Atenção, este texto contém spoiler. Em um esforço de reportagem, o #Colabora conseguiu identificar e divulga agora, em primeira mão, a relação de oito dos dez paÃses que vão liderar o quadro de medalhas na OlimpÃada de Paris, em 2024. São eles: Estados Unidos, China, Rússia, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Austrália. Existe uma chance grande e concreta de que Japão e Coreia do Sul completem a lista dos dez mais. Nossa bola de cristal também mostra que os EUA e a China seguirão disputando o primeiro lugar e que a França, paÃs sede, terá mais medalhas do que teve em 2021.
Obviamente, não houve nenhum esforço de reportagem, bola de cristal e nem dá para considerar essa informação como spoiler. Basta observar as últimas dez edições dos Jogos OlÃmpicos para confirmar que esse grupo de paÃses está sempre na parte mais alta do pódio, quem mais ganha o ouro olÃmpico. Mas, afinal, o que une essas nações? O que as faz brilhar tanto? A resposta é simples: dinheiro.
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Este ano, em Tóquio, não foi diferente. Das 1.080 medalhas de ouro, prata ou bronze que foram disputadas, nada menos do que 644 ou 59,62% ficaram com os 15 paÃses mais ricos do mundo. O PIB (Produto Interno Bruto) segue sendo o principal indicador de sucesso na maior competição esportiva do planeta. Dos 220 paÃses que mandaram representantes para o Japão, apenas 93 receberam alguma medalha. Os outros 127 precisam continuar acreditando na máxima do Barão de Coubertin, de que o importante mesmo é competir. Só os cinco mais ricos do mundo (EUA, China, Japão, Alemanha e Reino Unido) ficaram com 33,42% do total de medalhas e com 40% das medalhas de ouro.
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Veja o que já enviamosNo artigo âGlobalization, Inequality and Olympic Sports Successesâ, apresentado no Congresso Pré-OlÃmpico em Tessalônica, na Grécia, Maarten van Bottenburg e Nico Wilterdink, da Universidade de Amsterdã, concluem que o processo de globalização contribuiu para reforçar a desigualdade na distribuição de medalhas, com uma clara supremacia dos mais ricos.  Os autores, que analisaram o perÃodo de 1952 a 2000, atestam que 10% dos paÃses participantes ficam sempre com mais de 50% das medalhas. Quando o Ãndice analisado chega a 20%, o volume de medalhas ultrapassa os 80%. A tese de Bottenburg e Wilterdink se confirmou em 2016: 21 paÃses (10%) ficaram com 685 medalhas (70%) e 42 paÃses (20%) receberam 866 premiações (89%) de um total de 974. Desta vez, em Tóquio, 22 paÃses (10%) ficaram 776 medalhas (71,85%) e 44 paÃses (20%) receberam 934 premiações (86,48%) de um total de 1080.
As delegações sem medalha também vêm crescendo â numericamente e percentualmente â ao longo do tempo: 22 (37%), em 1948; 26 (38%), em 1952;118 (60%), em 1996, e 113 (59%), em 2000. Este ano, os 127 zero medalha representaram 57,72% do total de participantes. Um percentual superior aos 50% se mantêm desde 1964.
No artigo âOlympic Participation and Performance since 1896â, Gerard Kuper e Elmer Sterken, da Universidade de Gronigen, na Holanda, também concluÃram que o PIB absoluto e o PIB per capita de um paÃs são os maiores fatores de sucesso nas OlimpÃadas. Em segundo lugar, estaria o tamanho da população, partindo da premissa que os talentos estão distribuÃdos igualmente pelo mundo. Os britânicos Mick Green e Bem Oakley, no texto âElite sport development systems and playing to win: uniformity and diversity in international approachesâ, publicado na revista Leisure Studies, citam que, além da economia e do tamanho da população, também é importante um plano estratégico de investimento em esportes de alta performance como fator de sucesso.
Como em toda a regra, também existem as exceções. A Ãndia talvez seja o exemplo mais gritante. Com a sexta maior economia do mundo e a segunda maior população, a delegação da Ãndia ficou apenas com o 48° lugar na competição, com 1 ouro, 2 pratas e 4 bronzes. O paÃs do crÃquete, definitivamente, não prioriza as OlimpÃadas. Exatamente oposto de Cuba, que é um exemplo à parte. Com uma economia modesta e uma população menor do que a do Estado do Rio de Janeiro, os cubanos sempre investem e se destacam nos Jogos OlÃmpicos, chegando a ficar entre os dez primeiros nas OlimpÃadas de 1992, 1996 e 2000. Em Tóquio eles terminaram em 14º lugar.
Se a comparação entre o quadro de medalhas e o ranking mundial do PIB é mais ou menos óbvia, o mesmo não acontece quando se busca uma relação entre os vencedores olÃmpicos e os paÃses com os melhores Ãndices de Desenvolvimento Humano (IDH). Nações que tradicionalmente aparecem bem colocadas nestes rankings, como os paÃses escandinavos, não são exatamente um destaque no pódio. Suécia e Dinamarca ficaram, respectivamente, em 23º e 25º lugares. Enquanto a Noruega, campeã mundial do IDH, terminou em 20º, uma posição muito melhor do que o 74º dos Jogos do Rio.
No lado oposto, vencedores olÃmpicos como a China e a Rússia, que ficaram com o 2° e o 5° lugares, têm um desempenho medÃocre no desenvolvimento humano e no progresso social. O mesmo vale para o Quênia, que teve seu hino tocado quatro vezes nos últimos 15 dias. A última delas com o bi olÃmpico na maratona. No entanto, o seu IDH patina em um lamentável 145º lugar.
E o Brasil? Seguindo o mesmo raciocÃnio, o Brasil tem a 12ª maior economia do mundo. Coincidentemente, o mesmo lugar que obteve nos Jogos de Tóquio. Tem a sexta maior população, o que ajuda muito. Cerca de 80% dos atletas brasileiros que estiveram no Japão foram beneficiados pelo programa Bolsa Atleta, criado em 2005, no Governo Lula. Os valores variam entre R$ 900 e R$ 15 mil. Sendo que este último é apenas para os que alcançam as primeiras colocações. O programa, no entanto, vive o seu pior momento, a começar pelo fato de que não tem o valor reajustado desde 2010. Além disso, o edital do Bolsa Atleta em 2020 não foi lançado e vários atletas ficaram sem receber por alguns meses.
No ranking do IDH, estamos abaixo de paÃses como Cuba, Uruguai e Irã. Já no ranking dos mortos pela covid-19 estamos entre os cinco primeiros. Nos últimos anos, apesar dos pesares, investimos R$ 40 bilhões para sediar a OlimpÃada do Rio e cerca de R$ 5 bilhões na formação de atletas. Será esse o único ou o melhor caminho? Nosso sonho de consumo envolve mais medalhas ou mais saneamento básico? Por que não as duas coisas?

Ãustria ganhou 1 medalha de ouro. Agora, compare o IDH da Ãustria e do Brasil. Moral da história: olimpÃadas não mostra nada a respeito das condições de vida do povo de um paÃs. à provável que Brasil esteja investindo dinheiro em esportes tirando de outras áreas mais importantes.