Qual a chave do sucesso das cidades do futuro? O que significa ser uma âcidade inteligenteâ? Este é um dos grandes desafios do século. Mais da metade do planeta já vive hoje em cidades e até 2030 este número deve chegar a 66%. Ou seja, até lá provavelmente teremos mais 1,4 bilhão de pessoas vivendo em cidades. Hoje é nas cidades que a maioria da população mundial vive e trabalha. São o motor da economia mundial, consumindo a maior parte da energia e dos recursos naturais, gerando 80% do PIB mundial – e 70% das emissões de carbono. Fazer as cidades melhores é o desafio de infraestrutura mais crÃtico de nossos dias.
[g1_quote author_name=”Luiz Roberto Arueira” author_description=”Diretor do Instituto Pereira Passos” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Uma cidade altamente tecnológica e monitorada, mas onde a população está alijada do processo de criação, planejamento e gestão é uma cidade que servirá apenas à elite governante e ao grupo que a sustenta
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Veja o que já enviamosUm estudo do Instituto Global McKinsey (MGI) estimou que, entre hoje e 2025, a população mundial deve crescer, em média, cerca de 65 milhões de pessoas por ano, o que dá cerca de 179 mil pessoas por dia. Atender às demandas desta nova demografia será um desafio necessário. O que teremos que fazer para viver em cidades melhores?
Para tentar responder a esta pergunta, o Instituto Global Mckinsey entrevistou vários gestores de cidades e especialistas em temas urbanos da Ãsia, Europa, Oriente Médio e Américas do Norte e Latina. O resultado deste estudo, que buscou respostas em cidades de portes, histórias e administrações diferentes, encontrou três âatitudesâ que foram consideradas importantes para uma âcidade de sucessoâ.
A primeira das três âatitudes de sucessoâ é obter um crescimento inteligente. Mas o que seria isso? Toda cidade precisa de crescimento econômico para proporcionar boas infraestruturas e boa qualidade de vida aos seus moradores. Um âcrescimento inteligenteâ é aquele que, segundo o resultado do estudo, proporciona um crescimento sustentável. Mas é quase um senso comum ter como objetivo um crescimento sustentável. Para Luiz Roberto Arueira, Diretor de Informações da Cidade, do Instituto Pereira Passos, uma cidade inteligente é uma cidade que se conhece, ou seja, âestá além de sensores e tecnologia, mas os usa para gerar e compartilhar dados, produzindo conhecimento de forma coletiva e colaborativaâ Arueira reforça, entretanto que âuma cidade altamente tecnológica e monitorada, mas onde a população está alijada do processo de criação, planejamento e gestão é uma cidade que servirá apenas à elite governante e ao grupo que a sustentaâ.
Sendo assim, qual seria a chave de sucesso para as cidades no futuro? Segundo Arueira, âconhecimento e participação cidadã são as chaves para o desenvolvimento das cidades do futuro que, obrigatoriamente, serão cidades sustentáveis, resilientes e inclusivasâ. Para o Diretor-Executivo da SDSN Brasil, rede que reúne organizações da sociedade civil, instituições acadêmicas e empresas públicas e privadas que tem como objetivo apresentar soluções para o desenvolvimento urbano sustentável, a chave do sucesso das cidades brasileiras ainda está distante: âinfelizmente, a maior parte dos desafios das nossas cidades ainda são desafios do século XX, ou mesmo do século XIX, como a universalização do saneamento básico, da energia elétrica ou do acesso a água tratadaâ.
Voltando ao estudo, cujo enfoque é internacional, o mesmo revela que o importante é descobrir as principais vantagens competitivas de cada cidade e, a partir daÃ, construir um modelo principal de negócios que faça sentido econômico para a cidade e seus moradores. A partir do momento em que a cidade determina sua força, sua vocação e aquilo pelo qual ela quer ser conhecida, seus negócios passam a ser desenvolvidos nesta direção. Dubai, por exemplo decidiu criar o maior porto mundial e construiu toda a infraestrutura para tal, focando todos seus esforços para isso. Marco Simões, da SDSN Brasil, considera que, como paÃs, teremos de chegar a um consenso quanto à s nossas ambições, âpara atender as necessidades mÃnimas da população enquanto combatemos a destruição de nossas florestas e realizamos a transição para uma sociedade de baixo carbono. São desafios muito grandes e para os quais não temos ainda um consenso e atenção nacional apropriadosâ.
A segunda âatitude de sucessoâ apontada pelo estudo é âfazer mais com menosâ. Todos os prefeitos e gestores de cidades do mundo queixam-se de seus orçamentos e dos valores disponÃveis para atender à s necessidades da população. O estudo aponta que o segredo para o sucesso não é gastar menos, mas gastar âmelhorâ. Para lidar com as pressões orçamentárias, cidades fazem todos os esforços possÃveis para coletar impostos e gerir seus recursos de forma eficiente. Algumas ações especÃficas a serem tomadas poderiam ser, por exemplo, terceirizar uma parte da administração ou alguns serviços como manutenção de parques, serviços de limpeza, dentre outros. Parcerias público-privadas eficientes podem também fornecer infraestrutura e serviços a um preço mais baixo com qualidade mais alta. O segredo está em definir objetivos concretos e mensuráveis utilizando análises de custo-benefÃcio e métricas rigorosas. A Inglaterra fez isso através de parcerias para construção de estradas, por exemplo.
Segundo Daniela Goes, especialista em gestão pública pela Harvard University, as parcerias público-privadas podem ser um instrumento de eficiência fiscal no curto e no médio prazo, principalmente por serem capazes de alocar recursos para a infraestrutura, uma vez que os projetos são financiados no curto prazo pelo setor privado e pagos pelo setor público no longo prazo. Segundo Daniela, âesta estratégia de financiamento do setor público pode ser comparada, por exemplo, a um empréstimo bancário e contribui para canalizar recursos de forma mais eficaz para a infraestruturaâ.
A terceira e última atitude de sucesso recomendada pelo estudo é conquistar o âapoio necessário para fazer as mudançasâ. Esta última é, talvez, a mais difÃcil de todas. Negócios estabelecidos, comunidades e interesses polÃticos muitas vezes preferem o status quo. Gestores precisam ser persistentes e resilientes para obterem resultados rápidos, positivos e visÃveis. Para isso, o estudo recomenda, por exemplo, ter uma equipe de servidores motivada e dedicada. Nesta linha, Singapura, que tem um dos formatos de gestão pública mais bem avaliados pelo estudo, criou um sistema de promoção de servidores públicos baseado em méritos e produtividade, e não em tempo de serviço.
Aqui no Brasil temos ainda muito chão pela frente, mas a cidade de Curitiba é citada no relatório, por conta dos BRTs, já replicados no Rio de Janeiro e outros municÃpios brasileiros. Segundo Marco Simões, âsão imensas as adversidades que nossas cidades já enfrentam e que deverão se tornar ainda mais complexas nos próximos anos, com as mudanças climáticas e a contÃnua tendência de urbanização do paÃsâ. Para Marco, âconstruir uma urbanidade mais humana é um dos grandes desafios que temos. Mais de 85% da população brasileira está hoje nas cidades. Em 2050, serão mais de 90% nos centros urbanos. A cada segundo, novos habitantes chegam, o que gera crescimento de forma desordenada. Ao pensar em cidades, precisamos considerar toda a região metropolitana, levando em conta aspectos como mobilidade, desigualdade, informalidade e exclusãoâ. Que nos próximos anos outras cidades brasileiras encontrem suas chaves para o sucesso para que sejam citadas como exemplo.
