Tema obrigatório nas eleições de 2016 no Rio de Janeiro, a Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo licenciado Marcelo Crivella (prefeito do Rio de 2017 a 2020), ganhou suas escrituras sagradas quase 30 anos atrás â e com furiosas referências a religiões alheias. Lançado em 1987, âOrixás, caboclos e guias: deuses ou demônios?â, escrito pelo lÃder da igreja, Edir Macedo, estabelece os preceitos da Universal, num libelo de brutal preconceito contra as religiões afro-brasileiras.
[g1_quote author_name=”Bispo Macedo” author_description=”No livro ‘Orixás, caboclos e guias: deuses ou demônios?'” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]
Os maiores médicos do Rio de Janeiro já chegaram à conclusão de que o espiritismo é a maior fábrica de loucos que existe
[/g1_quote]O tratado intolerante é a semente do medo que, em temporada eleitoral, atormenta os devotos da umbanda, do candomblé e do espiritismo â e explica boa parte da rejeição a Crivella. O candidato até assinou, na campanha do primeiro turno a Prefeitura do Rio, carta-compromisso contra a discriminação religiosa (entre outros itens) e, em entrevistas, jura que a Universal não participará de seu eventual governo. Tudo insuficiente para exorcizar o fantasma gerado pelo livro de Macedo â que, aliás, segue à venda.
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Veja o que já enviamosNinguém que se ocupa dos caminhos da fé por aqui ficou indiferente à obra. Comercializada em bancas de jornal a preços atraentes, transformou-se num best-seller instantâneo, vendendo impressionantes três milhões de exemplares. Muita gente, aliás, comprou achando que encontraria escritos sobre candomblé e umbanda â como a dedicatória âa todos os pais-de-santo e mães-de-santo da nossa pátriaâ, logo no inÃcio, insinua. Era bem o contrário.
âOs exus, os pretos-velhos, os espÃritos das crianças, os caboclos ou os âsantosâ são espÃritos malignos sem corpo, ansiando por achar um meio para se expressarem nesse mundo, não podendo fazê-lo antes de possuÃrem um corpoâ, escreve Macedo, à página 16, logo depois da imagem de um convite âpara uma cerimônia de candombléâ, emoldurado por um tridente. âExistem casos em que, por força das circunstâncias, eles chegam a possuir animais para cumprir seus intentos perversos. (…) Na nossa igreja, temos centenas de pais-de-santo e mães-de-santo, que foram enganados por espÃritos malignos durante anos a fioâ.
[g1_quote author_name=”Luis Antonio Simas” author_description=”Historiador” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]O ritual do descarrego tem semelhanças com os de umbanda. Ele usa códigos dos cultos de umbanda para demonizá-los
[/g1_quote]Mais adiante, a aposta do autor na discriminação torna-se mais pesada. à página 25, a foto de uma pomba-gira incorporada ganha legenda pregando que a entidade âcausa, em muitas mulheres, câncer de útero, de ovário, a frigidez sexual e outras doençasâ. E assim continua por todas as 157 páginas da obra, em pretensas referências cientÃficas (âOs maiores médicos do Rio de Janeiro já chegaram à conclusão de que o espiritismo é a maior fábrica de loucos que existeâ, âOs demônios também se alojam no sistema nervoso do homem, daà poderem dominá-lo completamenteâ) e ameaças à vida (â… todas as pessoas que vivem querendo morrer são endemoninhadasâ), até mergulhar em metáfora apocalÃptica: âEssa religião, tão popular no Brasil, é uma fábrica de loucos e uma agência onde se tira o passaporte para a morte e uma viagem para o infernoâ.
Argumentos tão patéticos podem parecer inofensivos a mentes serenas â mas tiveram efeito devastador em boa parte da população. âOrixás, caboclos e guias: deuses ou demônios?â serviu de plataforma à popularização da Universal, materializando o milagre da fama e da fortuna de seu inventor, Edir Macedo, e dos parceiros no comando da aventura â entre eles, o sobrinho, senador e postulante a prefeito do Rio, Marcelo Crivella.
O tratado de terror discriminatório serviu de alicerce a maior igreja neopentecostal do Brasil, atualmente espalhada por todos os continentes, que inspira seus ritos justamente nos protocolos comuns a terreiros da fé afro-brasileira. âO ritual do descarrego tem semelhanças com os de umbanda. Ele usa códigos dos cultos de umbanda para demonizá-losâ, atesta o escritor e historiador Luiz Antonio Simas, especialista no assunto. âO que Macedo faz é ressignificar os rituais, adotando a prática ritualÃstica no ambiente cristão. A própria expressão descarrego é do universo da umbandaâ, observa.
De tão pesado, o livro teve a venda proibida no Brasil pela juÃza Nair Cristina de Castro, da 4ª Vara da Justiça Federal da Bahia, em novembro de 2005. Na sentença, ela escreve que a obra âse mostra abusiva e atentatória ao direito fundamental, não apenas dos adeptos das religiões originárias da Ãfrica e aqui absorvidas, culturalmente, como afro-brasileiras, mas da sociedade, no seu genérico prisma, que tem direito à convivência harmônica e fraterna, a despeito de toda a sua diversidade (de cores, raças, etnias e credos)â. Durou cerca de um ano, e o Tribunal Regional Federal da 1ª Região liberou a obra, argumentando com a liberdade de expressão.
[g1_quote author_name=”Rosiane Rodrigues” author_description=”Escritora” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Os templos foram instalados nas periferias, onde o Estado é uma abstração. Os prédios da igreja são espaçosos e refrigerados, o oposto, em termos de conforto das casas dos fiéis
[/g1_quote]Simas confirma que âOrixás, caboclos e guiasâ foi o âlivro basilarâ da Universal. âNo lançamento, ninguém sabia quem era Edir Macedoâ. O lÃder da igreja de Crivella, na realidade, baseou-se em algo bem mais antigo para compor suas escrituras. âNo imaginário ocidental, os missionários europeus que chegaram à Ãfrica no século 19, trabalharam com a ideia de bem e mal presente na dicotomia judaico-cristã. A ideia de Exu como demônio foi inventada naquele momentoâ, ensina o pesquisador. âA catequese jesuÃtica-católica defendia a adesão como forma de fugir do diaboâ.
A escritora Rosiane Rodrigues, também pesquisadora das religiões de matriz africana, enxerga, na releitura da Universal, referências ao Reavivamento da Rua Azusa, reunião pentecostal liderada pelo pregador afro-americano William Joseph Seymour, que durou de 1906 a 1915, em Los Angeles (EUA). O processo se desenvolveu em cultos de adoração e na mistura inter-racial. Caiu como uma bomba no establishment religioso de então â teólogos cristãos consideraram o comportamento escandaloso e pouco ortodoxo. Hoje, o avivamento é avaliado pelos historiadores como principal fator para a propagação do pentecostalismo no século 20.
âA Universal faz uma releitura desse processo, algo estratégico para o projeto de crescimentoâ, relata Rosiane. âOs templos foram instalados nas periferias, onde o Estado é uma abstração. Os prédios da igreja são espaçosos e refrigerados, o oposto, em termos de conforto das casas dos fiéisâ. Ela conta que até a estrutura fÃsica sofre manipulação em nome dos rituais. âA temperatura do ar condicionado é regulada para que, no momento do exorcismo, o ambiente fique mais quente, faça mais calor. Para potencializar o êxtase religiosoâ.
Desde a catequese colonizadora nas Américas e na Ãfrica, ninguém jamais havia sistematizado a demonização da umbanda e do candomblé até o best-seller de Edir Macedo. âDo ponto de vista sociológico, é interessante notar que, mesmo com a estratégia da Universal, as práticas mágico-religiosas não perderam o protagonismo nos cultosâ, sustenta a pesquisadora. âA incorporação do EspÃrito Santo é exatamente igual à dos orixás no candombléâ.
Como um parasita da fé, a igreja ganhou o mundo, em especial a Ãfrica, montada basicamente na mesma estratégia: o demônio etc. Outras denominações neopentecostais seguiram o mesmo caminho até que, em fevereiro de 2013, todas foram proscritas em Angola, ex-colônia portuguesa, por âpropaganda enganosaâ e âexploração das fragilidades do povoâ. O motivo principal foi a morte de 16 pessoas, por esmagamento e asfixia, no culto âO dia do fimâ, que reuniu 150 mil fiéis da Universal em Luanda, em 31 de dezembro de 2012. Em março de 2013, a igreja de Edir Macedo recebeu sozinha a autorização para voltar, criando um monopólio evangélico no paÃs.
O tio de Crivella, aliás, não parou no primeiro best-seller. Escreveu dezenas de livros com temática espiritual, ultrapassando, no conjunto da obra, mais de dez milhões de exemplares vendidos. A trilogia autobiográfica âNada a perderâ conta a última temporada do bispo na cadeia (por lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e evasão de divisas, em 2009) e anuncia outra etapa na trajetória da Universal: o poder da igreja dentro dos presÃdios. âà a era dos traficantes evangélicosâ, explica Rosiane. âA estratégia dos pastores absolve o ser humano e atribui o crime ao demônio, que, no discurso deles, tem nome: Exu, o tranca rua etcâ.
O novo capÃtulo instala o inferno na vida de pais e mães-de-santo das comunidades populares cariocas, perseguidas pelos bandidos convertidos e expulsas sumariamente. âComo um traficante do Lins disse a uma mãe-de-santo: ‘Você não pode mais ficar aqui, porque o morro é de Jesus e você é do diabo’â, relata a pesquisadora.
Tudo questão de mercado, conclui Luiz Antonio Simas. âA estratégia foi criada diante da percepção de que o rebanho estava receptivo. O fundamento teológico da salvação passava pela quebra de qualquer sÃmbolo, pela ideia do mal, da satanização. Assim foi feitoâ, descreve ele.
Uma história que, como a literatura prova, não é de Deus.

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