Os nuggets, as salsichas e as carnes enlatadas estão com os dias contados na merenda das escolas estaduais de São Paulo. A implantação do projeto Cozinheiros da Educação está a todo vapor. O objetivo é substituir inteiramente os produtos industrializados por comida fresca e preparada na hora. A tarefa de desenvolver as receitas e treinar as merendeiras de 2500 escolas cabe à chef paulistana Janaina Rueda, proprietária do premiado Bar da Dona Onça, que topou a empreitada como voluntária. As aulas práticas acontecem na Etec Santa Ifigênia, escola técnica no Centro de São Paulo. [g1_quote author_name=”Janaina Rueda” author_description=”Chef do Dona Onça” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]
Escolhi pratos simples da cozinha popular paulista, porque são uma delÃcia e têm forte apelo cultural. Eles contam nossas tradições e registram a influência dos imigrantes italianos, árabes e de várias outras nacionalidades
[/g1_quote]Divididas em turmas de 50, as merendeiras aprendem a preparar 10 receitas criadas por Janaina. Tem estrogonofe, macarrão com moela de frango, feijoada light, macarrão à bolonhesa, peixada de cação, ovo com arroz de lentilha, carne de panela, carne moÃda refogada com legumes, cuscuz paulista de frango e macarrão com sardinha.Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosâEscolhi pratos simples da cozinha popular paulista, porque são uma delÃcia e têm forte apelo cultural. Eles contam nossas tradições e registram a influência dos imigrantes italianos, árabes e de várias outras nacionalidadesâ, defende Janaina, que também passou pelas salas de aula, falando aos alunos sobre a origem da cozinha paulista. A reação entre os estudantes tem sido curiosa â um misto de encantamento e rejeição. âNas primeiras instituições onde o menu foi implantado, temos relatos de que muitos deles estão deixando de comprar comida na cantina e voltando a comer o almoço da escola. Mas há os que ainda reclamam muito, porque cortamos os nuggetsâ, conta a chef. Convencer a garotada a mudar hábitos alimentares dá mesmo trabalho â e Janaina compartilha a responsabilidade com as próprias merendeiras. âTento mostrar que elas não são apenas cozinheiras, mas educadoras. E que podem ajudar a resgatar costumes saudáveis que estão se perdendo, como o de comer miúdos”.
Quando o Cozinheiros da Educação foi lançado, há cerca de um ano e meio, ninguém sabia que as mudanças seriam tão profundas. Quem explica é Giorgia Castilho Russo, nutricionista que coordena o projeto desde o inÃcio: âNa primeira etapa, eliminamos os produtos industrializados, como a carne moÃda com legumes, que chegava cozida e enlatada, e o frango cozido, que comprávamos congelado dentro de molho rosé. Mas, para trocá-los por alimentos frescos, foi preciso equipar todas as cozinhas com freezers e ensinar as merendeiras a prepará-los, porque comida fresca depende de técnica para ficar gostosa. Foi nessa fase que, para padronizar os preparos, Janaina virou nossa parceiraâ.
As aulas da chef partem do básico: ela começa ensinando como fazer um bom refogado à base de cebola e alho, ponto de partida de quase todas as receitas da culinária brasileira. âNa lista de ingredientes que fiz para as escolas, pedi uma quantidade incrivelmente maior desses ingredientes. Não se faz milagre cozinhando sem temperoâ, justifica. Fã confessa da panela de pressão, ela adotou o utensÃlio no preparo de várias receitas, como forma de agilizar o trabalho das merendeiras. E tem se empenhado em mostrar que é possÃvel fazer comida boa e saudável gastando pouco. Um dos pratos que mais têm feito sucesso entre os alunos, por exemplo, é o estrogonofe, que leva leite engrossado com um pouco de farinha de trigo no lugar do creme de leite â e não entra ketchup na receita, só tomate sem pele.
Iniciado pelas escolas do Centro de São Paulo, o projeto Cozinheiros da Educação está chegando aos poucos aos outros bairros da cidade. Na etapa seguinte, será replicado nos demais municÃpios paulistas. Além das aulas de capacitação, as merendeiras receberão uma cartilha com todas as receitas, prevista para ser distribuÃda no começo de 2017. De acordo com Giorgia, até 2018, o conjunto de iniciativas vai impactar a rotina de 2 milhões de alunos. Por enquanto, esse batalhão devora 1800 refeições por dia â mas o objetivo é esvaziar as filas das cantinas e colocar cada vez mais crianças e adolescentes sentadas dentro dos refeitórios.
