Um fala em livre mercado, empreendedorismo e diminuição do tamanho do Estado. O outro defende uma âeconomia comunistarista,â combate os modelos de desenvolvimento submetidos ao capital internacional e sonha com uma democracia participativa ou semidireta, diferente do modelo representativo adotado na maior parte do ocidente.
[g1_quote author_name=”Flávia Pinho Ribeiro” author_description=”Dirigente da FFB” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Temos o nosso diferencial, que tem a ver com o modo de vida nas favelas, lá, ao contrário do que ocorre no asfalto, o papo é reto. Se a pessoa não mantiver este compromisso estará fora do partido, ela terá que respeitar princÃpios de solidariedade e de cooperativismo
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Veja o que já enviamosOpostos em concepções, visões de mundo e propostas, o Partido Novo e a Frente Favela Brasil (FFB) entram em campo com o desafio de mostrar a viabilidade de uma polÃtica fincada em propostas. Uma forma de atuar que seja capaz de resistir ao processo que tritura a credibilidade de quase todos os partidos brasileiros e que tem seu sÃmbolo máximo no PMDB, âempresa de venda de apoio parlamentarâ, segundo Marcos Nobre, professor de filosofia polÃtica da Unicamp.
Novo e FFB têm processos de gestação parecidos, a constatação de que ideias e/ou grupos sociais não eram representados nos partidos existentes. âAinda no segundo governo Lula, nós, empresários, profissionais liberais, percebemos como era falso aquele cenário de indicadores econômicos favoráveis, de desemprego baixo e PIB alto. SabÃamos que se tratava de um governo corrupto, ineficiente, que não prestava serviços de qualidadeâ, afirma a economista PatrÃcia Vianna, presidente do Novo-RJ, ex-diretora do banco UBS/Pactual, hoje dona de um escritório que administra patrimônios familiares.
âPodÃamos montar uma ONG, cuidar de velhinhos, de criancinhas. Mas concluÃmos que, para melhorar o paÃs, terÃamos que participar mais ativamente da vida polÃtica, e a ferramenta seria um partido polÃtico, uma tarefa bem difÃcil, que fizemos questão de percorrer sem atalhosâ, conta.
O caminho de PatrÃcia foi semelhante ao seguido pela advogada Flávia Pinto Ribeiro, que chegou ao FFB ao ler, no Facebook, postagens de Celso Athayde, produtor de eventos, ativista, fundador da Central Ãnica das Favelas (Cufa). Os textos partiam da falta de representatividade de negros e moradores de favelas na polÃtica para propor a formação de um partido especÃfico. Hoje, Flávia é presidente do diretório provisório do FFB no Estado do Rio (o partido ainda vai buscar seu registro definitivo na Justiça Eleitoral).
âNão há representatividade do negro em nenhuma esfera de poder. Dos 513 deputados, apenas 6% são negros, é preciso que estejamos nos espaços de decisão. Queremos escurecer o Congresso, no melhor sentido da palavraâ, diz a advogada, nascida em Salvador, filha de um carioca, ex-morador de uma favela no Engenho Novo (zona norte da cidade). Em sua página na internet, o FFB discorre sobre o conceito de âfavelismoâ, assim definido: âO movimento favelista é uma grande corrente puxada por aqueles que até aqui sofreram com as consequências das desigualdades sociais, mas que mesmo assim, sabem que têm a responsabilidade de colaborar para a construção de um lugar onde todos, de fato, sejam iguais em oportunidades, direitos e deveresâ.
No campo ideológico, o Novo empunha o estandarte do liberalismo clássico, identificado com propostas associadas ao campo da direita democrática: bate tambor para as liberdades individuais, ressalta o papel do indivÃduo como agende de mudanças e único gerador de riquezas. Já o FFB tem maior proximidade com a esquerda, mas, de acordo com Flávia, âvai alémâ desse ideário. âO FFB não entrará na favela para oferecer serviços, mas para dizer que seus moradores podem fazer a própria história, participar do processo polÃticoâ, ressalta.
De boas intenções, grandes partidos nasceram cheios. O PSDB foi fundado como uma costela ficha-limpa do PMDB dominado por Orestes Quércia (1938-2010), polÃtico paulista (chegou a governar o estado) identificado com propostas nada republicanas. Nos anos 1980, o então jovem PT, de tanto falar em moralidade pública, foi chamado pelo pedetista Leonel Brizola de UDN âde macacão e tamancosâ â a União Democrática Nacional (1945-1965) de Carlos Lacerda era focada no combate à corrupção. Como, então, o Novo e o FFB pretendem escapar do que foi chamado de processo de peemedebização dos partidos, uma espécie de força gravitacional que puxa para o campo do fisiologismo e do toma lá-dá-cá até polÃticos até então acima de qualquer suspeita?
[g1_quote author_name=”PatrÃcia Vianna” author_description=”Dirigente do Novo-RJ” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]PodÃamos montar uma ONG, cuidar de velhinhos, de criancinhas. Mas concluÃmos que, para melhorar o paÃs, terÃamos que participar mais ativamente da vida polÃtica
[/g1_quote]PatrÃcia aposta, em primeiro lugar, na desvinculação do Novo com os esquemas tradicionais de financiamento. O partido recebe, mas não utiliza, os recursos do Fundo Partidário â quer devolver para o Tesouro Nacional os cerca de R$ 2 milhões já enviados pelos cofres públicos. A agremiação é financiada pela renda de eventos (cursos, palestras, seminários) e por contribuições obrigatórias de seus filiados que, como acionistas, assim teriam o direito de influenciar de maneira mais decisiva nos rumos da empreitada.
Para reafirmar a necessidade de distância de dinheiro público, o Novo também limita o número de assessores que cada um de seus parlamentares â elegeu quatro vereadores no ano passado â pode ter. Eleito no Rio, Leandro Lyra teria direito a 21 cargos, mas foi obrigado a nomear apenas seis pessoas. As outras vagas não foram preenchidas.
Os eleitos têm que assinar documento em que se comprometem a cumprir o programa partidário e a respeitar normas em relação ao uso de verbas públicas. E só conseguem legenda para se candidatar se passar por um processo de seleção compatÃvel com o de grandes empresas â há prova, necessidade de apresentação de vÃdeo com suas propostas, entrevista diante de uma banca de cinco pessoas, obrigatoriedade de comparecer a eventos e de participar de um longo programa de treinamento.
Tudo isso, afirma PatrÃcia, vai colaborar para que os de 20 a 30 deputados federais que o Novo pretende eleger em 2018 assumam posturas menos ortodoxas â o comitê de ética do partido estará atento para eventuais tentações, alerta. Segundo ela, isso não impedirá que parlamentares não possam conversar e negociar â aqui, no sentido honesto do termo â com outros deputados. Mas, acredita, evitará casos de traição à s propostas do partido e ao compromisso com filiados e eleitores. âEstamos mais preocupados em fazer o certo do que com o se vai dar certoâ, resume.
No ano que vem, o Novo lançará alguns candidatos a governos estaduais â Bernardinho, ex-técnico da seleção de vôlei é o nome favorito para o Rio de Janeiro. Ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco filiou-se à legenda, mas diz a dirigente, ficará como presidente da fundação criada pelo partido.
No outro lado do tabuleiro, Flávia aposta no compromisso daqueles que vierem a ser eleitos pelo FFB, mas admite não poder garantir que todos ficarão fora de algum esquema de corrupção. Mas, como vacina, remete a uma tradição das favelas âTemos o nosso diferencial, que tem a ver com o modo de vida nas favelas, lá, ao contrário do que ocorre no asfalto, o papo é reto. Se a pessoa não mantiver este compromisso estará fora do partido, ela terá que respeitar princÃpios de solidariedade e de cooperativismoâ, frisa.
