O Encontro Mundial de Alimentos de 1996, realizado pela Organização Mundial de Saúde, definiu segurança alimentar como “quando todas as pessoas, em todos os momentos, têm acesso a alimentos suficientes, seguros e nutritivos para manter uma vida saudável e ativa”. No mundo, hoje, 795 milhões de pessoas ainda passam fome. Em 1997 eram mais de 1 bilhão. A queda, lenta, mostra que a necessidade de mudar radicalmente este quadro é um dos maiores desafios do século.
Em seu livro lançado em 2012, Full Planet, Empty Plates – The New Geopolitics of Food Scarcity, Lester Brown advertia: âA situação atual alimentar se deteriora, e isto acontece com o próprio sistema alimentar global. Vimos os primeiros sinais das consequências em 2008, depois de que os preços de grãos no mundo abruptamente dobraram. Com os aumentos, paÃses exportadores começaram a restringir as exportações de grãos para manter seus preços domésticos baixos. Em resposta, governos de paÃses importadores entraram em pânico. Alguns deles começaram a comprar ou locar terras em outros paÃses para produzirem alimentos”.
[g1_quote author_name=”Lester Brown ” author_description=”presidente do Earth Policy Institute” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosBem-vindos à nova geopolÃtica da escassez de alimentos. Com o aperto na oferta, estamos passando a uma nova era, na qual cada paÃs vai ter de se virar sozinho
[/g1_quote]à preciso que se leve Brown a sério. Fundador do WorldWatch Institute e presidente do Earth Policy Institute, ele é autor de diversos livros consagrados sobre o ambiente, dentre eles, o Plano B 4.0 â Mobilização Para Salvar a Civilização.
âBem-vindos à nova geopolÃtica da escassez de alimentos. Com o aperto na oferta, estamos passando a uma nova era, na qual cada paÃs vai ter de se virar sozinho”, escreve ele.
âO mundo tem um problema sério no front alimentar. Mas há pouca evidência de que lÃderes polÃticos já tenham entendido a magnitude do que está acontecendo. A menos que nos movimentemos rapidamente para adotar novas polÃticas de população, energia e água, a meta de erradicação da fome vai permanecer isto â uma meta” prossegue o autor.
A escassez de alimentos provocou a queda de civilizações antigas como a dos sumérios e maias, porque elas adotaram um modelo agrÃcola que era ambientalmente insustentável. E, enquanto nestes casos, a falência possa ser atribuÃda a duas tendências como desflorestamento e erosão de solos, atualmente os problemas são de muitas naturezas, como a depleção dos aquÃferos, o pico da produtividade de grãos e o aumento de temperaturas.
Para paÃses avançados como os EUA, onde as pessoas gastam 9% de sua renda com comida, o problema não parece tão sério. Mas pense naqueles que gastam de 50% a 70% dos seus rendimentos para se alimentar, e no que acontece com eles quando os preços dobram.
Um documento da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Brasil â 2015, divulgado em novembro em sua segunda edição, na 5ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, examina a situação brasileira e faz sugestões.
à necessário, afirma o estudo, “criar e fortalecer polÃticas públicas voltadas para as populações mais vulneráveis como comunidades indÃgenas e quilombolas, melhorar a alimentação da população para combater a obesidade, adotar medidas para diminuir o desperdÃcio de alimentos e enfrentar as questões relacionadas à s mudanças climáticas”.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), a pobreza no Brasil foi reduzida de 24,7% em 2002 para 8,5% em 2012, e a extrema pobreza caiu de 9,8% para 3,6% no mesmo perÃodo. Esse resultado fez com que o paÃs cumprisse a meta de reduzir pela metade o número de pessoas que passam fome estabelecida nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.
Para as décadas seguintes, o Brasil precisa voltar a atenção para os chamados grupos mais vulneráveis que abrigam a maior parte das pessoas que ainda sofrem de insegurança alimentar no paÃs. âChegar até essas pessoas é essencial para que o Brasil fique livre da fome de uma vez por todas. As polÃticas devem criar estratégias para atingir de forma eficaz, os ribeirinhos, quilombolas, indÃgenas e a população ruralâ, afirmou o representante da FAO no Brasil, Alan Bojanic.
A segurança alimentar está presente com objetivos mais ambiciosos: erradicar a pobreza em todas suas formas até 2030, alcançar a segurança alimentar e a melhora da nutrição e promover a agricultura sustentável.
De acordo com o diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva, em discurso no inÃcio da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP21), que aconteceu neste final de ano em Paris, os impactos da mudança climática âafetam a todos, mas principalmente as pessoas mais pobres e que sofrem com a fomeâ. Os pequenos produtores e os agricultores familiares estão âna linha de frenteâ, segundo ele.
O Diretor-Geral da FAO pediu aos lÃderes mundiais que sejam âcorajosos e resilientesâ ao optarem por mudanças que promovam um âmundo mais seguro, justo e inclusivoâ. âNão haverá paz sem desenvolvimento sustentável e nunca haverá desenvolvimento sustentável enquanto ainda houver pessoas que são deixadas de lado e que sofrem com a pobreza extrema e a fomeâ, ressaltou Graziano da Silva.
As secas, inundações, tempestades e outros desastres provocados pelas mudanças climáticas vêm aumentando com frequência e gravidade nas últimas três décadas. Um recente estudo da organização mostra que, nos paÃses em desenvolvimento, 25% do impacto econômico desses desastres afetam principalmente os setores agrÃcolas, gado, pesca e florestas.
