O pensador e escritor Daniel Munduruku agora é também roteirista. Como um dos grandes difusores da cultura indÃgena no Brasil, ele costuma usar as páginas dos seus mais de 50 livros infanto-juvenil para desconstruir os estereótipos errôneos sobre os povos indÃgenas. Pratica uma literatura militante contra as narrativas hegemônicas que insistem em transformar os indÃgenas em um povo âselvagem, inútil, sem cultura, primitivo e preguiçosoâ.
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Esse conjunto de referências preconceituosas contra os povos ancestrais será abordado no especial da TV Globo âFalas da Terraâ. Ao aderir ao movimento de apropriação da história e da cultura a partir da perspectiva histórica dos próprios indÃgenas, o programa propõe, como explica Daniel Munduruku, uma âdecolonização do pensamento que vem sendo reproduzido ao longo dos anos no Brasilâ. O programa será exibido na semana do Dia dos Povos IndÃgenas – nesta segunda-feira, dia 15 – e depois entrará para a grade da Globoplay.
Pedir desculpa não é o suficiente. Pedir desculpa é o primeiro passo para reconhecer que os indÃgenas fazem parte e sempre fizeram parte do Brasil. à preciso reparar o erro e essa reparação passa pela demarcação das terras indÃgenas
Além de escrever o roteiro em parceria com Antonia Prado, que também assina a direção artÃstica, Felipe Herzog, diretor, Micheline Alves e Veronica Debom, Munduruku foi também um dos indÃgenas entrevistados. Além dele, aparecem no especial AÃlton Krenak, que quando gravou seu depoimento ainda não era imortal â como o primeiro indÃgena na Academia Brasileira de Letras (ABL), ele herdou a cadeira de número 5. E Valdelice Verón Guarani Kaiowá, filha de um lÃder assassinado, o cacique Marcos Verón, e hoje uma das principais porta-vozes de seu povo.
Para além da luta pela demarcação dos seus territórios, a segurança dentro deles e a desintrução, ou seja, a retirada das pessoas que ocupam a área de forma ilegal, o programa aborda o preconceito arraigado na sociedade brasileira contra os indÃgenas, sejam eles aldeados ou os que vivem em contexto urbano.
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Veja o que já enviamosO meu ser indÃgena está na minha ancestralidade, na minha espiritualidade, no meu sangue, no meu corpo, na minha alma. Não preciso estar pintada ou de cocar para me verem como indÃgena
A bióloga e artista indÃgena Uýra Sodoma aparecerá fazendo uma performance no centro do Rio de Janeiro e no de Manaus, a capital do Amazonas, desde sempre o estado com a maior concentração de indÃgenas no paÃs. Uýra caminha pelas ruas das duas cidades com placas coladas ao corpo com as palavras: selvagem, inútil, sem cultura, privilegiado, primitivo, preguiçoso. A performance começa com ela exibindo os rótulos e, aos poucos, à medida que caminha, vai se despindo desses chavões.
A atriz, ativista e cantora Zahy Tentehar é a apresentadora do especial da TV Globo. Por viver no contexto urbano e não no território indÃgena Cana Brava, no Maranhão, ela costuma ser questionada sobre sua origem. âO meu ser indÃgena está na minha ancestralidade, na minha espiritualidade, no meu sangue, no meu corpo, na minha alma. Não preciso estar pintada ou de cocar para me verem como indÃgenaâ.
Demarcar as telas e ocupar as redes sociais, transformando os dois espaços em territórios de atuação polÃtica, fazem parte da estratégia do movimento indÃgena. Não é a primeira vez, por exemplo, que Daniel Munduruku troca a solidão da escrita de seus livros pela telinha. Antes de participar como um dos roteiristas do especial âFalas da Terraâ, ele atuou na novela âTerra e Paixãoâ, protagonizando o personagem Jurecê.
Referindo-se a uma das frases dita por Krenak, durante as conversas que antecederam à gravação do especial, a diretora artÃstica do programa, Antonia Prado, chama atenção para o fato de que os indÃgenas não declararam guerra, ainda assim estão morrendo, fruto de uma aniquilação lenta e gradual que extermina essa população. Os números confirmam essa tese. Estima-se que, na época da chegada dos colonizadores europeus ao paÃs, fossem mais de mil povos indÃgenas. Atualmente, segundo o Censo Demográfico de 2022, são 266 povos indÃgenas, falantes de mais de 150 lÃnguas diferentes.
Munduruku analisa que o especial é um âmanifesto do pertencimento dos povos indÃgenas dentro de uma sociedade tão difÃcil, preconceituosa, excludente e equivocada sobre este pertencimentoâ. Ele espera que a exibição do especial âaumente a adesão ao modo de ser indÃgena, que não é um modo excludente, e sim inclusivoâ.
A decisão do governo brasileiro de pedir desculpas aos indÃgenas Krenak e Guarani Kaiowá pelas perseguições na ditadura militar com foi decidido é vista com ressalvas por Daniel Munduruku: âPedir desculpa não é o suficiente. Pedir desculpa é o primeiro passo para reconhecer que os indÃgenas fazem parte e sempre fizeram parte do Brasil. à preciso reparar o erro e essa reparação passa pela demarcação das terras indÃgenasâ.
