A escalada da fome no Brasil de Bolsonaro e da pandemia ganha números para mostrar sua face trágica com uma nova pesquisa sobre insegurança alimentar: em 2022, 33,1 milhões de pessoas não têm o que comer; são 14 milhões de novos brasileiros em situação de fome desde a conclusão do estudo anterior em 2021; e mais da metade (58,7%) da população brasileira convive com a insegurança alimentar em algum grau â leve, moderado ou grave (fome). O quadro dramático é revelado pelo 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil (II Vigisan), lançado nesta quarta-feira, 8 de junho.
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De acordo com a Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional), responsável pelo estudo, o Brasil regrediu para um patamar equivalente ao da década de 1990. A pesquisa anterior, de 2020, mostrava que a fome no paÃs já tinha voltado para patamares equivalentes aos de 2004. A continuidade do desmonte de polÃticas públicas, a piora no cenário econômico, o acirramento das desigualdades sociais e o segundo ano da pandemia da Covid-19 tornaram o quadro desta segunda pesquisa ainda mais perverso. âA pandemia surge neste contexto de aumento da pobreza e da miséria, e traz ainda mais desamparo e sofrimento. Os caminhos escolhidos para a polÃtica econômica e a gestão inconsequente da pandemia só poderiam levar ao aumento ainda mais escandaloso da desigualdade social e da fome no nosso paÃsâ, aponta médica epidemiologista Ana Maria Segall, pesquisadora da Rede Penssan.
O objetivo principal do II VIGISAN é manter o monitoramento ativo da Segurança Alimentar (SA) e dos nÃveis de Insegurança Alimentar (IA), com divulgação ampla de seus resultados para dar transparência e relevo à situação emergencial da fome. De acordo com o 2º Inquérito, em números absolutos, são 125,2 milhões de brasileiros que passaram por algum grau de insegurança alimentar. à um aumento de 7,2% desde 2020, e de 60% em comparação com 2018. âJá não fazem mais parte da realidade brasileira aquelas polÃticas públicas de combate à pobreza e à miséria que, entre 2004 e 2013, reduziram a fome a apenas 4,2% dos lares brasileiros. As medidas tomadas pelo governo para contenção da fome hoje são isoladas e insuficientes, diante de um cenário de alta da inflação, sobretudo dos alimentos, do desemprego e da queda de renda da população, com maior intensidade nos segmentos mais vulnerabilizadosâ, avalia Renato Maluf, coordenador da Rede Pensann.
A coleta de dados ocorreu entre novembro de 2021 e abril de 2022,com a utilização de questionário contendo a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA) – também utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e EstatÃstica (IBGE). Os resultados revelam que apenas 41,3% dos domicÃlios estavam em situação de segurança alimentar, enquanto em 28% havia incerteza quanto ao acesso aos alimentos, além da qualidade da alimentação já comprometida – a insegurança alimentar (IA) leve. Em um terço dos domicÃlios (30,7%) já havia relato de insuficiência de alimentos que atendessem à s necessidades de seus moradores – ou seja, insegurança alimentar moderada ou grave.
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Veja o que já enviamosA fome – insegurança alimentar grave na pesquisa – foi constatada em 15,5% dos domicÃlios. Em termos populacionais, são 125,2 milhões de pessoas residentes em domicÃlios com insegurança alimentar e mais de 33 milhões em situação de fome.  “Os nÃveis alarmantes de insegurança alimentar e de fome integram o contexto de crises que seguem vulnerabilizando um crescente contingente populacional, agora incorporando segmentos das camadas médias antes socialmente mais protegidas”, alerta o relatório da Rede Penssan, constituÃda por pesquisadores, professores, estudantes e profissionais. A pesquisa, executada em campo pelo Instituto Vox Populi, teve apoio da Ação da Cidadania, da ActionAid Brasil, da Fundação Friedrich Ebert Brasil, do Ibirapitanga, da Oxfam Brasil e do Sesc. O estudo completo pode ser acessado na página Olhe para a Fome.
Apesar dos recordes de produção agrÃcola apresentados pelo Brasil, a fome é maior no campo do que nas cidades. Nas áreas rurais, a insegurança alimentar (em todos os nÃveis) esteve presente em mais de 60% dos domicÃlios. Destes, 18,6% das famÃlias convivem com a insegurança alimentar grave (fome), valor maior do que a média nacional. E até quem produz alimento está pagando um preço alto: a fome atingiu 21,8% dos lares de agricultores familiares e pequenos produtores. “O segmento da agricultura familiar sofreu o impacto da crise econômica, mas foi especialmente afetado pelo desmonte das polÃticas públicas voltadas para o pequeno produtor do campo”, aponta relatório.
Regiões com maiores Ãndices de pobreza do paÃs, o Norte e o Nordeste foram mais impactados, como já ocorrera na pesquisa anterior, pelo agravamento da fome no paÃs – a insegurança alimentar atinge as regiões do Brasil de forma desigual. No Norte e no Nordeste, os números chegam, respectivamente, a 71,6% e 68%: esses Ãndices são expressivamente maiores do que a média nacional de 58,7%. A fome fez parte do dia a dia de 25,7% das famÃlias na região Norte e de 21% no Nordeste. A média nacional é de aproximadamente 15%, e, do Sul, de 10%.·
O 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil (II Vigisan) indica ainda que a fome tem cor e gênero. Enquanto a segurança alimentar está presente em 53,2% dos domicÃlios onde a pessoa de referência se autodeclara branca, nos lares com responsáveis de raça/cor preta ou parda ela cai para 35%. Na comparação com o 1º inquérito da Rede Penssan ,de 2020, em 2021/2022, a fome saltou de 10,4% para 18,1% entre os lares comandados por pretos e pardos. As diferenças também são expressivas na comparação entre os lares chefiados por homens e os lares chefiados por mulheres entre os dois relatórios da Rede PENSSAN. Nas casas em que a mulher é a pessoa de referência, a fome passou de 11,2% para 19,3%. Nos lares que têm homens como responsáveis, a fome passou de 7,0% para 11,9%.
Outros números da pesquisa são reveladores da dimensão do drama trágico da fome no paÃs. Em pouco mais de um ano, a fome dobrou nas famÃlias com crianças menores de 10 anos â de 9,4% em 2020 para 18,1% em 2022. Na presença de três ou mais pessoas com até 18 anos de idade no grupo familiar, a fome atingiu 25,7% dos lares. A fome é maior nos domicÃlios em que a pessoa responsável está desempregada (36,1%), trabalha na agricultura familiar (22,4%) ou tem emprego informal (21,1%). Há fome em 22,3% dos domicÃlios com responsáveis com baixa escolaridade â quatro anos ou menos de estudo; em 2020, esse percentual era de 14,9%.
O inquérito também indica que a fome quase desaparece nos lares com renda superior a um salário mÃnimo por pessoa. Em 67% dos domicÃlios com renda maior que um salário mÃnimo por pessoa, o acesso a alimentos (segurança alimentar) é pleno e garantido. Porém, se em 2020 não havia domicÃlios com renda maior que um salário mÃnimo por pessoa em situação de fome, no inÃcio de 2022 essa deixou de ser uma garantia contra a privação do consumo de alimentos â consequência da crise econômica e dos reajustes do salário mÃnimo abaixo da inflação. Agora, 3% dos lares nesta faixa de renda tem seus moradores em situação de fome, e 6% convivem com algum grau de restrição quantitativa de alimentos (insegurança alimentar moderada) e 24% não conseguem manter a qualidade adequada de sua alimentação (insegurança alimentar leve).·
Na apresentação da pesquisa, as instituições envolvidas alertam para o avanço da fome no Brasil. “Não podemos mais tolerar que 33 milhões de pessoas não tenham o que comer em um paÃs com tanta diversidade como o Brasil. à um retrocesso total. Nossa instituição nasceu com a comoção de Betinho ao se deparar com esse mesmo número de brasileiros em Insegurança Alimentar grave. Hoje, estamos aqui revivendo a mesma tragédia”, afirma o texto da Ação da Cidania, organização que completa 29 anos. “O quadro de apagão de dados oficiais e de negligência das autoridades permanece, mas o contexto de fome e Insegurança Alimentar nos seus diversos aspectos chega a nÃveis ainda mais estarrecedores”, destaca a ActionAid Brasil.
