o paÃs investe 9% dos seus gastos públicos em agricultura, sendo que 63% deles direcionados a segurança alimentar e nutrição “para fortalecer a resiliência econômica dos mais vulneráveis a adversidades”.
“à um dado impressionante”, destaca o relatório da ONU, citando o paÃs com maior grau de investimento percentual nas Américas. Em relação à edição anterior, que trouxe dados do perÃodo 2020-22, o Brasil registrou avanços. O estudo mostra que cerca de 8,4 milhões de brasileiros passaram fome no Brasil entre 2021 e 2023. Os dados também indicam que, no mesmo perÃodo, o número de brasileiros em insegurança alimentar foi de 39,7 milhões, sendo que 14,3 milhões estavam em estado severo. No perÃodo 2020-2022, o número de brasileiros em estado de desnutrição âpopulação com dieta abaixo de nÃveis mÃnimos de consumo de energia â era de 10,1 milhões. Já o total em insegurança alimentar era de 70,3 milhões. A insegurança alimentar no Brasil, no entanto, ainda está acima do perÃodo entre 2014 e 2016. O total da população nessa situação era de 27,2 milhões.
A divulgação oficial do relatório – coordenado pela FAO e com participação de Fida (Fundo de Desenvolvimento AgrÃcola), PMA (Programa Mundial de Alimentos), OMS (Organização Mundial da Saúde) e Unicef, todas agências da ONU – foi realizada no Rio de Janeiro, para coincidir com o lançamento da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, principal projeto brasileiro no G20.
Falta financiamento para combate a fome
O relatório da FAO avalia que um problema grave é a falta de uma solução comum em relação ao financiamento para a segurança alimentar e nutricional. “No caso de financiamento para a segurança alimentar e nutricional, não é possÃvel avaliar adequadamente os nÃveis existentes, muito menos monitorar progressos ou retrocessos (para cumprir as metas)â, afirma o documento. O financiamento precisa crescer e ser mais eficaz. Para isso, de acordo com a agência da ONU, é preciso colocar atores nacionais e locais no comando, garantindo que o financiamento seja mais acessÃvel a grupos-chave, como pequenos produtores. “Bilhões de dólares serão necessários para apoiar polÃticas transformadoras, mas o custo da inação será muito maior. A reestruturação do financiamento existente poderia fazer uma diferença significativa”, destaca o texto.
Na avaliação da FAO, governos em alguns paÃses de renda média também parecem estar gastando relativamente mais parte do seu orçamento para resolver as principais causas da insegurança alimentar e da desnutrição em comparação com paÃses de baixa renda. A FAO argumenta que o relatório é um apelo âforte e urgenteâ à ajuda global e também à s ações nacionais para resolver este problema como parte da agenda global de ação dos objetivos de desenvolvimento sustentável. âHá desigualdades no acesso ao financiamento para segurança alimentar e nutrição entre paÃses e dentro dos paÃsesâ.
O estudo identifica que cerca de 63% dos paÃses com alta ou crescente fome, insegurança alimentar e desnutrição lutam para obter financiamento para a segurança alimentar e nutrição. âA maioria destes paÃses (82%) são afetados por um ou mais dos principais impulsionadores da fome (…). E, por isso, é importante aumentar o financiamento para paÃses com nÃveis mais elevados de fome”.
