(Lisa Goff*) –  As autoridades cariocas levaram meses retirando moradores de favelas, demolindo seus barracos e construindo quilômetros de painéis para esconder esta marca do Rio de Janeiro dos olhos das centenas de milhares de turistas que foram à cidade para as OlimpÃadas.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]Descrições da imprensa americana sobre a retirada forçada das populações de favelas no Século XIX são similares à s reportagens sobre o desalojamento forçado de pobres, como parte dos preparativos para os jogos da Rio 2016. Em ambos os casos, os moradores se agarraram à s suas moradias precárias.
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Veja o que já enviamosMas o Rio não é a única grande cidade a esconder ou desmantelar suas favelas. Pobres são considerados feios em qualquer lugar e as cidades exercitam regularmente seu poder para livrar a paisagem dos barracos. A demolição de uma favela ao norte de Pretória, capital da Ãfrica do Sul, desencadeou motins este ano. Na França, muitas favelas (bidonvilles) foram demolidas em nome da segurança pública, mais recentemente em Calais.  Em 2008, o governo de Ruanda destruiu as últimas âcidades de lataâ na capital do paÃs, Kigali.
Os Estados Unidos não são exceção. Muitos acham que as favelas são um problema dos paÃses em desenvolvimento. Mas os EUA têm suas histórias não contadas de moradias miseráveis, que detalho no meu recente livro âShantytown USA: Forgotten Landscapes of the Working Poorâ (Favelas americanas: paisagens esquecidas dos trabalhadores pobres, em tradução livre).
Heróis da resistência
Descrições da imprensa americana sobre a retirada forçada das populações de favelas no Século XIX são similares às reportagens sobre o desalojamento forçado de pobres, como parte dos preparativos para os jogos da Rio 2016. Em ambos os casos, os moradores se agarraram às suas moradias precárias para resistir a um estado que alegava estar comprometido com a melhoria de sua qualidade de vida.
Outro ponto em comum entre o Rio e os antigos habitantes de favelas americanas: repetidamente, rejeitaram as ofertas do governo para se mudar para habitações melhores, muito longe de onde moravam. Vinte dos 600 moradores originais da favela Vila Autódromo resistiram à pressão da prefeitura para deixar seus barracos na área do Parque OlÃmpico, na Barra da Tijuca. Depois de meses de resistência, à s vezes sangrenta, eles obtiveram do prefeito do Rio a promessa de reconstruir suas casas no mesmo lugar.
A exemplo de seus equivalentes americanos de décadas atrás, as autoridades brasileiras e empresários imobiliários desprezaram os pobres como tática para negar-lhes seus direitos. Carlos Carvalho, magnata do mercado imobiliário brasileiro e dono de grande parte das terras onde o Parque OlÃmpico foi construÃdo, destacava o ânovo Rioâ que surgiria das OlimpÃadas â um Rio para âa elite, de bom gostoâ, cheio de âmoradias nobres, não de casas para pobresâ.
Cidade repaginada
Para onde deverão ir os pobres? A mesma questão na Nova York do Século XIX e no Rio do Século XXI. Em 2016, mais de 77 mil moradores de favelas foram retirados para construir um ânovo Rioâ, agradável aos turistas olÃmpicos. Muitos foram realocados em casas construÃdos pelo governo, mas não todos â e milhares lamentaram a remoção.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]No Século XX, as forças que impulsionavam o crescimento das favelas mudaram. A Grande Depressão deixou milhares sem emprego e sem teto. Entregues à própria sorte, construÃram barracos de folhas de flandres, linóleo, caixas de papelão e peças de automóveis.
[/g1_quote]Favelas são a prova da incapacidade das instituições em responder à demanda por moradias acessÃveis aos pobres. Mas elas também expressam uma visão de comunidade dos pobres que eleva seus valores de desenvoltura e reinvenção, em comparação com a fixação da classe média em propriedade e lucro.
Eu defino favelas como comunidades de moradias unifamiliares construÃdas por trabalhadores com os materiais disponÃveis. Diferem, assim, dos conjuntos habitacionais erigidos para os pobres por outros, como governos. à difÃcil sentir o que os moradores de favelas pensam delas, mas canções e peças populares do Século XIX sugerem que as viam como sÃmbolos de hospitalidade, desenvoltura e autodeterminação. Favelas são também lugares de trabalho, com vários serviços funcionando dentro das comunidades. Moradores frequentam igrejas, votam e até recorrem a tribunais para proteger seus direitos.
Nos EUA, algumas dessas comunidades persistem até hoje na forma de parques de trailers e acampamentos de sem-teto, mas seu auge foi de 1820 a 1940, quando estavam em toda parte, oferecendo moradia a trabalhadores pobres, desempregados e destituÃdos.  Mas, assim como no Rio, as autoridades americanas, que alegavam estar melhorando a qualidade de vida dos moradores, terminaram por desalojar a maioria dessas comunidades que eram, de várias formas, santuários dos pobres.
Lógica da segregação
No Século XX, as forças que impulsionavam o crescimento das favelas mudaram. A Grande Depressão deixou milhares sem emprego e sem teto. Entregues à própria sorte, construÃram barracos de folhas de flandres, linóleo, caixas de papelão e peças de automóveis. Eram chamadas, nos EUA, Hoovervilles, em âhomenagemâ ao presidente Herbert Hoover, e recebiam grande cobertura da mÃdia.
Inicialmente, as classes média e alta encaravam as favelas como uma condição necessária, embora temporária, para a rápida industrialização do Século XIX. Os trabalhadores pobres nem sempre perseveraram. Os que permaneceram, e os que chegaram depois, criaram favelas que duraram décadas em cidades como Nova York, Chicago, Atlanta e Washington, D.C.  Essas comunidades cobriam extensas áreas das maiores cidades, incluindo 20 quarteirões da 8ª Avenida, em Nova York, a maior parte do litoral do Brooklyn e do que é agora o Dupont Circle, em Washington, D.C.
As favelas não desapareceram após a Grande Depressão, mas códigos de construção e de zoneamento mais rigorosos, aliados a projetos habitacionais públicos, que visavam oferecer melhor moradia aos pobres, limitaram drasticamente seu crescimento nos EUA.
Nessas polÃticas bem intencionadas, vemos os direitos e a independência dos pobres sendo suprimidos. Antes, eles eram capazes de exercer algum controle sobre onde moravam; favelas, embora modestas, eram residências unifamiliares frequentemente próximas aos locais de trabalho. Hoje, os pobres são mandados a apartamentos multifamiliares localizados em áreas muito mais afastadas de seus empregos.
*Lisa Goff, historiadora, Universidade da VirgÃnia, EUA
Tradução: Trajano de Moraes
