(Por Cristina Cople*) – O bloco âTá Pirando, Pirado, Pirou!â, popularmente conhecido como Bloco do Pinel (Instituto Municipal Phillippe Pinel) corre contra o relógio para desfilar neste domingo (19/02),  com toda a riqueza de detalhes que o enredo inspirado em Augusto Boal, criador do Teatro do Oprimido, merece. Tem fantasias, carro alegórico e até uma escultura gigante.
[g1_quote author_name=”Alexandre Ribeiro Wanderley” author_description=”Psicanalista” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Não queremos saber quem é quem, nós temos que nos misturar. E a gente faz isso como uma grande festa, só uma vez por ano, mas com o sonho de que essa questão de quem está se tratando e quem não está não se coloque mais como se coloca hoje
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Veja o que já enviamosCom o tÃtulo âMeu caro amigo Augusto Boal, o arco-Ãris do desejo vai brilhar no carnavalâ, o bloco quer reunir gente de todo o tipo em um dos cartões postais do Rio, o Pão de Açúcar, na 13ª edição do desfile. Além dos usuários da rede de saúde mental, saem no bloco os profissionais do setor â médicos, enfermeiros e assistentes sociais. A expectativa é que mais de 1500 pessoas sigam a batucada.
Mas nem só de diversão vive o bloco do Pinel. A psicóloga do Núcleo de Intervenção Cultural do Instituto, ErÃnia Maria Belchior, lista os efeitos terapêuticos da preparação para o desfile. âEles têm mais calma, organização, autonomia, amizade, respeito e disciplina. Sabem que têm um lugar onde podem falar e serão ouvidos. Têm um calendário e roteiro a seguir e, o mais importante, evitam a internação. à raro alguém voltar a se internarâ.
O psicanalista e coordenador do Ponto de Cultura, Alexandre Ribeiro Wanderley, também destaca a importância da socialização. âNão queremos saber quem é quem, nós temos que nos misturar. E a gente faz isso como uma grande festa, só uma vez por ano, mas com o sonho de que essa questão de quem está se tratando e quem não está não se coloque mais como se coloca hojeâ, completa.
[g1_quote author_name=”Enéas ElpÃdeo” author_description=”Autor do samba” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]A música tem o poder da catarse. Tirar do inconsciente alguns elementos que, à s vezes, atrapalham a gente. Eu me sinto leve quando eu componho e quando eu toco. Outra mudança é que agora não estou com tanta vergonha de falar que eu sou um paciente. A pior coisa é a pessoa se auto estigmatizar, e eu era assim
[/g1_quote]Durante todo o ano, os organizadores mantêm oficinas semanais para preparar as pessoas em tratamento para o desfile. Enéas ElpÃdeo é o coordenador de uma delas, a Oficina de Composição Musical e Registro Fonográfico, e também faz tratamento psiquiátrico no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Franco Basaglia. Além de se beneficiar do tratamento, ele comemora a autoria do samba deste ano, em parceria com Messias Horizonte.
âA música tem o poder da catarse. Tirar do inconsciente alguns elementos que, à s vezes, atrapalham a gente. Eu me sinto leve quando eu componho e quando eu toco. Outra mudança é que agora não estou com tanta vergonha de falar que eu sou um paciente. A pior coisa é a pessoa se auto estigmatizar, e eu era assimâ, afirma Enéas.
Messias Horizonte, que é funcionário de serviços gerais do CAPS, se juntou ao grupo há apenas um ano. âO samba é a nossa cultura e, através da música, também combatemos o preconceito. Ele existe desde a origem do samba, neste caso por causa da raça, com Pixinguinha, Cartola e Paulinho da Viola. Eles foram quebrando tabusâ.
Quatro instituições se entrelaçaram para construir esse projeto: Instituto Philipe Pinel, o Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB), o Instituto Franco Basaglia e a Associação de Moradores da rua Lauro Müller.
Voluntariado vira experiência
Gabriela Renan Cortez, 19 anos, estudante do 5º perÃodo de psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) se tornou voluntária do projeto depois de assistir a um ensaio do bloco no jardim do CAPS. âA primeira vez que eu cheguei na beiradinha, eu fiquei olhando através da grade e me sentia presa do lado de fora de tudo isso. Mas logo fui convidada a entrar e participar. Eu acho que a ideia é incluir, estar todo mundo junto. No sábado da escolha do samba, eu voltei para casa morta, mas pensava: acho que valeu todo este esforço! Ver que a vida de muita gente depende do que estamos fazendoâ, diz.
Alexandre Wanderley incentiva outros voluntários a se juntarem ao grupo. âCada pessoa tem uma coisa que pode acrescentar, uma sugestão, algo que a gente nunca pensou. Trabalho não falta. Quem vê de fora não consegue imaginar a dimensãoâ.
A música que transforma
Gilson Secundino, usuário do CAPS, acompanhou o nascimento do bloco, em 2004, e foi quem sugeriu o nome âTá Pirando, Pirado, Pirou!â, aceito por todo o grupo. âA gente ainda carrega esse estigma. A loucura é inerente ao ser humano. Tem muito mais coisa no nosso inconsciente do que se apresenta no dia a diaâ, diz o historiador que toca atabaque na bateria. Mas a paixão pela música supera qualquer dificuldade. âO primeiro presente que eu ganhei de Natal do meu pai foi um tamborim de madeira. Eu me lembro até hoje. Isso é orgânico, nasce com a genteâ.
A psicóloga ErÃnia Maria Belchior ressalta que o bloco está rompendo barreiras, mas acrescenta que ainda há um longo caminho pela frente. âSempre tem aquele resquÃcio, gente que acha que o louco tem que ficar trancafiado. Mas, em geral, o bloco é bem aceito na sociedade. As pessoas vêm, curtem e não tem confusão. Sabem que é tranquilo, que ali ninguém está surtado, rasgando a roupa etc. Quem vem sabe a função do bloco e quer agregar. Tem louco? Tem! Mas todo mundo pode ser um poucoâ, completa.
Nos dias que antecederam o desfile, Alexandre Wanderley ainda buscava doações e ajuda financeira. Depois de perder o apoio da Petrobras, o bloco ficou com o orçamento prejudicado, mas conseguiu do Sindipetro de Caxias a doação de garrafas d´água para distribuição. Agora, ele conta com a participação de voluntários e interessados na questão da saúde mental.
(*) Jornalista, com especialização em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pelo Departamento de Relações Internacionais da PUC-Rio. Trabalhou em vários veÃculos, como a Globonews, a Rede Record, os portais Zip.Net e Click 21. Atualmente se dedica à área de comunicação e educação na empresa Plano B, além de colaborar com projetos sociais.
