Moda inclusiva na passarela

Manuela Almeida e Natache Iamayá posam com as roupas da grife Equal Modal Inclusiva. Foto de Renato Moreth

Cresce o mercado de produtos elegantes e confortáveis para pessoas com deficiência

Por Laura Antunes | ODS 1ODS 15Vida Sustentável • Publicada em 9 de outubro de 2016 - 09:00 • Atualizada em 2 de setembro de 2017 - 23:44

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Manuela Almeida e Natache Iamayá posam com as roupas da grife Equal Modal Inclusiva. Foto de Renato Moreth
Manuela Almeida e Natache Iamayá posam com as roupas da grife Equal Modal Inclusiva. Foto de Renato Moreth

Basta observar a modelagem das coleções que a maioria das grifes, internacionais e brasileiras, lança anualmente no mercado para concluir que os padrões da moda permanecem rígidos. A cliente dos sonhos ainda é aquela magra e longilínea. Se quem não se enquadra nesse biotipo por estar, por exemplo, acima do peso ou ser mais curvilínea, já se sente excluído, imagine a parcela numerosa de consumidores com alguma deficiência física. Mas, a partir de um passado recentíssimo, começou a crescer mundo afora o conceito da moda inclusiva, cuja proposta é atender justamente a todos os formatos de corpos à margem do universo fashion. A propósito, somente no Brasil são 46 milhões de pessoas com alguma deficiência, segundo o Censo de 2010 do IBGE.

O portador de deficiência está inserido no mercado de trabalho. Precisa estar elegante, mas vestido confortavelmente. É nisso que investimos.

Silvana Louro
Estilista

Esse contingente de consumidores que apresenta limitações diversas – estar em cadeiras de rodas, ter o movimento dos membros comprometido,  entre outras – precisa de soluções para as barreiras que encontram ao usar roupas convencionais, como a presença de zíperes e botões, bolsos e pespontos que machucam, calças compridas com ganchos curtos demais para quem é obrigado a viver sentado… Enfim, são muitas as dificuldades para se montar um figurino bonito e confortável, especialmente num momento em que pessoas com alguma deficiência estão cada vez mais inseridas no mercado de trabalho e precisam estar bem vestidas.

Designers brasileiros especializados em moda inclusive, já participaram de desfiles em Milão. Foto de Felipe Lessa

O conceito de moda inclusiva já é tema de blogs, sites e redes sociais em diferentes países, incluindo aí o surgimento de designers dispostos a lançar peças que atendam as demandas dessa parcela de consumidores. A tendência, felizmente, também começa a ganhar espaço no Brasil. Uma das primeiras iniciativas surgiu em São Paulo, em 2009, quando o governo do estado, por meio da Secretaria dos Direitos da Pessoa Com Deficiência, lançou o Concurso Moda Inclusiva para atrair estudantes de moda e profissionais do ramo dispostos a criar roupas para pessoas com limitações. Segundo os organizadores do evento, que é anual, os melhores trabalhos inscritos ganham o tecido necessário para a confecção das peças, exibidas no desfile de encerramento. Os três primeiros colocados recebem prêmios.

“O principal resultado que se vê desde o primeiro concurso foi o nascimento de um novo pensamento. Os concursos estimularam jovens designers a exercerem sua criatividade num campo inédito, instigante e necessário. Muitos passaram a defender teses na universidade sobre o tema, a especializar-se no assunto. Não à toa, os looks criados por alguns desses designers chegaram a desfilar em Milão, capital da moda italiana, em maio de 2012, como referência de um projeto exclusivamente brasileiro que pode servir de exemplo para todo o mundo”, diz o texto, postado no site do governo do estado, para resumir a filosofia do concurso, que este ano, chega à 8ª edição. O desfile final será em novembro.

A prefeitura de Campinas seguiu a mesma tendência e lançou este ano a segunda edição do Concurso e Desfile de Moda Inclusiva, por meio da Secretaria municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida. A primeira edição do evento ocorreu em 2015.

Essa mobilização mundo afora em torno da moda inclusiva encantou a estilista Silvana Louro, que vive no Rio de Janeiro. Depois de uma temporada na África e na Ásia, onde participou de trabalhos voluntários, ela conheceu de perto as dificuldades das pessoas com deficiência ao participar de um projeto social, numa comunidade carioca, para atletas de esportes adaptados de alta performance.

Lá, Silvana percebeu como os integrantes do projeto tinham dificuldades para encontrar peças que não provocassem desconforto e até machucados.  A estilista, então, desenvolveu um uniforme adaptado para a delegação carioca que participou das Paralimpíadas Escolares 2015.

“As dificuldades são inúmeras. Subir um zíper posicionado nas costas, descer uma calça comprida na hora de ir ao banheiro quando se está numa cadeira de rodas… São os pespontos e os bolsos que machucam a pele; ou saias e vestidos que ficam curtos nas cadeirantes. Outro problema: as calças compridas com cós baixo, que causam o popular “pagando cofrinho”… Me dei conta de como esses detalhes eram um problema sério para eles”, conta a estilista, que começou a fazer uma pesquisa sobre o assunto e descobriu, assim, o movimento da moda inclusiva.

Após conversar com pessoas com  deficiência e fisioterapeutas, pesquisar sobre tecidos e modelagens, buscar ajuda do Sebrae e fazer cursos de gestão, Silvana tomou coragem e, há cerca de dois anos, montou uma equipe e criou uma confecção de roupas voltada à essa parcela de consumidoras. A grife feminina Equal Moda Inclusiva, que vende também pela internet, é pioneira no Brasil, garante ela. “Há estilistas que lançam peças adaptadas, mas nós criamos coleções inteiras. A primeira, em julho do ano passado e a segunda, será em outubro”.  Silvana planeja, futuramente, estender seus domínios com a criação de roupas para adolescentes, lingerie, vestidos de festa e de noiva e até acessórios.

A estilista conta que sua preocupação é lançar coleções bonitas (geralmente feitas com malhas macias), que contam com modelagens especiais e uma série de adaptações –   como calças com zíper na lateral, menos tecido na região traseira dos joelhos, cós mais alto, bolsos laterais, bainhas mais longas, cavas mais largas, mangas com zíper (mais fáceis de vestir), entre outras. No momento, a equipe planeja lançar etiquetas em braile.

“O portador de deficiência está inserido no mercado de trabalho. Precisa estar elegante, mas vestido confortavelmente. É nisso que investimos”, acrescenta a dona da marca, que continua pesquisando para lançar coleções a preços populares.

Esses tipos de adaptações fazem toda a diferença para quem convive com alguma limitação física, como é o caso de Natache Iamaya, que tem a síndrome de Ataxia de Friedreich, uma rara doença genética degenerativa que compromete a coordenação motora. Jovem e bonita, Natache, que é cadeirante, faz trabalhos como modelo e foi, durante um desfile, que ela conheceu a estilista da Equal.

“A Silvana me contou que estava criando uma marca de moda inclusiva e me convidou para fazer umas fotos. Achei fantástica a iniciativa de vestir o deficiente. Sou cliente fiel da grife, que oferece peças com caimento diferenciado e uma grande facilidade para botar e tirar as peças, algo muito importante para pessoas que, como eu, estão em cadeiras de rodas”, elogia Natache.

Entre as adaptações da moda inclusive estão as calças com zíper na lateral, menos tecido na região traseira dos joelhos, cós mais alto, bolsos laterais e cavas mais largas. Foto de Felipe Lessa
Laura Antunes

Depois de duas décadas dedicadas à cobertura da vida cotidiana do Rio de Janeiro, a jornalista Laura Antunes não esconde sua preferência pelos temas de comportamento e mobilidade urbana. Ela circula pela cidade sempre com o olhar atento em busca de curiosidades, novas tendências e personagens interessantes. Laura é formada pela UFRJ.

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