As rimas de mulheres do Vale do Jequitinhonha estão atravessando as fronteiras do semiárido mineiro e acalentando corações no Brasil e no mundo enquanto o coronavÃrus parece não dar trégua. O projeto Versinhos do Bem-Querer nasceu em 26 de março com o objetivo de gerar renda para famÃlias da região no impacto da crise: as mulheres â que além de versadeiras, são também bordadeiras, tecelãs e ceramistas â souberam que as feiras onde expõem artesanatos seriam canceladas e os homens das famÃlias, acostumados à s viagens para trabalhar no corte de cana e na colheita do café, tiveram que ficar em casa por não conseguirem transpor as barreiras sanitárias.
Desde então, já foram mais de duas mil encomendas de versos, de todo o Brasil e até do exterior, que chegaram pelo site do projeto. âComo tudo precisava ser pensado online, e muitas das versadeiras não têm acesso à internet, foi um desafio. E dar certo só mostra como o trabalho e a cultura da região são especiais. São muitas famÃlias e esperamos conseguir atender todas com o valor que está sendo arrecadadoâ, diz Viviane Fortes, da ONG Ajenai, gestora do projeto.
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Veja o que já enviamosAo todo, além das jogadoras de verso e suas famÃlias, sete comunidades rurais também são beneficiadas pelo projeto. Mais do que dinheiro, alimentos, medicamentos ou itens de higiene, Viviane conta que as encomendas estão devolvendo alegria para as mulheres do Jequitinhonha â já saudosas das rodas de verso tão comuns na região. âCantar é algo que as deixa contentes. à tradição se reunir, jogar verso; muitas me falavam que estavam tristes com a pandemia, e cantar as ajudou a ficarem mais esperançosasâ, acrescenta Viviane, que atua no Vale do Jequitinhonha há 25 anos.
[g1_quote author_name=”Marli de Jesus” author_description=”Jogadora de verso do Vale do Jequitinhonha” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]
Os versos de bem-querer falam de amor, de beleza, animam a gente. Já chorei demais com mensagens e fotos de quem recebeu meus versos, muitas são pessoas sozinhas ou que estão passando por alguma dor muito grande
[/g1_quote]Jogar verso, como se diz no Vale do Jequitinhonha, é uma tradição nessa região de Minas Gerais. Em festas, nas celebrações de colheita, nos encontros das comunidades, nas festas de nascimento, as pessoas – mulheres, na grande maioria – se juntam para cantar rodas de verso. Todos cantam juntos um refrão, que é entremeado de versos. Os versos são jogados pelas participantes: podem ser cantados de improviso ou fazer parte de um repertório tradicional; podem ser de âbem quererâ ou de desafio. No Projeto Versinhos do Bem Querer, as pessoas encomendam o verso pelo site, pagam R$ 26 e enviam o email para onde a poesia deve ser encaminhada.
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O corte abrupto de renda com a pandemia levou as versadeiras a serem mais ativas também na agricultura familiar. Mas, mesmo trabalhando longas horas por dia, Marli de Jesus garante que ainda sobra disposição e criatividade para rimar. âCrio os animais, planto, capino, colho: no fim do dia. à s vezes. me dá cansaço, mas os versos faço tranquilamente. Canto desde criança. Sou filha de mestre cantador e, com a experiência, a gente vai sabendo cruzar as palavras; depende da personalidade de cada um, da forma como a inspiração vem para a genteâ, explica a versadeira por telefone, enquanto reclama do barulho das galinhas no quintal e as afasta para ouvir melhor as perguntas.
Mãe de três filhos e moradora da comunidade de Curtume, no municÃpio de Jenipapo de Minas (a quase 600 quilômetros de Belo Horizonte), Marli conta ao #Colabora quais pedidos foram mais marcantes. âOs versos de bem-querer falam de amor, de beleza, animam a gente. Já chorei demais com mensagens e fotos de quem recebeu meus versos, muitas são pessoas sozinhas ou que estão passando por alguma dor muito grande. Me emocionei muito com uma criança que estava em tratamento de câncer e uma moça que tinha perdido o neném. A gente sofre, mas tenta buscar levezaâ.
A versadeira, que também é bordadeira, fala da saudade de se juntar à s comadres para o canto e o trabalho artesanal, além da falta que está sentindo da principal aglomeração da região: as rodas de verso. âà muita felicidade quando a gente se encontra para cantar. Os versos de desafio, então: a gente joga e a pessoa vai combatendo, tudo num clima de brincadeira. E sozinha a gente canta menos, não é tão bom, sinto falta da participação das outras. Você já pegou um bordado tingido para secar? à um peso! Precisa de companhiaâ, explica.
[g1_quote author_name=”Mariana Berutto” author_description=”Publicitária e responsável pela comunicação do Versinhos do Bem-Querer” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]
São mulheres de força e generosidade, mesmo em uma região muito seca do Brasil e com poucos recursos. Elas carregam muita sabedoria: seja nos versos, nos tingimentos dos tecidos ou cerâmicas com diferentes cores de barro e plantas locais, seja no respeito e atenção aos ciclos da natureza
[/g1_quote]Marli também confessa que, apesar das dificuldades, acredita que as famÃlias do Jequitinhonha vão se recuperar em breve. âTem muitos casos [de coronavÃrus] ainda. Muitos homens tentaram ir trabalhar, mas foram barrados pelos policiais. E tudo bem. Temos alegria e esperança, nossa casa: de fome, a gente não morreâ, garante a jogadora de versos, em meio a risos.
Alegria, inclusive, foi a palavra que a mineira Mariana Berutto, responsável pela comunicação do projeto, escolheu para definir o povo e, principalmente, a legião de mulheres do Vale. Atualmente morando na SuÃça, a publicitária fala com carinho das tradições e ensinamentos da região. âNão moro mais no Brasil, mas nunca saà de lá. Me apaixonei pela riqueza cultural dessa região. E percebi que não tinha nada documentado, registrado e isso dificultava muito a obtenção de recursos de editais, financiamentos, então comecei esse trabalho. O projeto dos versinhos é uma forma de gerar renda com uma tradição local, que já existe. Se traz alegria para eles, por que não traria para outras pessoas?â, indaga.
Aos olhos de Mariana, as mulheres da região são representantes da resistência. Não só pelo isolamento geográfico, mas também por muitas delas têm origens quilombolas â reconhecidas pela Fundação Palmares â e têm uma forte ligação com a natureza como fonte de renda e inspiração. âSão mulheres de força e generosidade, mesmo em uma região muito seca do Brasil e com poucos recursos. Elas carregam muita sabedoria: seja nos versos, nos tingimentos dos tecidos ou cerâmicas com diferentes cores de barro e plantas locais, seja no respeito e atenção aos ciclos da natureza. à muito aprendizado que se tem láâ.
Na região com um dos piores Ãndices de desenvolvimento humano de Minas Gerais, conhecida pela aridez das paisagens, pelas dificuldades impostas pelo sol intenso, pelas casinhas isoladas e pelos mais de 50 mil km² do Rio Jequitinhonha, há também uma forma única de se levar a vida. Através dos versos, essas mulheres buscam inspirar mais pessoas a escolherem âviver brincandoâ sem âbrincar com a vidaâ.
âEssa doença é perigosa, não é para desafiar ela não. A gente tem que tomar cuidado, mas sem perder a leveza. Com tudo isso acontecendo, a gente sofre sim. Mas precisamos buscar a delicadeza e a poesia lá no fundo pra trazer o sorriso de volta pro rostoâ, diz Marli, com firmeza. Brincando, perguntei se a máscara não iria atrapalhar ver o sorriso, e ela me respondeu: âAà a gente sorri com os olhos bem apertadinhos que dá pra saberâ.
Para comprar um versinho e conhecer mais sobre o projeto, acesse: https://www.versinhos.com.br/

Ai que incrÃvel! Matérias assim nos trazem esperança, mesmo com tudo que está acontecendo! Muito obrigada por compartilharem
Bom dia
Qual watts para encomendar os versos.