A saga da poda de árvores no Rio de Janeiro

Árvore na pracinha do Bairro Peixoto: poda pode ter afetado (foto Karla Marcolino)

Cidade perdeu 1348 delas só em janeiro e não há orçamento para novos plantios; Comlurb, responsável pelo trabalho, recebe críticas

Por Karla Marcolino | ODS 11 • Publicada em 21 de junho de 2019 - 08:43 • Atualizada em 23 de janeiro de 2020 - 15:29

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Árvore na pracinha do Bairro Peixoto: poda pode ter afetado (foto Karla Marcolino)
Árvore na pracinha do Bairro Peixoto: poda pode ter afetado (Foto: Karla Marcolino)

É outono, talvez nem todo dia de fato em termos de temperatura, mas, finalmente. E, espera-se, foram-se as tempestades, que castigaram o Rio de Janeiro no verão, especialmente em fevereiro, mas também em março, e até em abril. Foram-se também os meses com  “r” no nome, quando, diz o senso comum, não se deve podar árvores. Foram-se ainda, desde janeiro, neste 2019, 1348 delas, de acordo com a Comlurb. Não chega a ser um recorde. No mesmo período do ano passado a cidade perdeu 1832 árvores. Mas é o segundo lugar desde 2008, quando a companhia, assumindo parte do manejo arbóreo do município, começou a contar. E ainda é muita árvore derrubada pela água e pelos ventos, entre outros fatores.   

Há dez anos responsável pela poda, a Comlurb desagrada tanto a quem reclama mais rapidez na apara dos galhos que invadem janelas nos andares altos, bloqueiam a luz do sol nos térreos e, principalmente, escondem placas e filtram a iluminação pública; quanto os que defendem a preservação de espécies muitas vezes centenárias. 

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Cortes de espécies abalam moradores

Alunos do Colégio Santo Inácio, em Botafogo, choraram a derrubada de um jacarandá em frente à escola. Moradores protestaram contra o corte de uma Figueira de 13 metros na esquina das ruas Ataulfo de Paiva e Afrânio de Melo Franco, no Leblon. No Bairro Peixoto, em Copacabana, uma velha mangueira que fazia sombra sobre o trocador, no meio do parquinho da Praça Edmundo Bittencourt, também se foi. Em um ano, entre dezembro de 2017 e novembro de 2018, a Comlurb podou 4856 vegetais no bairro, uma média de 312 por mês.

A sorte da Comlurb é que as espécies plantadas ao longo dos anos na cidade são muito valentes, porque algumas podas que a gente vê por aí são bem ignorantes

Yuri Dinys
agrônomo

A árvore foi desbastada só de um lado, com um resultado desequilibrado. Nos meses seguintes perdeu todas as folhas. Outras espécies tiveram galhos grossos serrados, contrariando orientações de especialistas. A certa altura, um gari enrolou o que parecia um pedaço de estopa, acendeu esta tocha improvisada, e ensaiou colocar fogo no entulho resultante do corte. Desencorajado por colegas, felizmente desistiu. Mas ficou a impressão de que alguns não sabiam bem o que estavam fazendo.

“A sorte da Comlurb é que as espécies plantadas ao longo dos anos na cidade são muito valentes, porque algumas podas que a gente vê por aí são bem ignorantes” opina o agrônomo Yuri Dinys, do Laboratório Urbano de Permacultura e Arte (L.U.P.A.), que oferece diversos cursos sobre sustentabilidade, entre eles, poda sistêmica.

Na rua Figueiredo Magalhães, em Copacana, um sinal avisa o perigo de a árvore cair (Foto: Karla Marcolino)

Dinys explica que o pressuposto de que o corte só deve ser feito nos meses de maio, junho, julho e agosto está correto, porque no inverno a energia das plantas fica concentrada nas raízes. Ele acha que com um pouquinho de planejamento seria possível calcular situações corriqueiras, como galhos cobrindo placas de trânsito, e executar a maior parte das podas no tempo e na intensidade corretos.  E que há um erro conceitual na companhia de limpeza ser responsável pelo cuidado com as árvores.

Comlurb diz que garis são treinados

Funcionário de carreira, o atual presidente da Comlurb, Tarquínio de Oliveira, diz que a empresa não queria a tarefa, mas, já que a recebeu, tratou de se capacitar. Mais de quatro mil garis já passaram por cursos ministrados por engenheiros agrônomos e florestais dos próprios quadros e da Fundação Parques e Jardins.

Alguns, como Bruno Silva de Souza, coordenador da primeira equipe de manejo, criada em 2010, também aprenderam arborismo, rapel e técnicas de segurança, resgate e salvamento com os bombeiros e a técnicos da Defesa Civil. Aos 36 anos, Bruno conta que corre todo fim de tarde para manter a forma e exibe orgulhoso os certificados e o título informal de “supergari”, como são conhecidos os que trabalham em áreas que exigem cuidado especial e de difícil acesso, como escolas e favelas. Ele garante que, em qualquer caso, cada galho cortado é especificado no laudo da vistoria.

De acordo com os laudos, o jacarandá da rua Eduardo Guinle, em Botafogo, seria “uma espécie senna (um tipo de árvore) que precisou ser removida por estar seca e apresentar galhos frágeis” A figueira do Leblon, “apresentava risco de queda”. E a mangueira de Copacabana estava “em grave declínio vegetativo e com muitos galhos secos” e o “manejo intenso visou a evitar a retirada”. Tarquínio estranhou a tentativa de incendiar o “lixo verde”, lembrou que a Comlurb produz adubo com as folhas e galhos pequenos e mobiliário urbano com os troncos.

Por outro lado, também não é difícil encontrar troncos esquecidos, restos de poda e capina não recolhidos, e, principalmente, pedidos de poda não atendidos. No Condomínio Mirante de Copacabana, na rua Santa Clara, entra e sai síndico e os chamados não são atendidos. No início do ano, cansados de esperar, mesmo sob o risco de multa, os moradores retiraram duas árvores que ameaçavam desabar na rampa da garagem. No início de maio a prefeitura pediu 24 horas para avaliar a situação de uma nova ameaça, agora no jardim frontal da construção. Até agora, nada. Com 2800 pedidos mensais, a poda é o serviço mais solicitado à central 1746, do município. E também o que tem mais reclamações.

A Comurb informa que “o serviço de poda segue sua rotina regular e mantém um esquema de pronto-atendimento preparado para atender eventuais emergências, tanto na desobstrução de caixas de ralo quanto em remoção de árvores”. Seu presidente, porém, reconhece que “há uma demanda reprimida de décadas” e diz que, para atendê-la, pretende dobrar a quantidade de garis alocados para a função. Hoje são 300, o mesmo número de funcionários da Fundação Parques e Jardins, responsável pelo planejamento e replantio, atualmente, sem orçamento. Fazem, em média, 3000 podas por mês, gerando 30 toneladas de resíduo por dia.

A pode de uma figueira no Leblon (foto Karla Marcolino)

O agrônomo Fernando Tanscheit, do Carpe, empresa especializada em projetos socioambientais, acha que a Comlurb realiza um bom trabalho na ponta. Mas argumenta que priorizar a demanda prejudica o planejamento.  

“Seria interessante criar um banco de dados com informações sobre todas as árvores da cidade, e um calendário de manuseio que contemple as características e a situação individual de cada planta”, analisa. Algo parecido era feito na época em que a FPJ ainda contava com um quadro de dois mil funcionários. E consta das propostas do Plano Diretor de Arborização Urbana do Rio de Janeiro, aprovado em 2015 e nunca implementado.

Jovens abandonadas

Enquanto isso, ninguém cuida das árvores jovens. A FPJ, que, segundo seu diretor de arborismo, Alamir Punaro Baratta, fará a avaliação e, de acordo com as possibilidades técnicas, o replantio nas áreas onde árvores foram retiradas, conta com mudas produzidas em seu horto e doadas. Mas não tem pessoal para fazer o acompanhamento das plantas. Por isso tem dado prioridade ao habite-se. Construtoras que retiram árvores têm que financiar e plantar novas mudas. São as chamadas medidas compensatórias e a empresa fica responsável por estes vegetais durante um ano. A Comlurb poda espécies partir dos cinco. Neste intervalo elas estão entregues a síndicos, porteiros, carros estacionados nas calçadas estreitas e impermeabilizadas, fora o que está no subsolo, de gasodutos a redes de telefonia, segundo Punaro, num emaranhado similar ao que observamos na rede aérea; “Devia passar tudo pelo mesmo espaço organizado”, diz. Sem planejamento e fiscalização, não é fácil.

Difícil também é chegar a um consenso sobre o valor das árvores junto à população. Moradores do Leblon há meses denunciam que amendoeiras na Rua Carlos Góis são amiúde desbastadas para visualização de outdoors.  A poda é clandestina. Além da Comlurb, apenas a Light pode aparar vegetais em áreas públicas e somente para retirar galhos em conflito com a fiação. Até a polícia já foi chamada, mas nada acontece. A orientação da Secretaria Municipal de Conservação e Meio Ambiente nestes casos é acionar a Patrulha Ambiental via central no momento da ação.

Bruno, o supergari (foto Karla Marcolino)

A patrulha, que atende, em média, a 30 chamados por dia, aí incluídos os casos de maus tratos a animais, teria poder para evitar a poda de um Ipê Rosa num prédio particular, no número 93 da Rua Almirante Guilhobel, na Lagoa. Segundo a atriz Karen Aciolly, que protestou pelas redes sociais, o serviço foi tão descuidado que atingiu fios de alta tensão, causando um princípio de incêndio e a queda da transmissão de energia. A Light tem registro do chamado para o reparo.

“Foi uma poda muito agressiva. Praticamente puseram a árvore abaixo. Tem alguma coisa muito errada com pessoas que acham normal acabar com o verde assim”, diz Karen. Por sorte existem também os amantes da natureza que, desde 2014, podem aderir ao programa Adote Rio, que busca parcerias com empresas, associações de moradores e cidadãos para a gestão de áreas públicas, como praças, jardins e canteiros.

Karla Marcolino

Karla Marcolino estudou jornalismo na ECO/UFRJ. Formada em 1989, trabalhou na Rádio JB, na TV Globo, na revista Veja Rio, no Jornal do Brasil e em O Dia. Faz tempo optou por ser freelance e desde então tem produzido conteúdo para sites e publicações diversas. Divide-se entre a reportagem e as aulas de yoga desde que se tornou instrutora, em 2018.

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