Um carrossel de emoções feito para provocar e romper silêncios. Essa é uma das formas de se descrever o filme Assexybilidade, segunda produção do diretor Daniel Gonçalves, 40 anos. Com conversas sobre namoro, flerte, beijos e sexo, o documentário mostra que pessoas com deficiência (PcD) não são anjos sem desejos. âEu fiz desse jeito propositalmente. Era um desejo, desde o inÃcio, que o filme botasse o dedo nessa feridaâ, revela Daniel. O longa estreia nesta quinta-feira (19/09) nos cinemas, após exibições em diferentes festivais nacionais e internacionais.
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Assexybilidade começou a ser gravado ainda antes da pandemia. Daniel conta que a ideia surgiu com base em algumas cenas de âMeu nome é Danielâ (2017) – primeira produção do diretor, nascido em Barra Mansa (RJ) e formado em jornalismo e cinema. âPorque tem uma sequência em que eu falo um pouco sobre as minhas próprias experiências afetivas sexuaisâ, explica ele.
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Veja o que já enviamosCom 15 entrevistas, o documentário apresenta relatos de pessoas com diferentes tipos de deficiência, raça, gênero e, obviamente, sexualidade. Além do protagonismo na frente das telas, o filme se destaca pela presença PcD na produção. Junto de Daniel, participam Nathalia Santos, mulher cega que fez a pesquisa de personagens e Gabriela Bagrichevsky, mulher com visão monocular, responsável pela fotografia e making off. A produção do filme é da âSeu Filmeâ, criada por Daniel e da TvZERO, com coprodução da Globo Filmes e da RioFilme.
A maioria das pessoas sem deficiência não espera ouvir o que escutam, no filme, de pessoas com deficiência. Porque no senso comum a gente não transa, nós somos anjos e não temos desejo e mais alguns outros estereótipos, todos esses muito capacitistas
Depois da primeira fase de gravações, o projeto foi retomado no inÃcio de 2022, com o principal objetivo de incluir a maior diversidade possÃvel de depoimentos. âEu já sabia, mais ou menos, que a gente não tinha conseguido gravar pessoas surdas, com deficiência intelectual e no espectro autistaâ, comenta Daniel.Â
Após todas as entrevistas serem feitas, o filme ficou pronto e estreou em julho de 2023, durante o OutFest Los Angeles, nos Estados Unidos. No Brasil, o longa foi exibido no Festival do Rio, quando recebeu o prêmio de Melhor Direção de Documentário. Até chegar aos cinemas, Assexybilidade rodou por mais de 20 festivais em diferentes paÃses.
Tabus e violências
Parte dos silenciamentos rompidos em Assexybilidade estão ligados ao capacitismo e a violência que afetam a vida afetiva e sexual de pessoas com deficiência. âEu vivi algumas situações de perguntarem para uma garota que estava saindo comigo, se ela estava ficando comigo por penaâ, relembra Daniel – ele possui uma deficiência de origem desconhecida que afeta sua coordenação motora. A intenção, no começo do projeto, foi buscar outras pessoas com experiências semelhantes.
Entre os depoimentos, o filme também apresenta performances de pessoas com deficiência. Segundo Daniel, a intenção foi usar essas cenas como momentos de respiro e uma forma de equilibrar com os momentos de maior tensão. âTem pessoas que falam sobre episódios de abusos e violência sexual, mas também tem outros momentos que são mais levesâ, acrescenta o diretor.Â
O tema e a presença de cenas com beijos e carÃcias entre pessoas com deficiência também geram reações conservadoras e de estranhamento. Em um dos casos mais extremos, o filme foi excluÃdo da programação da 1ª Mostra de Artes Inclusiva, realizada em Santa Catarina. Sobre esse tipo de reação, Daniel acredita ser algo quase natural, por conta da invisibilidade da sexualidade de PcD na sociedade.
âA maioria das pessoas sem deficiência não espera ouvir o que escutam, no filme, de pessoas com deficiência. Porque no senso comum a gente não transa, nós somos anjos e não temos desejo e mais alguns outros estereótipos, todos esses muito capacitistasâ, pontua Daniel Gonçalves. Por outro lado, ele afirma que a recepção por outras pessoas com deficiência tem sido muito positiva, de identificação e reconhecimento.
Impacto e outros projetos
A campanha de impacto de Assexybilidade prevê a exibição centros de saúde e acolhimentos de vÃtimas de abuso sexual. Daniel destaca que o objetivo é aumentar os debates em torno da saúde sexual de PcD. âMuitas vezes as pessoas com deficiência têm direitos negados pelas próprias famÃliasâ, afirma ele, ao comentar sobre as ações para discutir a obra com famÃlias.
Na entrevista ao #Colabora, Daniel também abordou o futuro de suas produções. Seu trabalho mais recente foi no âFalas de Inclusãoâ, especial da Rede Globo preparado para o Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência (21 de setembro).Â
âTem um filme que eu quero muito fazer, seria uma espécie de encerramento de uma trilogia sobre pessoas com deficiência – que é um filme sobre educação inclusivaâ, complementa Daniel. Atualmente, ele também está trabalhando em uma série sobre PcD no esporte para o Canal Off que pretende construir uma narrativa diferente das tradicionais âhistória de superaçãoâ.
