âFiredâ, estão dizendo as mulheres  a Donald Trump, repetindo com gosto o bordão que o magnata usava para demitir os aprendizes incompetentes nas temporadas do seu reality show na televisão. Na época, no mais perfeito estilo cafajeste, ele adorava exibir as namoradas e vangloriar-se de suas proezas com o sexo feminino. DistribuÃa insultos como se fossem elogios. âVocê só tem emprego porque é bonitaâ, disse a uma jornalista no âThe Apprenticeâ. Na sua atual encarnação polÃtica, continuou a reservar adjetivos como âgostosaâ, âcachorraâ ,âporca gordaâ à s mulheres no seu caminho e a fazer insinuações sobre o tamanho do seu pênis comparado com o dos rivais. Elas não acharam a menor graça: 73% das americanas â indicam pesquisas â não votarão em Trump no próximo dia 4 de novembro, prenunciando uma derrota para o até agora lÃder nas primárias do Partido Republicano. Se enfrentasse hoje a candidata democrata Hillary Clinton na eleição geral, Donald Trump perderia por 23 pontos percentuais entre as mulheres. Se o adversário fosse o socialista Bernie Sanders, a derrota seria ainda mais humilhante.
Mulheres são 52% do eleitorado dos EUA e elas se pintaram com as cores da guerra contra a homofobia do pré-candidato doublé de construtor, cujo nome destaca-se no alto das mais horrendas torres de Manhattan. Nunca antes, nem o mais conservador dos polÃticos defendeu punição criminal para as gestantes que decidem abortar. Trump ousou e foi obrigado a voltar atrás. Legal desde os anos 70, o direito de interromper a gravidez divide a sociedade americana mas a mulher é sempre alvo de cuidados, nunca de punição. Desavisado como sempre, o candidato entrou na discussão sem o menor conhecimento sobre as polÃticas públicas de saúde da mulher. A revolta contra sua proposta uniu conservadores e liberais.
âEle é perigosoâ, sustentam grupos feministas, em propaganda na televisão.
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Veja o que já enviamosâEu erreiâ, reconheceu pela primeira vez nessa campanha Trump à Maureen Dowd, colunista do New York Times, apesar de também já ter insultado imigrantes, muçulmanos e deficientes fÃsicos.
[g1_quote author_name=”Henry Olsen” author_description=”Analista conservador” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Estamos falando de alguém que tem a devoção apaixonada de uma minoria e, ao mesmo tempo, assusta, aterroriza e irrita â tudo ao mesmo tempo â a maioria do paÃs. Uma histórica derrota está marcada para acontecer
[/g1_quote]O erro a que se referiu foi outro: a troca de baixarias entre ele e Ted Cruz â seu principal rival entre republicanos â numa espécie de briga de colegiais de péssimo gosto. Trump divulgou foto horrorosa de Heidi Cruz ao lado de imagem glamurosa de Melanie Trump. E legendou: âTemos de separar os grãosâ. Opositores de direita ( Utah Mormons) contra-atacaram com um ânudeâ da atual Sra Trump â modelo profissional nos anos 2000 â sugerindo que seu estilo não era o desejável para uma primeira-dama. Cruz nega qualquer envolvimento, mas insultos voltaram a cruzar os Estados Unidos.
A pergunta que não quer calar é: Donald Trump tem realmente chances de ser o novo presidente dos EUA ? Não, parece ser a resposta da maioria dos politicólogos e dos institutos de pesquisa. âEstamos falando de alguém que tem a devoção apaixonada de uma minoria e, ao mesmo tempo, assusta, aterroriza e irrita â tudo ao mesmo tempo â a maioria do paÃs. Uma histórica derrota está marcada para acontecerâ, disse Henry Olsen, um analista conservador. Pode ser, mas Trump foi o fenômeno das primárias de 2016. Derrotou uma fileira de pré-canditados republicanos, entre eles, Jeb Bush, ex-governador da Flórida e parte da aristocracia polÃtica americana. Continua como o candidato com mais delegados conquistados, apesar da oposição da elite conservadora.
Campanha grotesca
Raiva é o sentimento dominante entre os eleitores do magnata: eles são brancos, com tendências racistas, nÃvel educacional e econômico baixo, impressionam-se com a retórica agressiva e preconceituosa de Trump, considerando-o um outsider, o único a dizer a verdade.
O refinado presidente Obama está chocado. âO espetáculo grotesco da campanha 2016 está manchando a marca EUAâ, reclamou num dos rarÃssimos comentários sobre a eleição. Segundo ele, a temporada pré-eleitoral está vivendo numa atmosfera carnavalesca sem graça e lÃderes ao redor do mundo perguntamâlhe o que está acontecendo.
âUm bom trabalho jornalÃstico não pode se limitar a segurar o microfone, é preciso escolher melhor os assuntosâ, criticou Obama, em discurso diante de proprietários de jornais, pedindo-lhes maior investimento em jornalismo investigativo .
[g1_quote author_name=”Ann Curry” author_description=”Ex-âncora do Today, jornal matutino na NBC” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Trump subiu no palanque da campanha eleitoral exatamente no momento em que a mÃdia está enfrentando inseguranças profundas sobre seu futuro. A verdade é que a mÃdia criou uma dependência de Trump como um viciado depende do crack
[/g1_quote]Lá como aqui, a mÃdia é acusada de não cumprir seu papel. Lá a autocrÃtica já começou. Uma análise do Times concluiu que televisões, jornais e internet dedicaram a Trump um espaço equivalente a US$ 9 bilhões, 190 vezes o valor pago pelo magnata por propaganda eleitoral â nos EUA, não existe horário eleitoral gratuito e as inserções polÃticas na televisão são pagas a preço de ouro. Trump â indicou a mesma pesquisa â também teve direito a um espaço muito maior do que o aberto aos outros candidatos.
Muitos colunistas e editores reconhecem que deixaram Trump dizer suas barbaridades sem contextualizar ou checar declarações e informações formatadas para criarem escândalo e manchetes. Com isso, âempoderaram um demagogoâ,escreve Nicholas Kristoff, colunista do New York Times. âTrump subiu no palanque da campanha eleitoral exatamente no momento em que a mÃdia está enfrentando inseguranças profundas sobre seu futuro. A verdade é que a mÃdia criou uma dependência de Trump como um viciado depende do crackâ, disse Ann Curry, a ex-âncora do Today, jornal matutino na NBC.
Mesmo jornalistas experientes e brilhantes caÃram no erro de considerar o magnata uma farsa, uma piada pronta. O reputado site Politico.com, por exemplo, tratou a cobertura do republicano como fait-divers, deixando-o longe dos assuntos polÃticos do dia. â Nós, jornalistas, fazemos parte de uma classe média urbana e estamos desconectados da dor da classe operária. Por isso, não conseguimos entender como a mensagem de Trump ressoa entre elesâ, escreveu Kristoff.
Aparentemente, as mulheres foram mais rápidas em perceber o perigo e se preparam para derrotar o candidato com vÃcio de showman. A reflexão sobre a cobertura polÃtica da nova e velha mÃdia está apenas começando.
