A dona de casa Bianca Iório Queiróz, de 32 anos, e o marido, Fábio Jorge, queriam muito ajudar crianças em situação de risco. O casal, que tem dois meninos, pensou em adoção, mas chegou à conclusão de que dessa forma ajudaria apenas uma criança. E Bianca e Fábio queriam ajudar mais meninos e meninas cujas famÃlias, ao menos momentaneamente, não tinham condição de criá-los. Eles ainda não sabiam, mas queriam ser uma FamÃlia Acolhedora.
FamÃlia Acolhedora é uma modalidade prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e pode ser aplicada em casos de ameaça e violação de direitos. Em outras palavras, ela protege a criança ou o adolescente de uma situação de risco enquanto o juizado de menores decide qual será o destino do menor: ser adotado ou retornar à própria famÃlia depois que ela superar a dificuldade e adquirir condições de criar e educar, o que, inclusive, acontece bastante.
Se você se interessou, uma coisa precisa ficar bem entendida: FamÃlia Acolhedora não é adoção, tampouco treinamento para este fim. E não será em hipótese alguma – é o que deixam claro os responsáveis pelo Grupo Aconchego, uma entidade civil sem fins lucrativos que, em parceria com o Governo do Distrito Federal, oferece capacitação para homens e mulheres que querem acolher temporariamente crianças e adolescentes em situações de risco. âA famÃlia acolhedora precisa ter muita consciência do papel dela. Precisa ficar muito claro para a famÃlia e a criança que o acolhimento é temporário. Porque são papéis diferentes (adoção e acolhimento)â, explica a psicóloga Júlia Salvagni, coordenadora do programa no Aconchego,
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Veja o que já enviamos[g1_quote author_name=”Vânia Darc Borges Campos” author_description=”Aposentada” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]
Eu aprendo que nós seres humanos somos capazes de ter um amor mais pleno, de ter um amor que não é egoÃsta, que a gente não ache que é dono, porque nós não somos donos de ninguém
[/g1_quote]Ela garante que até hoje, no Distrito Federal, nunca aconteceu de uma famÃlia tentar transformar o acolhimento em adoção, porque a diferença entre os dois é justamente o cerne da capacitação (As inscrições estão abertas pelo e-mail familiaacolhedora.aconchego@gmail.com). De dois anos para cá, quando o acolhimento começou a ganhar mais força na capital do paÃs, 25 menores foram atendidos. Agora a ideia é capacitar 30 famÃlias. O FamÃlia Acolhedora é de responsabilidade dos órgãos de assistência social dos municÃpios, então, os interessados em outros lugares do Brasil devem procurar esses órgãos para informações e treinamento.
A aposentada Vânia Darc Borges Campos, de 55 anos, ficava triste quando sabia de casos de meninos e meninas que tinham direitos violados, e se perguntava o mesmo que tantas pessoas se perguntam: âO que é que eu estou fazendo para ajudar?â. Para ela, ser mãe acolhedora também foi a resposta. âA gente aprende a amar essas crianças como se fossem nossos filhos e sabemos que haverá um momento em que teremos que desapegar. Esse é realmente o maior desafioâ, explica Vânia, que acolheu uma menina que chegou com um mês e ficou com ela até os quatro meses. Depois, a famÃlia da aposentada recebeu um menino, que veio com sete meses de vida e ficou com eles por oito meses. âConforme vai passando o tempo, a gente vai aprendendo (a desapegar), vai ficando mais fácilâ, garante Vânia.
Bianca, por sua vez, tranquiliza os interessados. Há três meses ela, o marido e os filhos acolheram um bebê de um ano. Bianca destaca o suporte da equipe do projeto, sempre levando informações sobre a situação legal da criança, ou seja, em que pé está a adoção ou o retorno à famÃlia. Para acolher uma criança ou um adolescente, você precisa ter mais de 25 anos, não estar inscrito no Cadastro Nacional de Adoção, comprovar renda e ter uma casa em condições de receber o menor. Fora isso, outro requisito é fundamental: todos da famÃlia têm que concordar com o acolhimento. Na famÃlia de Bianca, a criança acolhida reforçou a união dela com o marido e tem levado ensinamentos aos filhos, de 8 e 2 anos. âO mais velho aprendeu a cuidar de todos nós; o mais novo aprendeu a dividir as coisasâ, resume.
Não é raro que a famÃlia acolhedora e a famÃlia de origem (ou a de adoção) se conheçam e até mesmo estabeleçam vÃnculos. âDepois que a gente conhece a famÃlia e conhece todo problema que aconteceu, você acaba acolhendo também essa famÃlia em seu coração, e torce para que ela consiga vencer seus obstáculos e os problemas que tem para poder receber de volta essa criançaâ, explica Vânia, que já passou duas vezes pela experiência de ver retornar à famÃlia natural as crianças que acolheu. E isso é muito importante para o chamado âdesacolhimentoâ, que não ocorre de uma hora para outra. âA criança começa a voltar para casa aos poucos. Vai para a casa, fica uns dias com a famÃlia, depois retorna à FamÃlia Acolhedora, para que ela vá se acostumando outra vez. Quando chega realmente o dia de a criança retornar à famÃlia de origem, tanto a gente quanto à criança já está mais acostumadoâ.Â
Bianca também já conhece a famÃlia do bebê que está em sua casa provisoriamente. âA gente abraçou também a famÃlia. Eu torço pela famÃlia, desejo que a famÃlia seja capaz de dar todo cuidado e atenção (ao bebê)â.Â
Nos dois casos, um traço em comum, além do próprio acolhimento: o ensinamento de que o amor é também desapego. âEu aprendo que nós seres humanos somos capazes de ter um amor mais pleno, de ter um amor que não é egoÃsta, que a gente não ache que é dono, porque nós não somos donos de ninguémâ, resume Vânia. E, para Bianca, uma espécie de estágio em relação aos próprios filhos. âOs meus filhos um dia também irão embora. Vão crescer, vão seguir a vida deles, e eu não vou deixar de amá-losâ.
