Colmeias de luxo

Simulação da instalação “The hive” (“A colmeia”) no Kew Gardens, o jardim botânico real em Londres (Divulgação / 2016)

Com população de abelhas em declínio no mundo, apicultura urbana está em alta e foi adotada por atrações turísticas e hotéis

Por Carla Lencastre | ODS 11 • Publicada em 9 de maio de 2016 - 09:38 • Atualizada em 17 de maio de 2022 - 19:47

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Simulação da instalação “The hive” (“A colmeia”) no Kew Gardens, o jardim botânico real em Londres (Divulgação / 2016)

Faz zum zum e mel. Tem uma vida regrada em lugares tão diferentes quanto a Casa Branca em Washington e a Opéra em Paris. É responsável por polinizar cerca de um terço dos alimentos consumidos por seres humanos, segundo as Nações Unidas. E, desde o início da década de 2010, pode ser encontrada em atrações turísticas ou hospedada em luxuosos hotéis de Londres, Paris e Nova York, entre outras grandes cidades. A população de abelhas está em declínio em parte do mundo, principalmente na Europa e na América do Norte. Colmeias urbanas em terraços de monumentos, lojas e hotéis de luxo não salvam o planeta, mas dão uma ajuda.

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Nas colmeias urbanas as abelhas têm chance de sobreviver aos predadores e fazer seu eficiente trabalho de polinização. No caso da hotelaria, os apiários ajudam a reforçar a imagem de estabelecimentos que querem associar marca e conceitos sustentáveis. As abelhas ainda produzem o mel servido aos hóspedes do café da manhã ao drinque no bar. Colmeias urbanas tendem a ser mais produtivas do que as de áreas rurais.

A instalação “The hive” (“A colmeia”) no pavilhão da Grã-Bretanha na Expo 2015, em Milão (Foto: Divulgação / 2015)

 

 

No início de 2016, o belíssimo Kew Gardens, o jardim botânico real em Londres, anunciou a instalação “The hive” (“A colmeia”) como grande atração para o verão do Hemisfério Norte. O objetivo da instituição, classificada como patrimônio mundial pela Unesco e com mais de 1,5 milhão de visitantes por ano, é justamente chamar a atenção para a importância das abelhas na vida humana. “The hive” foi criada por Wolfgang Buttress para o pavilhão do Reino Unido na Expo Mundial de 2015, realizada em Milão. Com 17 metros de altura, feita em alumínio e com iluminação por LED e sons que simulam a vida em uma colmeia, “The Hive” deu aos britânicos o prêmio de melhor pavilhão da feira.

“É fundamental que as pessoas se conscientizem da relevância das abelhas para a polinização e para a vida”, disse ao #Colabora Daryl Bennett, gerente de marketing do jardim botânico, durante o ExploreGB, evento de promoção do turismo na Grã-Bretanha.

Verdade que os ingleses, que amam jardins, se interessam por abelhas já há algum tempo. O filme “Mr. Holmes” (2015), por exemplo, estrelado por Ian McKellen, mostra um Sherlock Holmes aposentado, com falhas de memória e criando abelhas em Sussex, no litoral. Aliás, teria sido inspirado em Sherlock Holmes que o escritor americano Paul Theroux começou seu apiário no Havaí, perto da capital do estado, Honolulu, na ilha de Oahu.

Bee & Bee Hotel, um spa para abelhas no luxuoso St. Ermin’s, na área central de Londres (Foto: Divulgação / 2016)

Um dos primeiros hotéis do Reino Unido a dar atenção ao novo zumbido urbano e instalar suas próprias colmeias foi o histórico St. Ermin’s, parte da Autograph Collection do grupo americano Marriott. São mais de 300 mil abelhas em seis colmeias em um terraço no Centro de Londres, perto do St. James Park. O hotel passou por uma reforma de 30 milhões de libras na qual o apiário também foi contemplado e ganhou um “bee & bee hotel”, uma área de descanso para as abelhas. O Caxton Bar, cenário de encontro de espiões durante a Segunda Guerra e a Guerra Fria, hoje serve uma espécie de “honey martini”, batizado de Bowler Hat, drinque com gim, vermute seco e mel da casa.

Várias atrações turísticas de Londres, você nem desconfia, estão repletas de colmeias. De acordo com a BBC, em 2014 já existiam 3.500 apiários na Grande Londres. Na movimentada área de Piccadilly Circus, a loja Fortnum & Mason, fornecedora da Família Real, cria cerca de 50 mil abelhas em quatro colmeias no topo do prédio. Na primavera e no verão os insetos vão ao Hyde Park, ao Green Park e aos jardins do Palácio de Buckingham. O mel fabricado ali é vendido na loja, mas é preciso entrar em uma lista de espera para comprar.

No hotel londrino St. Ermin’s o mel é uma delícia também para os hóspedes (Foto: Divulgação / 2016)

Londres tem apiários também nas galerias de arte Tate Modern e Tate Britain e no Victoria & Albert Museum. Os três, e mais o da Fortnum & Mason, estão sob os cuidados de Steve Benbow, de 47 anos, neto de apicultores. Ele se tornou um especialista em colmeias urbanas e lançou um livro sobre o tema, The urban beekeeper: a year of bees in the city (Random House, 2014).

O interesse de Benbow surgiu durante uma visita a Paris, uma das capitais europeias mais amigáveis para as abelhas, porque o uso de pesticidas é proibido nos jardins da cidade já faz tempo. Os insetos estão no topo da Opéra Garnier desde a década de 1980, e também no Grand Palais e entre as gárgulas da Notre-Dame. Até a loja da Louis Vuitton na Avenue des Champs-Elysées cria mais de 200 mil abelhas, que por ano produzem 75 quilos de mel, presenteados aos clientes da grife.

Apiário do Mandarin Oriental Paris, com vista privilegiada: mel para pratos e drinques (Foto: Divulgação / 2016)

Um dos hotéis mais luxuosos da capital francesa, o Mandarin Oriental, já surgiu com colmeias. Encravado entre as muitas butiques grifadas da Rue Saint-Honoré, o MO Paris cria abelhas desde a sua inauguração, em 2011, e hoje tem em torno de 50 mil no terraço que fica atrás da fachada art déco da década de 1930. Com o Jardin des Tuilleries ali perto, elas produzem entre 20 e 30 quilos de mel por ano. O miel maison é usado em pratos elaborados pelo chef Thierry Marx, com duas estrelas Michelin. No lindo balcão do Bar 8, complementa um drinque com chá de jasmim, gengibre e champanhe, o Maya, e outro com suco de limão, Cointreau e rum, chamado de Honey Kingston. Quem se senta ao ar livre no delicioso restaurante Camélia, no jardim interno do hotel, de vez em quando vê uma abelha ou outra por ali.

Este esforço de empresas e organizações para criar abelhas em seus terraços oferece uma solução urbana para o declínio da população dos mais eficazes polinizadores do mundo, causado por vários fatores, entre eles o uso de pesticidas e a degradação do meio ambiente agravada pela crise climática. Já os críticos dizem que, na realidade, as colmeias urbanas apenas fazem com que as abelhas fiquem mais estressadas competindo por fontes escassas de comida nas grandes cidades, porque não há flores o suficiente.

Visitantes com apifobia não veem graça na novidade. Mas parece que as abelhas vão ficar por um tempo pelas cidades. Em 2010, Londres e Nova York revogaram leis que proibiam colmeias no centro urbano. A rede hoteleira InterContinental tem dois hotéis de luxo em Nova York (Times Square e Barclay) e colmeias em ambos, assim como no seu hotel de Boston, onde as abelhas chegaram em 2010.

O apiário urbano mais famoso de Nova York fica no emblemático Waldorf Astoria. Na Park Avenue, no Centro de Manhattan, o elegante hotel foi um precursor na criação de abelhas na cidade. Os insetos chegaram em 2012 em um carro de luxo e foram levados até o terraço no 20º andar, com vistas espetaculares. São seis colmeias, com mais de 300 mil abelhas que produzem cerca de 130 quilos de mel por ano. Nos dias ensolarados elas vão passear no Central Park. Como no Mandarin Oriental em Paris, o mel inspira pratos do cardápio no clássico Peacock Alley e coquetéis. O mel da casa é usado ainda em tratamentos no spa.

As abelhas urbanas também podem descobrir fontes improváveis de alimentos. Andrew Cote, o apicultor do Waldford Astoria, foi chamado para examinar uma colmeia no Brooklyn onde as abelhas começaram a produzir um mel vermelho e brilhante. Depois de alguma pesquisa ele descobriu que os insetos tinham encontrado uma fábrica de cerejas marrasquino nos arredores. Para não correr o risco de servir mel vermelho no Waldorf Astoria, o hotel mantém um jardim no terraço com manjericão e tomilho, além de vegetais que são usados nos pratos do Peacock Alley.

No Waldorf Astoria, apicultores cuidam das hóspedes ilustres (Foto: Divulgação / 2016)

Na Austrália, onde a população de abelhas ainda não registra declínio significativo, o Swissôtel de Sydney se adiantou e foi o pioneiro. Instalado no Central Business District (Sydney CBD), uma das áreas mais movimentadas da cidade australiana, tem um apiário em seu terraço com quatro colmeias e 200 mil abelhas. O mel orgânico produzido no hotel inspira pratos e drinques do cardápio do restaurante,Just Pure Bistro. Os queijos da região, por exemplo, são servidos acompanhados de favos de mel colhidos no terraço.

Durante a primavera e o verão, as abelhas vão até o Jardim Botânico e o Hyde Park da cidade, ambos nos arredores do hotel. No restante do ano elas se distraem em vasos de lavanda, alecrim e manjericão instalados estrategicamente perto das colmeias. “São iniciativas simples e eficazes como esta que fazem a diferença nos nossos esforços para promover uma vida mais saudável, sustentável e amiga do meio ambiente”, disse Daniel Fueglister, então gerente geral do hotel, quando o projeto foi lançado.

O Swissôtel faz parte do mesmo grupo dos hotéis Fairmont, o FRHI Hotels & Resorts, pioneiro na criação de abelhas e com colmeias em mais de 20 propriedades por todo o mundo. No lindo Fairmont Mayakoba, na Riviera Maya, no México, as cinco mil abelhas produzem o mel que é usado em tratamentos no spa. Já no Fairmont Waterfront, em Vancouver, na Costa Oeste do Canadá, são mais de 500 mil abelhas. O mel é usado nos drinques do bar.

No Lapostolle, no Chile, apicultura é combinada com vinhedos e agricultura orgânica (Foto: Divulgação / 2016)

Licor, mel e vinho na vizinhança brasileira

Grandes redes hoteleiras têm investido muito em sustentabilidade, e criar abelhas é apenas uma pequena parte desses programas. Mas pequenos estabelecimentos independentes também têm se preocupado com o assunto. O Relais & Châteaux, grupo de luxuosos hotéis independentes, promove seus associados com colmeias próprias. Há pequenos hotéis produzindo mel na França, no Reino Unido, nos Estados Unidos e até aqui ao lado, no Chile, no Lapostolle Residence, no Vale de Colchagua, a 2h30min de carro da capital, Santiago.

“Abelhas fazem todo sentido em um lugar que tem vinhedo biodinâmico e horta orgânica”, conta Karina Kotzanek, gerente do hotel. “Foi ideia da proprietária, Alexandra Marnier Lapostolle de Bournet, da família francesa que criou o licor Grand Marnier”.

O Lapostolle tem apenas quatro villas, cada uma com o nome de uma uva dos vinhedos biodinâmicos e orgânicos de Clos Apalta, que ficam ao lado do hotel. Ervas e vegetais usados no restaurante, aberto ao público em geral, também são orgânicos e plantados na propriedade. Harmonização perfeita com vinho biodinâmico e mel da casa.

 

Carla Lencastre

Jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), trabalhou por mais de 25 anos na redação do jornal O Globo nas áreas de Comportamento, Cultura, Educação e Turismo. Editou a revista e o site Boa Viagem O Globo por mais de uma década. Anda pelo Brasil e pelo mundo em busca de boas histórias desde sempre. Especializada em Turismo, tem vários prêmios no setor e é colunista do portal Panrotas. Desde 2015 escreve como freelance para diversas publicações, entre elas o #Colabora e O Globo. É carioca e gosta de dias nublados. Ama viajar. Está no Instagram em @CarlaLencastre 

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