Natal sem árvore

No último ano, a Árvore da Lagoa contou com 2,5 milhões de microlâmpadas, pesou 350 toneladas e chegou a 53 metros de altura. Foto de Custódio Coimbra

Após 20 anos, Rio ficará sem a polêmica escultura gigante na Lagoa

Por Laura Antunes | ODS 11 • Publicada em 11 de novembro de 2016 - 09:00 • Atualizada em 11 de novembro de 2016 - 11:13

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No último ano, a Árvore da Lagoa contou com 2,5 milhões de microlâmpadas, pesou 350 toneladas e chegou a 53 metros de altura. Foto de Custódio Coimbra
No último ano, a Árvore da Lagoa contou com 2,5 milhões de microlâmpadas, pesou 350 toneladas e chegou a 53 metros de altura. Foto de Custódio Coimbra

Quem vive no Rio sabe que a montagem da icônica Árvore de Natal da Lagoa, a partir do fim de outubro, é o primeiro sinal de que o ano está chegando ao fim. Mas estamos em novembro e nenhuma movimentação de operários por lá. O motivo, a prefeitura já sabe: após 20 edições consecutivas, o Grupo Bradesco Seguros desistiu da função de patrocinadora exclusiva da gigantesca e polêmica estrutura. A solução para manter a tradição seria o município conseguir, em regime de urgência, outro parceiro na empreitada ou arcar com os custos sozinho (valores nunca revelados). Até o momento, nem uma coisa nem outra. Então, o Natal carioca de 2016 ficará mesmo desfalcado da maior árvore de Natal flutuante do mundo.

O Grupo Bradesco Seguros entende que seu ciclo como patrocinador exclusivo está completo. Por isso, comunicou à Prefeitura do Rio, ao idealizador da Árvore e parceiros envolvidos a decisão de não mais patrocinar, com exclusividade, a Árvore de Natal da Lagoa.

Nota Oficial da Empresa

A Bradesco Seguros não revelou as razões da desistência. Em nota ao Projeto #Colabora, a empresa se pronunciou, oficialmente, pela primeira vez sobre o cancelamento: “O Grupo Bradesco Seguros tem muito orgulho de ter patrocinado, por 20 edições consecutivas, a Árvore de Natal da Lagoa. Nesse período, contribuiu, com muito empenho, para que a Árvore se tornasse um dos símbolos da cidade do Rio de Janeiro, reconhecido por toda a população. O Grupo entende que seu ciclo como patrocinador exclusivo está completo. Por isso, no primeiro semestre de 2016, comunicou à Prefeitura do Rio, ao idealizador da Árvore e parceiros envolvidos a decisão de não mais patrocinar, com exclusividade, a Árvore de Natal da Lagoa.”  Por sua vez, o município foi sucinto sobre possíveis contatos na busca por novas parcerias: “não está sendo tocado pela prefeitura”, informou, por e-mail, ao #Colabora.

Durante as duas décadas do evento, nunca foram divulgadas as cifras que envolviam a montagem da Árvore de Natal, que, de tão alta a cada edição, chegou a garantir lugar no Livro dos Recordes. Para tentar desvendar o mistério, o Projeto Colabora publicou, em 23 de dezembro passado, uma reportagem com análises sobre os custos do evento e concluiu que o dinheiro investido nas suas 20 edições teria sido suficiente para despoluir a Lagoa Rodrigo de Freitas três vezes pelo menos.

Somente em 2015, antes do vendaval que destruiu parte da estrutura, o projeto de montagem apresentava, aos costumes, números estratosféricos. Seriam 2,5 milhões de microlâmpadas, 105 km de mangueiras luminosas, seis geradores embarcados, 25 km de estruturas tubulares, 350 toneladas de peso, 53 metros de altura, 17 andares, 11 flutuadores de 12 toneladas, 1.500 pessoas envolvidas.

Assim, levando-se em conta tudo que envolvia o evento – incluindo queima de fogos, festa, profissionais, entre outras despesas – o custo anual estaria entre R$ 9 milhões e R$ 20 milhões. Considerando a menor estimativa, se o evento natalino custava R$ 9 milhões/ano, em 20 anos foram gastos R$ 180 milhões. No caso de ter chegado à casa dos R$ 20 milhões/ano, essa conta fecharia na casa dos R$ 400 milhões em duas décadas. E um detalhe importante em relação à festa de inauguração da árvore de Natal que chamava a atenção: ela contava com recursos da Lei Rouanet, que oferece incentivos fiscais a eventos culturais.

Polêmicas à parte, a ausência este ano da árvore flutuante, símbolo do Natal carioca por duas décadas, deixa chateado o engenheiro Amílcar Perlingeiro, morador do trecho da Lagoa exatamente em frente onde ficava a estrutura, no Corte do Cantagalo. Ele reconhece que, por anos, reclamou da confusão em que o bairro se transformava durante o período natalino. No entanto, com a organização do trânsito na região, Amílcar acabou simpatizando com o evento.

– Depois que a prefeitura ordenou o trânsito e os engarrafamentos acabaram, eu passei a gostar da árvore. O evento trazia movimento e um clima bacana para esse trecho da Lagoa e para a cidade. Além disso, era bom reunir os amigos em casa, numa festa de confraternização, no dia da inauguração. Lamento pelo término – disse ele.

Já para a aposentada Lúcia Lima, moradora de Copacabana, a estrutura suntuosa estava na contramão do momento econômico atual e também do conceito de sustentabilidade.

– Não sou contra a montagem da árvore, mas acho que ela não precisava ter tanta ostentação. Não é mesmo momento para esse tipo de evento luxuoso. Por que não voltar a fazer em proporções menores?

Laura Antunes

Depois de duas décadas dedicadas à cobertura da vida cotidiana do Rio de Janeiro, a jornalista Laura Antunes não esconde sua preferência pelos temas de comportamento e mobilidade urbana. Ela circula pela cidade sempre com o olhar atento em busca de curiosidades, novas tendências e personagens interessantes. Laura é formada pela UFRJ.

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Um comentário em “Natal sem árvore

  1. Hylton Sarcinelli Luz disse:

    Considerando que os recursos investidos em 5 edições deste empreendimento seriam suficientes para despoluir a Lagoa, que embora promovessem a marca de uma das empresa privadas mais ricas do país eram custeados pela sociedade por meio da Lei Roanet, considero um espetacular avanço o fim desta arvore de natal. Neste escopo me parece uma decisão louvável a prefeitura não cair no conto do vigário de custeá-la, ou de garantir incentivos fiscais para empresas interessadas em manter esta lavanderia à céu aberto. Apesar de bela e atrativa representava um atentado contra a moralidade pública e uma afronta às finalidades culturais que justificavam os incentivos públicos concedidos. Neste particular parabenizo a ética de compromisso com a sustentabilidade do Projeto Colabora em suas esclarecedoras matérias sobre o tema.

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