HaÌ coisa de poucos dias o Brasil se viu no meio de uma discussaÌo acalorada sobre racismo e a interseçaÌo, sempre presente, mas com frequeÌncia negada, entre esteÌtica e poliÌtica. Tudo começou quando no âBBB 21â, Rodolffo, um cantor sertanejo de GoiaÌnia, comparou o cabelo black power de JoaÌo Luiz, professor de Geografia, natural de Minas Gerais, com a peruca de uma fantasia de homem das cavernas. Disclaimer: não, o cabelo do João não é igual ao de um Neandertal.
Após discussões acaloradas dentro e fora da âcasa mais vigiada do Brasilâ, e muita pressão da internet, Tiago Leifert fez um discurso dirigido a Rodolffo. O apresentador deixou explÃcito que o cabelo de JoaÌo se relacionava menos com uma escolha esteÌtica, e muito mais com escolhas e simbologias poliÌticas: de autoaceitaçaÌo, de antirracismo e de afirmaçaÌo da beleza e das potencialidades de ser negro em uma sociedade organizada sobre bases estruturalmente racistas.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]O conceito de que hoje os negros estaÌo politizando algo que deveria ser tratado em um foro esteÌtico se assenta em uma premissa falsa, e na inversaÌo de causalidade e oÌnus: o cabelo negro sempre foi politizado, invariavelmente em uma chave negativa. O que ocorre hoje eÌ o reconhecimento desse fato e uma reaçaÌo aÌ altura
Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosEÌ um clicheÌ, mas talvez o seja por um bom motivo, citar aquela velha frase de Joaquim Nabuco: âA escravidaÌo permaneceraÌ por muito tempo como a caracteriÌstica nacional do Brasilâ. Ainda que obviamente o racismo aÌ brasileira tenha as suas especificidades e dinaÌmicas proÌprias, eÌ sempre instrutivo olhar para as formas de resisteÌncia poliÌtica que se organizaram nos Estados Unidos, um paiÌs de dimensoÌes continentais, como o nosso. E, aleÌm disso, fundado igualmente a partir de uma economia escravista.
Onde a discriminação ao cabelo é ilegal
Em 03 de julho de 2019, a CalifoÌrnia foi o primeiro estado dos EUA a criar uma proteçaÌo legal a atos discriminatoÌrios ao cabelo de estudantes e empregados negros. Foi quando o governador Gavin Newsom aprovou um projeto de lei do senado, a Senate Bill 188, tambeÌm conhecido como CROWN Act (Create a Respectful and Open Workplace for Natural Hair), uma lei que declara a discriminaçaÌo de cabelo ilegal. Segundo o texto da lei, âa ideia de profissionalismo esteve, e ainda estaÌ, intimamente ligada aÌs caracteriÌsticas e maneirismos europeus. Isso implica que aqueles que naÌo se adequam naturalmente aÌs normas euroceÌntricas devem alterar a sua apareÌncia, por vezes draÌstica e permanentemente, para serem considerados profissionaisâ.
O conceito de que hoje em dia os negros estaÌo politizando algo que deveria ser tratado em um foro meramente esteÌtico se assenta em uma premissa falsa, e em uma inversaÌo de causalidade e oÌnus: isto eÌ, o cabelo negro sempre foi politizado, invariavelmente em uma chave negativa. O que ocorre hoje eÌ o reconhecimento desse fato e uma reaçaÌo aÌ altura. Por exemplo, no seÌculo 18, as mulheres negras no estado da Luisiana chegaram a ser proibidas de usarem em puÌblico os seus penteados por conta de uma lei emitida na eÌpoca pelo governador colonial espanhol Don Esteban MiroÌ, as chamadas Tignon Laws, segundo as quais essas mulheres deveriam usar um tipo de lenço especiÌfico que escondesse os seus cabelos, um marcador de classe social bem expliÌcito, repare.
Cabelo black power e direitos civis
Outro marco legal dessa questaÌo nos EUA surgiu a partir do caso histoÌrico em que Beverly Jeanne Jenkins, na eÌpoca funcionaÌria da Blue Cross and Blue Shield, escutou de seu empregador que âjamais poderia representar a Blue Cross usando um cabelo afroâ. Jenkins processou a firma em Jenkins v. Blue Cross Mutual Hospital Insurance Inc, em um entendimento histoÌrico firmado em 1976, em decisaÌo favoraÌvel a Jenkins. Entendeu-se que os cabelos afros estariam protegidos sob o guarda-chuva legal do TiÌtulo VII da Lei dos Direitos Civis: que veda qualquer tipo de discriminaçaÌo de trabalhadores por conta de raça, sexo, religiaÌo e mesmo origem nacional.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]HaÌ uma linha de continuidade entre 1968, quando James Brown gritou âSay it loud! Iâm black and Iâm proudâ, e 2016, quando Solange Knowles cantou âDon’t touch my hairâ
[/g1_quote]Cabelo black power e as urnas
NaÌo faz tanto tempo, foi ainda em 2014, em entrevista ao canal britaÌnico Channel 4, que a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie argumentou que quando a primeira-dama Michelle Obama apareceu com o seu cabelo natural, durante as eleiçoÌes, era factiÌvel de que isso pudesse ter custado a presideÌncia a seu marido. Esse tipo de afirmaçaÌo naÌo vem do nada. Precisa de alguma contextualizaçaÌo cultural. Por exemplo, eÌ uma daquelas tristes ironias histoÌricas o fato de que a primeira mulher negra a se tornar milionaÌria, a norte-americana Madam C.J. Walker (1867-1919), tenha se tornado rica vendendo produtos cosmeÌticos destinados a alisar cabelos afro.
A primeira grande onda de valorizaçaÌo dos cabelos afro, nos EUA, ocorreria apenas na deÌcada de 1960. Ativistas poliÌticos como Marcus Garvey e Angela Davis foram importantes lideranças negras. Entre muitas outras coisas, eles se insurgiram diante da imposiçaÌo da tirania de ideais de beleza euroceÌntricos. HaÌ uma linha de continuidade entre 1968, quando James Brown gritou âSay it loud! Iâm black and Iâm proudâ, e 2016, quando Solange Knowles cantou âDon’t touch my hairâ.
Não é um tênis, é sÃmbolo de superação
Trocando em miúdos: marcadores de estilo, com frequência, não são apenas um reflexo da moda da estação. São manifestações sofisticadas da história de um povo, de uma região, de uma luta. Podemos tomar como exemplo a paixão dos rappers americanos por tênis caros e extravagantes. Será que é só vontade de torrar mais uns tostões? Ou traz um paralelo Ãntimo com os antepassados escravizados? Não faz muito tempo que os tataravós desses artistas andavam pelas cidades descalços, o que era um forte indicador de que o indivÃduo era um trabalhador escravizado. Em oposição a isso, os tataranetos não admitem sair de casa sem ostentar um pisante de respeito nos pés. Não é um tênis, é um sÃmbolo da superação de uma opressão.
Artistas brasileiros negros de soul, funk, samba e demais ritmos diaspoÌricos (Hyldon, Cassiano, Tim Maia, Tony Tornado, Gerson King Combo, Sandra SaÌ, Elza Soares etc.) nos recordam que um cabelo eÌ muitas vezes mais do que um cabelo. Por exemplo, naÌo eÌ aÌ toa que em seu desfile no ano passado, em 2020, a EstaçaÌo Primeira de Mangueira representou um Jesus Cristo de pele preta e cabelo descolorido: em ascese e santificado. Fosse eu o Rodolffo, aproveitava logo o meu tempo livre fora da casa e dava o play nesse desfile no YouTube. Vai que ele aprende alguma coisa. Mal naÌo vai fazer.
