O Censo Demográfico Brasileiro realizado em 2022 demonstrou, em números, uma realidade que há tempos já se percebe no cotidiano do paÃs: mais da metade (55,5%) da população brasileira se identifica como preta ou parda. Esse cenário é uma excelente oportunidade para pensar sobre o racismo estrutural, o que está longe de ser um tema inédito, mas é sempre muito importante, porque acaba sendo negligenciado.
Leu essa? CrÃtica ao racismo e a todos os preconceitos pela voz da criadora da Igreja Lesbiteriana
Vale lembrar que o filósofo, historiador e  professor de História e Ciência PolÃtica na Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, Ãfrica do Sul, o  camaronês Achille Mbembe, tornou-se um dos mais proeminentes pensadores trazendo à tona a ampliação do debate sobre a construção do sistema escravista e colonial. Mbeme reflete sobre o racismo linguÃstico, que âestá presente na estrutura das coisasâ. E a lÃngua é uma parte dessa estrutura.
Aqui no Brasil, pesquisas comprovam a influência das lÃnguas africanas no léxico brasileiro. Mas estudiosos do tema apontam que faltam dados empÃricos que poderiam auxiliar o mapeamento do fenômeno em outros nÃveis da gramática.
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Veja o que já enviamosNo livro âComo falam os brasileirosâ, a autora Yonne de Freitas Leite (falecida em 2014), respeitada como pensadora fundamental sobre o campo de lÃnguas indÃgenas do Brasil, explica as variedades da lÃngua portuguesa. Ela pontua como esses processos ocorrem, do ponto de vista sociolinguÃstico:
âO uso de uma lÃngua envolve aspectos ideológicos e o preconceito que existe em relação a determinadas variedades é equivalente a outros, como social, religioso e o racial. O domÃnio de um português padrão é privilégio reservado a poucos membros de uma elite econômico-social que, assim, assegura seu poder e sua primazia polÃtico-culturalâ, defende a autora.
à exatamente esse âdomÃnio do português padrãoâ que exclui a diversidade da lÃngua, já que socialmente o âfalar erradoâ passa a receber um julgamento, também padrão. A autora diz, no entanto, que é preciso considerar os âfalares brasileirosâ. âà de se esperar (…) que na extensão do território brasileiro haja uma unidade linguÃstica, a lÃngua portuguesa, mas também diversidade, os falares brasileiros.â
A professora de LÃngua Portuguesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Danielle Kely Gomes, lembra que é importante fazer um resgate histórico da construção da lÃngua portuguesa, e de como a raça atravessa o idioma, a partir do processo de escravização e o contato de lÃnguas com o colonizador, que podem ter colaborado para marcações fonológicas do português do Brasil.
Danielle Gomes afrma, ainda, que é preciso âlocalizar essa discussão sobre racismo linguÃsticoâ:
âEssa discussão também é sobre a maneira como os contatos linguÃsticos intensos que ocorreram no perÃodo colonial-imperial acabam por influenciar, por moldar a gramática daquilo que a gente chama de português brasileiro.â
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e História (IBGE) disponÃveis no site da instituição, mostram que, no continente americano, o Brasil foi o paÃs que importou mais escravos africanos. Entre os séculos XVI e meados do XIX, vieram cerca de quatro milhões de homens, mulheres e crianças, o equivalente a mais de um terço de todo comércio negreiro. Não é difÃcil de supor que, nesse processo, aconteceu o contato dos escravizados com a lÃngua portuguesa.
âà impossÃvel que não tenha havido alguma influência dessas lÃnguas africanas faladas por esses escravizados que chegaram aqui ao paÃs desde o final do século XVI até a segunda metade do século XIX. Mas temos uma grande dificuldade para  afirmar e provar que esse atravessamento existiu:  a ausência de fontesâ, disse a professora Danielle Gomes.
A ausência de fontes para auxiliar a pesquisa é uma das principais crÃticas que os estudiosos fazem com relação ao assunto.
âSabemos muito bem que essas populações de pessoas escravizadas eram falantes das mais variadas lÃnguas, assim como eram subjugadas à s mais terrÃveis situações de sobrevivência. Eram pessoas que tinham de sobreviver, sobretudo. Por isso não se consegue resgatar registros escritos das manifestações linguÃsticas desse sujeitos. Existe o racismo linguÃstico, sim, é notório, mas precisamos de dados empÃricos para atestarâ, pontua a professora.
Teoria do Povo Banto
A palavra âbantoâ, também grafada como âbantuâ, significa seres humanos, pessoas, homens, povo. Trata-se do grupo etnolinguÃstico de povos que habitam a Ãfrica subsaariana e compartilham uma lÃngua materna da famÃlia banta. Os bantos são, possivelmente, originários dos Camarões e do sudeste da Nigéria. E têm, em sua história, um triste recorde: foram os povos mais escravizados e traficados para o continente americano.
Há uma teoria popular, bastante preconceituosa, emblema de racismo estrutural, e que não é considerada verdadeira pelos especialistas, que atribui à estrutura fonética de lÃnguas africanas, como a do povo Banto, onde não há o âLâ , a troca que algumas pessoas fazem pelo âRâ (pobrema em vez de problema, por exemplo). Segundo essa teoria, as pessoas pretas e pobres fazem essa confusão linguÃstica por causa de uma herança das lÃnguas africanas durante o processo de escravização. A professora Danielle discorda da teoria e salienta que as trocas não são exclusivas,  nem mesmo originadas por pessoas pretas.
âEncontramos essa alternância em outros momentos do passado, no português, principalmente na passagem do latim. A gente tem uma influência de contato entre lÃnguas.â As pessoas que pronunciam as palavras fazendo essas trocas são mais alvo de preconceito por pertencerem a grupos econômicos mais basilares da pirâmide e com baixa escolarização e, em sua maioria, pretas; já para as trocas do âIâ pelo LH â também presente na fala de pessoas pobres, com baixa escolarização e, majoritariamente, negras â, por exemplo, chama-se fenômeno palatal, como em âtrabaioâ, no lugar de âtrabalho.
O que houve, na realidade, lembra a professora, foi um grande prejuÃzo para as pessoas que falavam a lÃngua africana nos tempos de escravidão, porque elas foram sendo silenciadas num ambiente de muita violência, tanto fÃsica quanto simbólica.
âEssas populações, progressivamente, foram sendo silenciadas nas suas lÃnguas de origem para que o português fosse ganhando cada vez mais espaço. Quando eles eram traficados e transportados da Europa para cá, havia uma polÃtica linguÃstica de mistura de falantes de lÃnguas diferentes dentro do mesmo espaço, para que eles não pudessem se entender. Nesse processo de colocar falantes de lÃnguas à s vezes totalmente distintas confinados dentro de um mesmo espaço, a única lÃngua em comum que eles poderiam encontrar para se comunicar era o portuguêsâ, observa.
Essa violência resultou no fato de que, no Brasil, 90% da população falam a lÃngua portuguesa:
âNão é uma lÃngua única, temos outras lÃnguas faladas pelo Brasil. Mas é a lÃngua majoritária. Essa proporção não veio por acaso; é fruto de um processo de violência fÃsica e simbólica com relação a essas populações escravizadas e à s populações nativas que aqui se encontravamâ, reflete a professora e sociolinguista.
Nesse sentido, os erros de concordância, que também entram na categoria dos estigmas, são um fenômeno linguÃstico, lembra Danielle Gomes.
âà possÃvel mapear o fenômeno variável da concordância, seja verbal ou nominal – âeles comeâ,  âos meninoâ.  O professor Dante Lucchesi coordena um projeto na Universidade Federal da Bahia, mostrando que a variação nessa marcação da concordância, seja verbal ou nominal, é um traço tÃpico do português brasileiro. O trabalho dele é mostrar que essa variação na marcação de concordância verbal é estigmatizada no Brasil porque foi um fenômeno linguÃstico que surgiu no processo de aquisição incompleta por esses indivÃduos que falavam lÃnguas africanas. E esse processo foi sendo transmitido à s gerações seguintes ao contato inicialâ, disse Danielle.
Trata-se, ao fim e ao cabo, de uma faceta do racismo linguÃstico que atravessa a sociedade brasileira. Danielle lembra que é preciso ter um olhar voltado para esses indivÃduos que sofrem estigmatização, não só na forma de falar.
âSão essas pessoas que são herdeiras desse processo de estigmatização, de exploração, de subjugamento. A estigmatização é um subproduto de um processo de estratificação na base da nossa pirâmide socioeconômica.â
Como se sabe, a estigmatização normalmente tem como alvo as pessoas do pé da pirâmide social, que têm um acesso variável à escolarização.
âà claro que, principalmente nesses primeiros vinte anos do século XXI, não se pode deixar de reconhecer que houve uma ampliação do acesso, por exemplo, ao ensino superior. Seja por meio do aumento de vagas nas instituições públicas ou nas instituições privadas. Mas estamos garantindo o acesso a todos os extratos da sociedade brasileira a esse mundo de letramento? A estigmatização é muito mais severa na população afro-brasileira, porque é o grupo que já é alvo de outros preconceitosâ, concluiu Danielle.
Sobre normas e padrões
A desigualdade social também se manifesta na construção de normas linguÃsticas. Diz-se que normal culta foi baseada em um grupo de indivÃduos com marcadores sociais e raciais. Já a norma padrão, segundo a professora associada do Departamento de LinguÃstica e Filologia da UFRJ, Adriana Leitão Martins, âé uma abstraçãoâ.
âEntendemos por norma culta os usos linguÃsticos da população letrada e urbana. E, por ser letrada e urbana, é um grupo socioeconômico, que historicamente esteve no controle das coisas. As variedades linguÃsticas desse grupo, que é urbano, letrado e é branco, é o que se considera norma cultaâ, indica a professora Danielle Gomes.
Já a norma padrão, segundo a professora associada do Departamento de LinguÃstica e Filologia da UFRJ, Adriana Leitão Martins, âé uma abstraçãoâ. Para a professora Martins, a norma padrão é o que está registrada nas gramáticas, e a norma culta não é homogênea e pode ser diferente em diversos cantos do paÃs. Na contramão das imposições elitistas sobre a lÃngua, há a norma coloquial, como é conhecida, ou apenas normal, em referência ao âcomportamento linguÃsticoâ, disse ela.
Quanto à diferença entre o português europeu e o português brasileiro, as especialistas são unânimes em afirmar que sã cada lÃngua tem suas respectivas variações:
âà natural que as lÃnguas tenham fenômeno de variação,  e todas as lÃnguas passam por mudanças. Há uma ideia de que o português do Brasil mudou e,  por isso, é diferente, mas não é por aÃ. A lÃngua que chegou aqui no século XVI, trazida pelos portugueses é reflexo do que havia lá. Ou seja, há diversas estruturas que se mantiveram no Brasil, enquanto as que ficaram em Portugal seguiram em outra direção, no curso natural tanto aqui quanto láâ, disse a professora Martins.
Fato é que o contato entre as lÃnguas do colonizador e dos povos escravizados e até mesmo indÃgenas produziu uma diversidade linguÃstica.
 âà impossÃvel imaginar, por exemplo, que a lÃngua portuguesa no Brasil não vai ter marcas das lÃnguas indÃgenas que conviviam com os colonizadores no momento em que ela foi trazida para cá. As mudanças são resultantes tanto de pressões internas quanto de pressões externas. à assim que a linguÃstica entende. E existem fatores intralinguÃsticos e fatores extralinguÃsticos que atuam em conjunto para determinadas mudançasâ, disse ela.
