Durante debate sobre comunicação e diversidade promovido pelo #Colabora, o jornalista Caê Vasconcelos, homem trans, revelou que prepara, ao lado de amigos, o lançamento de uma agência de jornalismo de e para pessoas trans. “Quem melhor do que nós, pessoas trans, para falar de nós”, disse Caê, de 30 anos, que trabalhou na Ponte Jornalismo e agora atua na Agência Mural de Jornalismo das Periferias. “Eu escolhi fazer do meu jornalismo uma luta pelos direitos humanos e para as pessoas LGBT+”, acrescentou.
Leu essa? Fugindo da transfobia: a história de uma mulher trans brasileira que conseguiu asilo na Itália
O encontro com o tema ‘Comunicação e diversidade: juntas por um mundo mais inclusivo’ encerrou o ciclo de debates promovido pelo #Colabora para celebrar seu sexto aniversário e teve a participação também da comunicadora indÃgena Samela Sateré Mawé, apresentadora do Canal Reload, estudante de Biologia na Universidade do Estado do Amazonas e uma das representantes dos povos indÃgenas na COP26. O evento virtual #Colabora 6 anos, 6 debates fundamentais reuniu convidados para conversas sobre saúde, clima, economia verde, gênero, meio ambiente e diversidade.
Caê Vasconcelos contou que se descobriu jornalista durante as chamadas Jornadas de Junho, em 2013, quando os protestos, que começaram contra o aumento das tarifas de ônibus, se multiplicaram para várias outras pautas. “Eu via uma coisa nas ruas e via outra na mÃdia. Foi quando eu comecei a querer mostrar o meu olhar sobre os fatos”, disse o jornalista, formado em 2017 pelo Centro Universitário FIAM-FAAM, na capital paulista.
Seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) foi o livro-reportagem “Transresistência: Pessoas trans no mercado de trabalho” – o trabalho ajudou na sua transição, no seu renascimento como Caê. “Personagens do livro me agradeceram por eu não ter sido transfóbico. As pessoas trans estão acostumadas ao tratamento transfóbico por parte da mÃdia. Os repórteres reproduzem a transfobia”, afirmou Caê Vasconcelos no debate, mediado pelo jornalista Yuri Fernandes, editor no #Colabora. O livro vai ser relançado, com mais histórias, na Livraria Martins Fontes, no dia da visibilidade trans, 29 de janeiro.
“Queria trabalhar onde eu pudesse desenvolver pautas LGBT”, lembrou Caê que participou de entrevista com a vereadora Erika Hilton – negra, trans e a mulher mais votada do Brasil nas eleições municipais – no programa Roda Viva. “Foi um momento histórico: três pessoas trans na bancada do Roda Viva”.
Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosEssa trajetória de abrir espaços para pautas trans e LGBT+ foi fortalecendo a ideia da agência de jornalismo que vai ser lançado no ano que vem. “Gosto muito do exemplo do Alma Preta, que é uma site feito por pessoas negras para pessoas negras. Por que então não ter uma mÃdia feita por pessoas trans para pessoas trans?”, argumentou Caê, também ativo nas redes sociais como twitter e instagram. “Nós temos que ocupar os espaços para que a nossa voz seja ouvida. A gente recebe muito ataque de ódio mas já aprendi que devemos simplesmente ignorar”, desabafou Caê Vasconcelos.
Ataques semelhantes pelas redes sociais também fazem parte da rotina da jovem lÃder indÃgena Samela Sateré Mawé, que tem 35 mil seguidores no Instagram. “Nós sofremos ataques porque eles não querem que a voz dos indÃgenas seja ouvida. Faz parte de uma tentativa de desconstrução da identidade indÃgena pelos não indÃgenas que querem ditar como nós devemos ser. IndÃgena não pode usar internet, não pode ter celular, não pode ser ativo nas redes sociais. Mas nós vamos usar esses espaços para fortalecer e defender a nossa cultura, a nossa identidade indÃgena”, disse Samela, também apresentadora do Canal Reload.
A indÃgena de 25 anos, da comunidade Sateré Mawé, em Manaus, foi uma das 40 lideranças que participaram da COP26. “Nossa pauta prioritária foi a defesa da demarcação de nossos territórios. Proteger os territórios indÃgenas é proteger o ambiente porque somos nós quem mais cuidamos da terra, da biodiversidade, da natureza. Nos 13% do território brasileiro que são terras indÃgenas, são onde a natureza está mais preservadaâ, destacou. “Foi muito importante que os lÃderes das grandes nações ouvissem a nossa voz, a voz dos indÃgenas, e ouvissem que suas decisões afetam nossas vidas, nossas terras, nossas crianças”, acrescentou.
Para Samela, as mÃdias independentes e as redes sociais são fundamentais para que as pautas indÃgenas sejam compartilhadas entre as próprias etnias espalhadas pelo paÃs e também para os não indÃgenas. “Muitas denúncias de ataques de garimpeiros, grileiros e madeireiros foram feitas através da internet pelos jovens comunicadores indÃgenas e outras lideranças. Nós usamos as mÃdias sociais como um instrumento de luta porque a grande mÃdia, muitas vezes, ignora as pautas indÃgenas”, afirmou a jovem universitária, que está concluindo o curso de Biologia em Manaus.
Ela lembra que o olhar colonizador do homem branco tem sido reforçado pelos séculos através dos estereótipos sobre os indÃgenas reforçado desde a escola de ensino fundamental. Esses estereótipos permanecem e reforçam preconceitos que estão na mÃdia. “à comum ver termos como Ãndio e tribo que nada tem a ver com a nossa identidade. Por isso, precisamos de comunicadores indÃgenas que façam a nossa voz se espalhar e ser ouvida. Não precisamos que falem por nós”, disse Samela Sateré Mawé no debate promovido pelo #Colabora.
