ThaÃs Rodrigues*
Em vez de ir para a escola, Gabriel Souza, de 5 anos, acorda à s 6h para seguir com a mãe até a casa da tia-avó em Ceilândia, periferia de BrasÃlia. Sempre a mesma trilha sonora, um misto de sono e choro: ânão, eu não quero irâ, diz o menino à mãe.
Depois de a pandemia fechar as unidades escolares, Eliene Pereira de Souza, de 34 anos, precisou fazer uma escolha racional: ou deixava Gabriel aos cuidados do filho mais velho, de 14 anos, ou levava a criança para passar o dia na residência da tia. A possibilidade de trabalhar de casa e conciliar os cuidados com o filho que subitamente ficou sem escola não foi, para ela, uma opção.
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Veja o que já enviamosEu estou conseguindo aprender, mas não tem lado bom em estar longe da sala de aula. Estou com muita saudade da escola
[/g1_quote]Eliene está entre os milhares de brasileiros que não puderam parar de trabalhar por conta da Covid-19, e cumpre expediente todos os dias em uma casa lotérica a cerca de 26 km de onde mora. A tia, Maria Eunice das Neves, conhecida como Nice, de 55 anos, é mineira, diarista e, segundo conta, âpariu 6 meninosâ. Três dos filhos moram com ela no mesmo lote residencial, onde há três barracos construÃdos. à ali que Gabriel fica, aos cuidados de todos que estiverem disponÃveis para olhá-lo.
Quando fui à casa de Nice, em uma terça-feira à tarde, era a filha dela, de 13 anos, Thauanne Neves, que estava cuidando do pequeno. Ele dormia em uma cama de casal enquanto a adolescente zapeava pelas redes sociais com o celular. Conversamos um pouco, e rapidamente ela levantou para acordá-lo, pois já era a hora do banho.
âEu gosto de ficar com ele, porque a gente brinca juntos. Só é ruim quando ele teima em alguma coisaâ, afirma a garota, que está no Ensino Fundamental. Cerca de 30% das adolescentes e jovens mulheres brasileiras, de 14 a 24 anos, ajudam a cuidar de crianças ou idosos em casa ou na residência de parentes, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de DomicÃlios (Pnad ContÃnua), do Instituto Brasileiro de Geografia e EstatÃsticas (IBGE).
Ao todo, 5,9 milhões de meninas nessa faixa etária ficavam responsáveis por esses cuidados no paÃs em 2017 â uma fase em que estão desenvolvendo o aprendizado ou planejando a entrada no mercado de trabalho. O excesso de tarefas domésticas influencia no ciclo de pobreza que atinge, principalmente, as mulheres.
Deveres domésticos e escolares
Thauanne assiste um aulão âtira-dúvidasâ online pela manhã e, a partir das 11h, olha Gabriel, até o fim do dia. à noite, é o momento que ela tem para estudar e fazer os deveres. âEu estou conseguindo aprender, mas não tem lado bom em estar longe da sala de aula. Estou com muita saudade da escolaâ.
Em relação a Gabriel, ela lembra de outra parte âchataâ: âdar comida e banho neleâ. Além disso, à s vezes o garoto atrapalha a menina na hora de fazer a lição de casa; âmas eu ligo a TV e ele fica quietoâ, completa. A mãe, Maria Eunice, faz a comida, deixa pronta e vai trabalhar. âA gente fica com ele por amor, e vai ser por tempo indeterminado, porque a mãe dele não tem condições, nem financeiras e nem de parar de trabalhar para ficar com o meninoâ, relata Nice.
A mãe do menino, Eliene, diz que não tem intenção de mandar nenhum dos filhos para a escola antes que as coisas melhorem, em um cenário de poucos casos da doença ou vacina. âEu me preocupo bastante, porque vi pessoas sendo afastadas por conta da doença, vejo também pessoas que perderam parentesâ.
Eliene ressalta que só confia em deixar Gabriel fora de casa porque é com a tia; se fosse com outra pessoa, ia ser difÃcil. âà a opção que eu tenho, mulher. Como eu iria trabalhar se não fosse assim?â.
O ensino remoto para a Educação Infantil começou em 13 de julho, com muitas dificuldades, tensões das escolas e professoras, trabalho redobrado e muita improvisação. Para a professora Edna Barroso, de Ceilândia, houve uma ruptura no trabalho que estava sendo feito presencialmente, e a escola não teve tempo de fazer uma reunião com a comunidade. âO teletrabalho e o tele-estudo transportaram a escola para um ambiente que é Ãntimo, familiar, mas a casa e os familiares não estão preparados, assim como as professoras também nãoâ, diz.
A Secretaria de Educação do DF alegou, em nota, que o ensino mediado por tecnologia é algo muito recente. âTodos estão aprendendo. à um desafio, que provoca os educadores a pensarem em novas possibilidades de atuação pedagógicaâ, afirmou à secretaria em nota à reportagem do Lição de Casa.
