Dizem pelos corredores do Vaticano que a periferia chegou ao centro do mundo. A frase se refere ao sÃnodo da Amazônia que termina neste domingo, dia 27, após a divulgação do relatório que está sendo votado com as novas diretrizes da igreja católica. A ideia de trazer um sÃnodo indigenista para dentro do Vaticano não agradou muita gente: desde a ala ultraconservadora da igreja aos fanáticos católicos contrários à ideia de uma evangelização enculturada. Desde o inÃcio tem se visto atos de racismo e intolerância religiosa contra povos indÃgenas, afrodescendentes e camponeses.
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Veja o que já enviamosNa segunda passada, dia 21, porém, as manifestações de ódio contra os povos da Amazônia chegaram ao ápice, tanto foi necessário o envolvimento da polÃcia. Um grupo de ativistas ultraconservadores roubou pequenas estátuas de uma mulher grávida que simboliza a Mãe Terra e as jogou no rio Tibre. A ação foi filmada e postada em um canal do Youtube. As imagens estavam expostas na igreja Santa Maria, em Traspontina, a poucos passos do Vaticano. A igreja é um dos locais que hospeda a âAmazônia: Casa Comumâ, um evento que acontece em paralelo ao SÃnodo e, consequentemente, abriga objetos, fotos e imagens da cultura indÃgena.
[g1_quote author_name=”Papa Francisco” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Que diferença existe entre as penas na cabeça e o tricórnio (um tipo de chapéu usado por membros do clero)
[/g1_quote]O grupo voltou à igreja e tentou roubar novamente outros objetos, mas o ato foi flagrado pelo padre Antonio Soffiantini, que conseguiu recuperar os objetos. Soffiantini, ao perguntar por que estavam fazendo aquilo, um deles respondeu, em inglês: âPorque ela é perigosaâ. A polÃcia foi acionada e a ação, denunciada. Desde então, todos os dias a igreja passou a ser alvo de manifestações coletivas e individuais de ativistas ultraconservadores. Na manhã de quarta-feira, 23, um deles ficou 4 horas ajoelhado em frente ao altar. Em outro momento, o grupo praticamente impediu que a missa foi realizada, pois rezavam mais alto que padre. âNão sabemos se é o mesmo grupo do rouboâ, disse o padre Soffiantini.
O que se sabe é que alguns do grupo acreditam na suposta aparição de Maria, sob o tÃtulo de “Rosa MÃstica – Nossa Senhora de Argyle”, que teria acontecido em 2017, na Igreja Católica St. Mark, em Argyle, no Texas. Fato que teria sido negado pelo bispo Michael Olson, da diocese de Fort Worth. A informação consta em um dos cartazes usados por eles durante uma das manifestações. O cartaz que traz a escrita âO SÃnodo da Amazônia é heréticoâ, também divulga o site https://www.ourladymysticalroseofargyle.com/ para maiores informações. O site foi registrado no domÃnio Wix.com, o que não dá muita possibilidade de saber quem está por traz dele.
As manifestações de intolerância surgiram até na missa de abertura do SÃnodo e quem a tornou pública foi o próprio Papa Francisco, que no dia seguinte, durante a abertura dos trabalhos na assembleia, lamentou ter ouvido alguém fazer um comentário de mau gosto que ele não gostou sobre um representante dos povos indÃgenas que usava um cocar e convidou os bispos a refletir: âQue diferença existe entre as penas na cabeça e o tricórnio (um tipo de chapéu usado por membros do clero).
Certa parte da imprensa trabalha como porta-voz desses ultraconservadores. Durante as primeiras coletivas do SÃnodo eles estavam mais preocupados em saber sobre o infanticÃdio que seria praticado por indÃgenas do que sobre os temas do evento. Para a socióloga Marcia de Oliveira, uma das peritas no SÃnodo que estava presente em uma das coletivas e que foi questionada sobre o tema, âessa é uma forma de desqualificar os povos indÃgenasâ. Segundo ela âde um modo geral, a imprensa está acompanhando com muito respeito, mas há uma parte dela que é etnocêntrica. O que incomoda essa parte da imprensa etnocêntrica é o fato de a Amazônia estar aqui no centro das discussõesâ. Agora mesmo a ação do roubo e destruição das estátuas foi apoiada por uma parte da imprensa conservadora que noticiou como “um grupo de bravos católicos limpou o local sagrado das várias estátuas de Pachamamaâ.
Segundo o indÃgena José Correia ou Tunamao, representante dos povos Jaminawa, do Acre, âo europeu ainda tem uma visão muito preconceituosa em relação aos Ãndios, a gente percebe quando caminha pelas ruas e as pessoas nos olham de modo estranho. Todo mundo tem o direito de não concordar (com a cultura indÃgena), mas precisamos respeitar as opiniões do outrosâ. João Newman, cardeal há pouco tempo canonizado, em sua obra Essay on the Development of Christian Doctrine, publicada em 1878, a propósito da adoção por parte da Igreja de elementos pagãos, escrevia que âo uso de certos santos, enfeitados com ramos de árvores; incenso, velas, procissões, bênçãos dos campos são todos de origem pagã e santificados pela sua adoção na Igrejaâ.
Padre Massimo Ramondo, missionário Comboniano, relata duas situações de racismo, em uma delas ele estava presente. âEstávamos na praça São Pedro, do lado de fora das barras que delimitam o espaço. Um canal de televisão estava entrevistando alguns representantes de povos brasileiros. O jornalista pediu para abrirem a faixa com a escrita âDemarcação Já!â, gesto que irritou a polÃcia. Imediatamente pediram a documentação de todo mundo, eles começaram a falar alto e os brasileiros sem entender nada. Tentei explicar o que estava acontecendo, o significado daquela faixa, mas nada adiantava, para eles havÃamos cometido uma infração ao abrir aquela faixaâ, relata o bispo.
[g1_quote author_name=”Dom Zenildo Luiz Pereira” author_description=”Bispo de Borba” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Estes acontecimentos têm sido pautados pela intolerância. São atitudes que não têm nada a ver com a vida da igreja, ainda que envolvam membros do clero, mas estão absolutamente fora daquilo que é a perspectiva global da igreja
[/g1_quote]Dia 19 passado, na praça São Giovanni, aconteceu uma grande manifestação da Lega Norte, o partido de extrema direita ligado a Matteo Salvini que até dois meses atrás fazia parte do governo. Por conta do evento, vários âleguistasâ circulavam pela cidade carregando bandeiras. Até que encontraram com um grupo de povos indÃgenas que vestia suas indumentárias e carregava no corpo suas pinturas. Neste momento, os brasileiros viram nos rostos dos italianos expressões de desprezo e deboche. âEles não entendiam as palavras que os italianos pronunciavam por não conhecerem a lÃngua, mas das expressões faciais, compreenderam perfeitamente o que estavam pensando em relação a elesâ, conta o Padre Massimo Ramondo.
âEstes acontecimentos têm sido pautados pela intolerânciaâ, disse Dom Zenildo Luiz Pereira da Silva, bispo de Borba. âSão atitudes que não têm nada a ver com a vida da igreja, ainda que envolvam membros do clero, mas estão absolutamente fora daquilo que é a perspectiva global da igreja.â Para o Bispo, âo mundo está atravessando um momento sombrio, o que se percebe com democracias de algumas nações do mundo, de algumas recorrências à modelos impositivos, eu tenho receio que estejamos no inÃcio de uma constatação da humanidade que está adoecidaâ. Para ele essa dificuldade de acolhida, de ouvir o outro é o reflexo da humanidade que está perdendo a capacidade de dialogar. âà a tal sociedade lÃquida.â, finaliza.
