Poesias que rompem barreiras e aproximam pessoas, lÃnguas e culturas. O Slam do Corpo, primeiro projeto de batalhas de poesia no Brasil com a participação de poetas surdos e ouvintes, completa dez anos em 2024. A iniciativa surgiu a partir do âCorposinalizante”, um grupo de trabalho do Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, e da vontade de poetas surdos de externalizar sentimentos e urgências de sua cultura, invisibilizada durante grande parte da história brasileira.
O que a pessoa surda quer é liberdade de existência, empoderamento, poder viver de sua cultura e comunicação, para que possa exercer sua existência na sociedade
Diferente das batalhas de poesia tradicionais, no Slam do Corpo duas pessoas são responsáveis pela produção da poesia, feita ao mesmo tempo em português e na LÃngua Brasileira de Sinais (Libras). Dessa forma ocorre o chamado âbeijo de lÃnguaâ, termo usado para descrever o encontro entre as culturas de surdos e ouvintes.
Outro caráter particular do Slam do Corpo é o engajamento social e polÃtico, inerente à arte e aos slams, neste caso, principalmente em defesa dos direitos da comunidade surda. âO que a pessoa surda quer é liberdade de existência, empoderamento, poder viver de sua cultura e comunicação, para que possa exercer sua existência na sociedadeâ, conta o poeta e artista Leo Castilho, surdo desde o nascimento e um dos criadores do Slam.
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Para Leo, a arte é uma forma de resistência e de lutar com a invisibilidade histórica da cultura surda no Brasil. Desde os 10 anos de idade, ele começou a se envolver com o teatro e, ao longo de sua trajetória como âcorpo no mundoâ, já foi ator, modelo, dançarino e músico. Assim, em 2003, começou a fazer parte de um projeto para surdos do MAM e a ocupar diferentes espaços culturais e polÃticos, inclusive com a participação em diversas manifestações e intervenções urbanas. âNós percebemos que essa intervenção na cidade precisava de uma linguagem poética, um manifesto artÃstico e poéticoâ, recorda o artista. Era o primeiro passo para a criação do Corposinalizante e do Slam do Corpo.
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Veja o que já enviamosCom o objetivo de celebrar a primeira década de existência do movimento, o Slam do Corpo está promovendo uma série de encontros em cinco cidades paulistas, com recursos do Programa de Ação Cultural (Proac) do governo de São Paulo. O primeiro evento foi realizado no sábado, 6 de abril, em um bar da Praça Exaltação da Santa Cruz, no centro de Ubatuba, no litoral paulista. Estão previstas batalhas de poesias com surdos e ouvintes também em Cananéia, Piracicaba, Campos do Jordão e na capital, ainda sem data e local definidos.
Integração entre lÃnguas e culturas
A intenção de intervir na cidade através da poesia surgiu a partir de influência do movimento zapatista e da atriz e poeta Roberta Estrela DâAlva, uma das principais responsáveis por introduzir a prática de slams no Brasil, o projeto começou a ganhar corpo. Leo também menciona a importância de duas artistas e educadoras: Joana Zatz e Cibele Lucena, ambas foram suas professoras no Museu da Arte Moderna e pesquisam sobre o tema.
à um texto construÃdo por duas culturas, duas pessoas que se encontraram e trocaram entre si. à um processo muito rico, exatamente porque a gramática é diferente, o sentido é outro e a escolha da palavra é feita pelos dois
Entender o contexto das pessoas é uma das chaves para produzir esse tipo de poesias, descreve Erika Mota, intérprete, poeta e dupla de Leo nas batalhas do Slam do Corpo. âPrecisamos estar inseridas nesse contexto e universo que queremos traduzir. O Slam vem com essa proposta de promover encontros, daà traz suas urgências que são os motes das poesiasâ, explica ela. A partir disso surgem os temas que abordam a marginalização e invisibilidade das periferias e minorias sociais.
Erika usa a expressão âbeijo de lÃnguasâ para sintetizar a ideia do encontro entre as pessoas poetas surdas e ouvintes. O termo foi usado originalmente pela educadora Cibele Lucena e considera as diferenças entre a Libras e o Português, duas lÃnguas com gramáticas e estruturas de significado e sentido distintas. âà um texto construÃdo por duas culturas, duas pessoas que se encontraram e trocaram entre si. à um processo muito rico, exatamente porque a gramática é diferente, o sentido é outro e a escolha da palavra é feita pelos doisâ, complementa a poeta.
Leo Castilho destaca que a metáfora do âbeijoâ busca inspirar o olhar para detalhes da cultura da outra pessoa. âNa hora que o beijo acaba, que tem esse distanciamento, você não rouba a lÃngua, você continua sendo você no seu espaço. Sem roubar o espaço da individualidade e das culturasâ, explica o artista. Ainda de acordo com ele, essa é uma das formas de enfrentar preconceitos e estereótipos.
A LÃngua Brasileira de Sinais (Libras) só foi reconhecida oficialmente em 2002, ou seja, durante muitos anos a forma das pessoas surdas se comunicarem foi marginalizada e até combatida. âEstamos falando do sofrimento histórico que as pessoas surdas passaram. Até o final dos anos 80, onde eu estudei, existiam relatos de pessoas que eram amarradas na sala de aula para não sinalizar, para oralizarâ, conta Leo.
Diferenças que aproximam
Ao comentar sobre o primeiro evento dos 10 anos do Slam do Corpo, Erika explica que a utilização de espaços já reconhecidos como palcos de outros slams ajuda na divulgação e na participação do público. Sobre isso, Leo enfatiza a importância de levar a iniciativa para outras cidades e lugares de São Paulo.
Intérprete de Libras do Slam do Corpo, Claudia Ferreira foi a responsável por mediar a entrevista com Leo Castilho. No entanto, ela ressalta a diferença entre a tradução cotidiana e uma interpretação no espaço dos slams. âNão dá para você como intérprete, não ter uma escuta ativa com a pessoa poeta que vai estar ali, nem com a dupla que vai estar com vocêâ. Claudia descreve esses momentos de batalha de poesia como uma junção de conhecimentos e entendimentos de lÃngua e mundo, por isso, é preciso âestar com o coração aberto para entender essa trocaâ.
Leo Castilho defende exatamente essa união entre as culturas de pessoas surdas e ouvintes como uma forma de inclusão social e polÃtica. Ele contextualiza o histórico de lutas e celebra as conquistas que já foram alcançadas. âJá teve muito manifesto, já foram criadas escolas bilÃnguesâ, pontua. Resta agora vencer outras barreiras, como a falta de incentivo à cultura surda.
Na visão de Erika, o exemplo do Slam do Corpo ter sido contemplado pelo Proac mostra a importância da acessibilidade em editais, que quase nunca possuem uma versão em Libras. Segundo Claudia, a lÃngua de sinais pode ensinar muitas lições para a sociedade, uma delas é a não demarcação do gênero, o que contribui para que cada pessoa se identifique da forma que desejar. âA lÃngua de sinais reverbera esse impacto nas pessoasâ, destaca.
