(Porto Alegre, RS) – Além da experiência na catação de materiais recicláveis, a vida entre pilhas de papéis e papelão rendeu um pensamento crÃtico a Alexandro Cardoso, 41 anos. Ele, que lia livros e revistas encontrados nos sacos descartados pelos moradores de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, hoje é estudante de ciências sociais e tem uma noção precisa do valor de seu trabalho para a sociedade.
Alex faz parte da categoria de catadores de materiais recicláveis â a que mais contribui para reduzir o impacto da produção de itens como plástico e papel no meio ambiente. Pelo trabalho de cerca de 10,5 mil catadores brasileiros atuando em 607 associações mapeadas pelo Anuário da Reciclagem, um volume de resÃduos de 354.649,08 toneladas foi recuperado em 2020.
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âNós, catadores, temos conhecimento sobre cada processo e cada tipo de material que é descartado, cada polÃmero, cada ondulação de papelâ, diz ele, que, atualmente, desempenha função administrativa em uma cooperativa de Porto Alegre. âSomos importantes no processo de sustentabilidade, tendo envolvimento em 14 dos 17 ODSâ, â os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, definidos em uma agenda global para o desenvolvimento humano e socioambiental.
[g1_quote author_name=”Alexandro Cardoso” author_description=”Catador e aluno de Ciências Sociais na UFRGS” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Algumas pessoas falam reciclador porque é mais bonito, acham que falar âcatadorâ ofende. Reciclador é o empresário. Eu sou catador e ser catador não ofende
[/g1_quote]Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosApesar da relevância da categoria, a vida vivida pela maioria de catadoras e catadores segue sendo à margem. âà uma construção da sociedade das aparências, em que as pessoas valem o que têm, não o que são. Então quando olham para a gente catando na lixeira, já têm toda uma ideia sobre nósâ, explica. âMas se a sociedade enxerga a gente a partir da lixeira, o contrário também acontece. E a partir das lixeiras eu vejo se uma pessoa é boa ou má.â
O que encontra no lixo das pessoas, ele argumenta, tende a refletir valores e condutas pessoais. âSe uma pessoa separa o lixo possivelmente não é alguém que vai chutar um cachorro na rua. Se não separa, possivelmente coloca o carro na vaga para idoso ou então fura fila. A gente percebe quem tem empatia, quem é solidário.â
Pavor e preconceito
A vida na reciclagem oferece poucas oportunidades, baixa remuneração (um catador, em média, ganha R$ 800 por mês no Brasil) e, principalmente, bastante discriminação. Um dos motivos para o preconceito contra catadoras e catadores, segundo Alex, se aproxima da figura do âvelho do sacoâ â evocada há décadas para assustar crianças em cidades como Porto Alegre.
Assim como um adulto que cresce e aparentemente esquece, mas segue traumatizado por esse medo infantil, as cidades guardam pavor de quem trabalha com o que é popularmente chamado de lixo â atividade compartilhada tanto por catadores quanto por velhos do saco. âOlha só: a pessoa deseja um sorvete, come o sorvete, tem prazer nesse sorvete, mas, assim que termina, a sobra se transforma num câncerâ, explica. âE a pessoa que lida com os resÃduos é ainda mais cancerosa.â
Essa e outras reflexões sobre a representação social dos catadores na sociedade estão descritas em âDo Lixo a Bixo: a cultura dos estudos e o tripé de sustentação da vidaâ, lançado em junho pela editora Dialética. O livro narra a história de vida de um tÃpico âcatador iletradoâ, que interrompe os estudos no 5º ano do ensino fundamental porque precisa trabalhar.
A obra conta, porém, um desfecho ainda pouco comum entre os pares de Alex, que fez viagens internacionais como representante da categoria â o passaporte tem registro em destinos como SuÃça, Quênia, Estados Unidos, BolÃvia e Ãndia â e chegou à universidade. âFalei ao lado de muitos doutores, mas não tive vergonha da minha escolaridade. Com o tempo percebi que não fui eu que abandonei a escola, foi a sociedade que me abandonou.â
Como tudo costuma ser
Aos dois meses de idade, Alex já percorria a zona central de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, dentro do carrinho de reciclagem dos pais Alceu e Tânia Maria. Os anos seguintes avançaram da mesma forma, entre materiais recicláveis nas ruas da cidade e nos pátios da Cai Cai, a vila de catadores onde foi criado.
âA brincadeira era trabalhar, limpar pátio, separar material. Lembro de brincar com as outras crianças de quem juntava mais ligeiro, quem carregava o saco mais pesado, quem organizava melhor os materiaisâ, recorda. âNão havia separação do que era casa, do que era trabalho e do que era diversão, mas tive muito amor e cuidado, fui uma criança muito feliz.â
Quando cresceu, Alex fez da catação sua profissão também. “Até os 16 anos trabalhava sem o peso de sustentar a casa. Parei de estudar quando fui pai da minha primeira filha, porque não dava para conciliar o estudo. Depois tive mais três filhos.â
Envolvido integralmente com o trabalho, o catador tornou-se uma liderança entre os colegas. Em 2001, no congresso que deu origem ao Movimento Nacional dos Catadores de ResÃduos Recicláveis (MNCR), foi escolhido como coordenador: âAlgumas pessoas falam reciclador porque é mais bonito, acham que falar âcatadorâ ofende. Reciclador é o empresário. Eu sou catador e ser catador não ofendeâ, diz Alex, que trabalha desde criança na catação.
Avanço é para todos
Com o movimento organizado, catadoras e catadores iniciam um perÃodo de conquistas, como o reconhecimento da profissão na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO). Em 2003, o MNCR expandiu sua articulação, integrando a criação da Rede Latinoamericana de Catadores (Red Lacre). Cinco anos depois, a categoria realizou um congresso mundial que gerou a Aliança Global de Catadores.
âAvançamos muito nos aspectos legais no Brasil, com os governos Lula e Dilmaâ, conta. âTanto no reconhecimento do catador como principal agente para a coleta seletiva e em programas para o catador, quanto organizando recursos para criar galpão de reciclagem, compra de caminhões e formação para sair dos lixões.â
Nessa época, Alex lembra que as(os) catadoras(es) brasileiras(os) ganharam notoriedade no cenário internacional. Não à toa, ele representou a categoria discursando em encontros de universidades e conferências internacionais, como eventos da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT). âPassamos a ser vistos com outros olhos, o paÃs campeão de reciclagem de latinhas, que gerava renda com resÃduo… mas desde o governo Temer os programas pararam. Agora está aÃ, o âBrasil sem lixãoââ.
O Programa Lixão Zero, lançado em 2019 pelo Ministério do Meio Ambiente, faz parte da PolÃtica Nacional de ResÃduos Sólidos (PNRS) e é criticado por beneficiar empresas privadas, resultando na exclusão da função do catador, já que utiliza o processo de incineração de resÃduos. Para promover uma discussão pública sobre o tema, os catadores criaram uma frente nacional contra a incineração. As empresas convidadas, segundo o catador, não participaram do debate.
âA incineração acaba com o material que poderia ser reaproveitado e ainda libera fumaça tóxica. à um processo linear que degrada a naturezaâ, afirma ele, que aposta na economia circular para o desenvolvimento sustentável do planeta. âNo processo circular se reaproveita. Para fazer plástico, por exemplo, você usa petróleo. Aà depois que usa esse plástico, você recicla e não precisa tirar petróleo de novo! Quando se queima o plástico, se queima petróleo!â
Como tudo deveria ser
Frequentando salas de aula vez ou outra para fazer atividades de educação ambiental, Alex nunca se afastou totalmente da escola. E sentia vontade de retornar como aluno. Em 2015, passando em frente a um colégio público perto de sua casa, decidiu entrar para se informar sobre uma possÃvel retomada. Acabou ficando até concluir o 5º ano â e os demais do ensino fundamental.
Na sequência cursou o ensino médio e frequentou um cursinho popular para prestar vestibular, sendo aprovado para o curso de ciências sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A trajetória, que chama atenção de alguns pela singularidade â quando, na verdade, a educação é um direito de todos previsto na Constituição Federal â, lhe rendeu até o apelido de âcatador doutorâ.
Agora, prestes a terminar a faculdade, está realizando o projeto de pesquisa que levará ao trabalho de conclusão. Neste, pretende abordar a construção do âeu catadorâ. A escolha visa apresentar o universo dos catadores a quem não o conhece â proposta semelhante à âDo Lixo a Bixo: a cultura dos estudos e o tripé de sustentação da vidaâ. O tema da educação, como o próprio tÃtulo informa, está presente no livro a partir de uma análise sobre o papel da escola e do estudo para o pleno desenvolvimento dos sujeitos.
Em seu argumento, o catador critica o sistema de ensino atual que, baseado em uma fórmula antiga, ainda enxerga estudantes como meros receptáculos do conhecimento transmitido por professores. âà como uma empresa em que as pessoas têm que cumprir vários requisitos. Eu mesmo aprendi mais na vida, levando as revistas e livros que achava na cooperativa para casa do que na escolaâ, afirma.
Além da educação emancipatória, o catador defende a solidariedade, a empatia e o amor â o chamado âtripé de sustentação da vidaâ, que completa o nome do livro â como valores necessários à manutenção da existência humana na Terra. âSomos seres livres, que se associam livremente para partilhar.â Essa ideia, aliás, está na raiz da criação das cooperativas de catadores que Alex tanto se orgulha de defender.
âAcreditamos em pessoas se juntando para dividir o trabalho que precisa ser feito e dividir também os frutos, sem precisar que todos sejam muito pobres pra que apenas um de nós fique muito ricoâ, diz ele que, junto com seus colegas, busca outras formas de se relacionar com as pessoas e o com meio ambiente para melhor â e por mais tempo â viver.
(*) No Rio Grande do Sul, a expressão âBixoâ é usada para indicar as pessoas que são aprovadas nos vestibulares. Daà o tÃtulo do livro: âDo Lixo a Bixoâ, que traduz o percurso de vida de Alexandro Cardoso. Se quiser mais informações sobre o trabalho do catador doutor, pode procurar no Instagram @alexcatador
