A megalópole intolerante e estressada, mesquinha e carrancuda, que exige silêncio diante da alegria alheia, se esvanece no sonho de uma rua da Zona Norte, no dia do padroeiro informal. A via fechada aos carros cruzou a tarde chuvosa do 23 de abril embalada no amor a São Jorge (Ogum, no sincretismo indispensável), ao sabor da feijoada, no ritmo do samba â de graça, como convém. Somente trabalho e entrega, em nome da fé mais carioca.
Fábula com endereço: rua Francisco Neiva, em Maria da Graça, subúrbio arrumado, de casas confortáveis, ruas e calçadas em ordem, que merecia sorte melhor no Rio ultraviolento do século XXI. Mas, ao menos naquele canto, as mazelas sumiram, efêmero (e precioso) milagre de Jorge. Do almoço até a noite, o domingo chuvoso iluminou-se em generosidade canto, dança, amizade, comida e bebida.
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Veja o que já enviamosCinco anos atrás, decidiram que todo ano haveria uma feijoada pelo padroeiro, sem ingresso nem couvert, aberto a quem quisesse chegar. Há dois anos mudaram-se para Maria da Graça. Agora, em 2017, elas previram 150 pessoas â apareceram 300
[/g1_quote]O bafafá nasce da fé de duas cariocas, LÃgia Mello e Tânia Bisteka, que, vizinhas, uniram-se no fervor pelo Guerreiro. Cinco anos atrás, decidiram que todo ano haveria uma feijoada pelo padroeiro, sem ingresso nem couvert, aberto a quem quisesse chegar. As primeiras edições foram na área externa do prédio onde moram â mas o lugar ficou pequeno. Há dois anos mudaram-se para Maria da Graça. Agora, em 2017, elas previram 150 pessoas â apareceram 300.
Sem crise. Os panelões absurdamente imensos ofereceram comida (deliciosa!) em quantidade industrial e a cerveja rolou caudalosa e gelada até o fim. Maior rainha de bateria da história da Mangueira, Bisteka foi a cozinheira da montanha de proteÃna. Cruzou o sábado pilotando o fogão e terminou a missão no inÃcio da madrugada de domingo. Na manhã seguinte, ela e LÃgia pegaram emprestado na verde e rosa os 40 jogos de mesas e cadeiras plásticas para o povo aproveitar a festa. E a chuva? âFizemos uma vaquinha para alugar um toldo; o outro pedimos emprestado a um amigoâ, listou a passista lendária.
Tudo com a mesma moldura â generosidade e tolerância. No endereço do evento, mora um ex-namorado de LÃgia. Eles terminaram ano passado, mas tudo bem, Jorge merece a festa. Na entrada da rua, ficou o carro de som da Rickâs Sound, que, no Carnaval, embala os ensaios técnicos da SapucaÃ. O dono, Ricardo, é irmão de LÃgia, e, você aà já entendeu, enviou o equipamento de graça, para turbinar o som do grupo de bambas que desfilou os hits do samba e do pagode.
Bem ao lado da mesa dos músicos, estava o rei da festa. São Jorge, numa gigantesca imagem, bem tradicional, em vermelho e branco, reprodução do momento da vitória sobre o dragão. A peça, aliás, era a grande atração do ano. Foi comprada na véspera, e fiado. âSoubemos que a dona queria vender, porque precisava de espaço em casaâ, explicou Bisteka. âEstivemos lá para comprar, mas não tÃnhamos dinheiro. Ficamos de pagar no mês que vemâ, acrescenta ela, falando do prazo para honrar os R$ 200 cobrados pela imagem.
As duas anfitriãs, aliás, interromperam a preparação da festa, no sábado, para buscar a escultura. Quando um sobrinho de Bisteka, um pouco mais cético, viu o tamanho, perguntou se elas tinham enlouquecido, iam pagar com que dinheiro etc. âNão mexe com a nossa devoção!â, ouviu de volta, num brado veemente.
Choveu quase a tarde inteira de domingo, para tornar tudo mais emocionante. LÃgia e Bisteka revezavam-se no comando da festa e no samba entre cervejas, embrulhadas em vestidos iguais, brilhosos, a imagem de Jorge imensa na frente. Num canto do traje, o â2017â precisou ser improvisado â a roupa foi reaproveitada do ano anterior. âPedi a um aderecista da Mangueira para dar um jeitoâ, revelou Bisteka. âFicou ótimo, né não?â
Como a tarde inesquecÃvel, vivida numa cidade incrÃvel, muito melhor do que a de todo dia. Por isso e por tudo, salve Jorge!
