(Nicoly Ambrosio*) – A escola de samba Acadêmicos do Salgueiro levará de forma inédita à Marquês de Sapucaà termos e frases da lÃngua Yanomami, no desfile deste domingo (11/02) na Passarela do Samba. Os indÃgenas fazem parte do enredo deste ano da escola, âHutukaraâ, que na cultura Yanomami faz referência ao céu ancestral que desabou sobre a terra nos primórdios e, hoje, forma a terra-floresta que cobre o planeta.
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O livro âA queda do céuâ (Companhia das Letras, 2010), obra da maior liderança dos Yanomami, Davi Kopenawa, em parceria com o antropólogo francês Bruce Albert, é uma das bases para o desenvolvimento do enredo do carnavalesco Edson Pereira. âEles compraram o meu livro e leram tudo sobre a minha história, desde quando eu era menino até o primeiro contato com os invasores que chegaram na minha comunidade. Esse livro conta a história do meu povo e o Salgueiro achou muito bonito mesmo, eles acham que é um pensamento diferenteâ, contou Davi Kopenawa em entrevista à Amazônia Real.
O Salgueiro vai falar pelo nome do meu povo para pressionar os estados de BrasÃlia, Amazonas e Roraima, que estão matando o meu povo Yanomami e matando a natureza
O desfile da tradicional agremiação vai homenagear a luta pelo território e as belezas do povo Yanomami, com o mote do sonho de um Brasil indÃgena, um Brasil cocar, como diz a letra do samba escolhido para a apresentação. O samba-enredo é assinado pelos compositores Marcelo Motta, Pedrinho da Flor, Arlindinho Cruz, Renato Galante, Dudu Nobre, Leonardo Gallo, Ramon Via13 e Ralfe Ribeiro. No refrão, os salgueirenses entoam: âYa temi xoa, aê, êa! Ya temi xoa, aê, êa!â; âeu ainda estou vivoâ na lÃngua Yanomae, uma das seis lÃnguas da famÃlia Yanomami. Para o grande lÃder, que também é xamã, é importante que a escola mostre os verdadeiros Yanomami, sua sabedoria e cultura, para além da imagem da tragédia que atinge esse povo. âOs Yanomami precisam estar lá para defender o povo indÃgena. Yanomami quer falar a própria lÃngua deleâ.
O primeiro encontro entre Davi Kopenawa e representantes da escola de samba aconteceu em março do ano passado, em São Paulo, logo após o anúncio da homenagem. Ele participou do processo de construção do enredo com ajuda do indigenista Marcos Wesley, do Instituto Socioambiental (ISA), que atuou como mediador entre a agremiação e os Yanomami. âO Salgueiro falou que, além de homenagear o Davi, queria contar uma história verdadeira e que os Yanomami também quisessem contar essa história. A partir disso, o Davi me escalou para ir acompanhando e dando informações a eles, por meio dos livros, das matérias que fazemos sobre o garimpo. Eu tenho feito essa interlocução bastante frequente com o pessoal do Salgueiroâ, relata o indigenista, que trabalha há 27 anos com os Yanomami.
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Veja o que já enviamosWesley conta que, durante o encontro, Davi pediu enfaticamente que o Salgueiro contasse a história real dos Yanomami e da sua visão de mundo, e não uma história genérica sobre povos indÃgenas. âEle disse que eles tinham que conhecer e ler sobre os Yanomami, que não falassem só do sofrimento, das injustiças que estão sofrendo, principalmente com o garimpo, mas também falassem sobre a beleza do conhecimento e da sabedoria que os Yanomami têm sobre as florestas e sobre como viver bemâ.
O mergulho nesse universo ficou a cargo do jornalista e enredista Igor Ricardo. Para ele, o desafio foi transformar em Carnaval um tema que as pessoas só veem na televisão pela ótica da tragédia. âO desfile do Salgueiro é um contraponto a essa tragédia. A gente quer mostrar a beleza que tem esse povoâ.
A bibliografia disponibilizada e as trocas com Davi Kopenawa inspiraram o Salgueiro na construção do desfile, na produção das fantasias, adereços e carros alegóricos, uma vez que os salgueirenses não puderam estar fisicamente presentes na Terra IndÃgena Yanomami. Já Davi Kopenawa visitou o Morro do Salgueiro, berço da escola no Rio de Janeiro, em outubro de 2023.
âPercebi que eles fizeram um trabalho sério e se dedicaram. Eles leram para poder colocar na avenida os Yanomami de fato e não um indÃgena genérico. Tanto que eles foram apresentando para o Davi, em algumas ocasiões, e ele também foi concordando e foi se agradando do que via sobre fantasias, sobre os carros alegóricos e sobre a história que está sendo contada por elesâ, ressalta Marcos Wesley.
Davi Kopenawa acredita que, ao representar os Yanomami em sua verdadeira cultura, o enredo pode ajudar a divulgar a situação do seu povo, que está doente e tem o território atacado e destruÃdo pelo garimpo. Para ele, essa aliança vai ser uma força contra os invasores da terra-floresta. âO rio está sujo, tem muita doença misturada com a malária, gripe, vômito, verminose e também a doença que atacou muitos de nós, que foi o coronavÃrus. Chegou em 2020 e contaminou tudo. à por isso que eles [Salgueiro] têm que estar do nosso lado, do povo indÃgena. Nós precisamos que eles estejam ao nosso lado para proteger e defender os Yanomami. O Salgueiro vai falar pelo nome do meu povo para pressionar os estados de BrasÃlia, Amazonas e Roraima, que estão matando o meu povo Yanomami e matando a natureza â, denuncia a liderança.
No final de janeiro, uma nota técnica da Hutukara Associação Yanomami denunciou que a crise humanitária continua na Terra IndÃgena, apesar das medidas emergencias adotadas pelo governo Lula no inÃcio de 2023. Com novas estratégias, garimpeiros avançam na exploração ilegal no território. Essas estratégias, aliadas a uma desarticulação nas ações de combate por parte do governo federal, provocam efeitos nocivos à população Yanomami.
Marcos Wesley espera que os Yanomami sejam valorizados pelo conhecimento que têm sobre a floresta e sobre como estar no mundo, sabedoria considerada por ele imprescindÃvel para combater a crise climática que estamos vivenciando. âA gente precisa ter novos paradigmas de como estar neste planeta, e eu acho que os povos indÃgenas podem nos ensinar muito sobre isso. Além disso, espero que os Yanomami encontrem aliados para defender os seus direitos. Porque, infelizmente, os Yanomami continuam tendo seus direitos de território violados, invadidos, seu sistema de saúde precário e insuficiente, a degradação ambiental que o garimpo causa, a violência que tem lá dentro. Que esse carnaval atinja ainda mais pessoas para aprender com os Yanomami e ajudar na defesa dos seus direitosâ.
Presença dos Yanomamis no desfile
Outros 14 indÃgenas do povo Yanomami vão estar ao lado de Davi Kopenawa no desfile na SapucaÃ, âpara defender o nome deles e onde eles moramâ, afirma o lÃder indÃgena. Ele vai sair no último carro alegórico, junto a outros lÃderes indÃgenas como Ailton Krenak , Dário Kopenawa e a ministra Sônia Guajajara (Povos IndÃgenas), além de convidados Munduruku e Kayapó. Também irão desfilar artistas Yeâkwana, a outra etnia que vive na Terra IndÃgena Yanomami.
Davi Kopenawa trará ainda dois xamãs para fazer no desfile o ritual de evocação dos xapiri, guardiões invisÃveis da floresta. âO Davi pediu que eles estejam lá para que façam xamanismo durante o desfile, para que os espÃritos da floresta possam estar na Sapucaà e tocar corações e mentes das pessoasâ, explica Marcos Wesley.
Entre as lideranças femininas convidadas para desfilar está a pesquisadora, escritora e artista Ehuana Yaira Yanomami, que será homenageada em uma das alas. Nascida na região do Demini (Watoriki), uma das 350 aldeias da Terra IndÃgena Yanomami e mesma comunidade onde cresceu Davi Kopenawa, Ehuana é considerada uma liderança ativa para as mulheres indÃgenas. Ela foi a primeira mulher de sua etnia a escrever um livro em sua própria lÃngua: âYɨpɨmuwi thëã oni: Palavras escritas sobre menstruaçãoâ, baseado no seu estudo sobre as mudanças geracionais dos rituais de primeira menstruação do seu povo.
Ehuana, que em 2010 se tornou a primeira professora mulher da aldeia, também ilustra e já levou para a França, Estados Unidos e Itália os seus desenhos, que retratam o cotidiano da mulher Yanomami, como os cuidados com os filhos, os partos e a reclusão da primeira menstruação.
Outra liderança feminina convidada para o desfile é a professora indÃgena Carlinha Yanomami, presidenta da Associação das Mulheres Yanomami KUMIRAYOMA (AMYK), da aldeia Maturacá, em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. Em entrevista à Amazônia Real, Carlinha diz que recebeu a notÃcia da Hutukara Associação Yanomami. âComo mulher Yanomami, guerreira da selva, fico muito emocionada porque em um evento tão importante vai se fazer a presença dos próprios Yanomamiâ.
Para ela, é um momento histórico. Carlinha espera que os aliados ajudem a expandir a história Yanomami no mundo inteiro. âO Carnaval vai mostrar que somos um povo resistente e que a nossa história é importante para o povo brasileiroâ.
*Nicoly Ambrosio é jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e fotógrafa independente residente na cidade de Manaus. Como repórter, escreve sobre violações de direitos humanos, conflitos no campo, povos indÃgenas, populações quilombolas, racismo ambiental, cultura, arte e direitos das mulheres, dos negros e da população LGBTQIAPN+.
