Quando perguntam a Preto Zezé, presidente da Cufa (Central Ãnica de Favelas) Global, sobre a volta ao normal, ele rebate de primeira: âNão quero voltar ao normal da indiferença enorme diante de tanta tragédia social enraizada no Brasil desde a origem. Quero um novo olhar e uma nova percepção sobre tudoâ. A ambição por outro conceito de cidade, mais inclusivo, amigo do meio ambiente, transparente, focado no bem estar de seus habitantes serviu de convergência entre os participantes do oitavo e último webinar (Re)visão 2050, realizado pelo CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável).
O debate reuniu, além de Preto Zezé, Viviane Mansi, presidente da Fundação Toyota do Brasil; Rodrigo Perpétuo, secretário-executivo do Iclei Brasil (organização que congrega governos de cidades e estados pelo mundo); e Marcos Bicudo, presidente da Vedacit. Sob mediação de Marina Grossi, presidente do CEBDS, o webinar tratou, durante 1h43, de agendas urgentes das cidades brasileiras â todas acentuadas dramaticamente pela pandemia. No paÃs em que 86% da população vivem nas áreas urbanas, os problemas se multiplicam, tornando-se pesados obstáculos no caminho da sustentabilidade.
Viviane Mansi reconheceu a complexidade das mudanças, mas sublinhou que elas são inescapáveis, especialmente para empresas globais, mirando em mercados com diferentes maturidades. âO que funciona na Europa precisa ser diferente no Brasil, pela regulação e pelas preferências da populaçãoâ, observou ela, citando o desafio Toyota 2050, que exige o uso adequado dos recursos, diminuição de CO² e uso inteligente de água. âO sistema busca o desperdÃcio zero, com um portfólio que funcione de maneira sustentávelâ, acrescentou Mansi, lembrando que a empresa vende tem hoje oito modelos de carros eletrificados no Brasil.
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Veja o que já enviamosEla citou ainda o projeto Ãguas da Mantiqueira, de proteção aos mananciais que abastecem 14 milhões de pessoas em São Paulo; o projeto da APA Costa dos Corais, que cuida de ampla área de berçário de peixes; e a ação de proteção da arara azul, que tirou a ave da lista de animais em extinção. âà suficiente? Não. Decidimos falar mais, abrir o diálogo, ter transparência, trazer outras empresas para a mesma causa. Precisamos de esforço coletivo, num compromisso de longo prazoâ.
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Na favela, somos doutores em estado mÃnimo e em dificuldade, pós-doutores em tragédia, PhD em tudo de ruim que acontece. Não temos retrovisor nem capacidade de enxergar muito longe. A preocupação não dá para ser o pós-pandemia, precisa ser o agora-pandemia
[/g1_quote]Preto Zezé tem mais pressa. Para ele, colaboração significa olhar os gargalos e desafios do ponto de vista da desigualdade social brasileira, tornada transparente pela covid-19. Na direção de uma ONG presente nos 26 estados, no Distrito Federal e em 17 paÃses, ele calcula em 15 milhões os habitantes das favelas â população maior do que a do Rio Grande do Sul. âSomos sempre associados à violência e ao medo e não à potência. Antes da pandemia, o poder de consumo das favelas atingia R$ 119 bilhões, mas o estigma impede a construção de pontes para canalizar o potencialâ, analisa. âInterfere no olhar das empresas, do poder público e até na percepção das próprias pessoas que vivem nesses territóriosâ. A Cufa luta para os habitantes das favelas serem protagonistas da agenda de mudança, trabalhando, na crise, na arrecadação de alimentos e material de limpeza e na viabilização de recursos financeiros, para mães solteiras.
âSomos uma ONG com fins lucrativos, que luta pela construção de ecossistema de saberes e expertisesâ, define Preto Zezé. âO terceiro setor não pode ficar só na agenda xingacionista ou reclamativaâ. Ele se avalia otimista, pelos avanços na agenda pública, com, por exemplo, o debate da renda básica, que o Congresso elevou para R$ 600, o adiamento do Enem e a interrupção das ações policiais em comunidades populares por decisão do STF. âHá renovação do engajamento da sociedade. Na favela, a gente já é doutor em estado mÃnimoâ.
Rodrigo Perpétuo pregou a refundação das cidades, com a eliminação das desigualdades, muito além da mera função para as quais foram concebidas. âO objetivo de aglomerar pessoas para produzir e consumir mercadorias, bens e serviços perdeu o sentido â e a pandemia está mostrando isso. à hora de outra função, a da convivência harmônica das pessoas, o que não será possÃvel se só algumas delas tiverem educação de qualidade, habitação confortável e outras, nem acesso a saneamento e água potávelâ, argumentou. âPara que em 2050 possamos ter a cidade da convivência, precisamos tratar das questões que Preto Zezé elenca como de curtÃssimo prazo. A cidadania pressiona pelas agendas e compartilhar a responsabilidade por elas é fundamentalâ, acrescentou, alertando que a harmonia com a natureza precisa ser valorizada.
Porque cidade sustentável é a que promove o bem estar das pessoas, sublinhou Marcos Bicudo, da Vedacit. âTemos que batalhar pela melhoria nas condições de habitação e na saúde das edificações, não só de casas, mas de hospitais e outros prédios públicos. Não dá para morar numa casa com mofo e cômodos sem janelasâ, defendeu. âPor isso, o Brasil precisa da iniciativa privada com propósito, de parcerias sólidas com terceiro setor e academia e do governo atuando como facilitadorâ.
Preto Zezé lembrou, então, as urgências que não podem esperar 2050 â na verdade, nem mais um minuto. âNão temos retrovisor nem capacidade de enxergar muito longe. A preocupação não dá para ser o pós-pandemia, precisa ser o agora-pandemiaâ, pregou, ponderando que a desigualdade é corrosiva por estar construindo âpercepção muito perigosa de negação de todos os acordos sociais possÃveisâ. E o cenário seguinte mostra o descrédito total da polÃtica. âSem programa de proteção social emergencial agora, nesse momento, não acredito que pais e mães de famÃlia vão ficar vendo passivamente os filhos chorando de fomeâ.
Ele louva a âclareia de percepção diferenteâ com o terceiro setor deixando de ser criminalizado, e vivendo novo momento de parcerias. âTemos que construir o soro a partir do veneno. Somos doutores em dificuldade, pós-doutores em tragédia, PhD em tudo de ruim que acontece. Na favela, já se nasce empreendendo para sobreviver. Por isso, precisamos construir diálogo com poder público, porque senão a agenda já vem pronta, para nos deslegitimar e desacreditar. Queremos melhor de ambas as partes para costurar a colcha de retalhos de ações que deram certo. à um desafio danado, caminhar sem horizonte. Estou na base, sou bem pragmático. O que vier rápido será mais interessante, porque os problemas não esperamâ.
A inclusão tem de chegar muito antes de 2050, concordou Viviane Mansi. A cidade que acolhe é para poucos e precisamos torna-la um espaço público para todos. à necessários colaborar mais, encontrar soluções conjuntasâ, convocou, reivindicando uma âética planetáriaâ, como ensinou Edgar Morin. âFomos nos tornando mais individualistas e perdemos todos. Só vamos ser bem-sucedidos se o ecossistema for pra todos. Somos muitos bons de iniciativa, mas não de “acabativa”, por isso precisamos mexer nas nossas bases mais profundas, aqui no brasilâ, constatou.
Ela revelou que a Toyota abriu para o público 24 mil patentes relativas a carros hÃbridos e elétricos, mas, de outro lado, alertou para o grande hiato social que a pandemia está formando. âNo ensino superior, temos alunos assistindo à aula até dia 15 do mês, que é quando acaba o pacote de internetâ, lembrou. âImaginem o que acontece na escola, e a mãe com apenas um celular que tem de ser usado por ela e por duas crianças para terem aulaâ.
Rodrigo Perpétuo destacou a importância da economia circular, com empresas e fornecedores se aproximando em práticas e posturas. âA ética deve nortear todas as organizações, públicas, privadas e do terceiro setor. Precisamos da atividade produtiva sustentável, dobrando a aposta na logÃstica reversa, para uma melhor gestão dos resÃduos. E o setor privado precisa mensurar suas emissões de carbonoâ, listou.
O fomento ao fortalecimento do empreendedorismo, dentro das comunidades e fora delas também tem status de prioridade para Marcos Bicudo. âAs cidades inteligentes diminuem deslocamentos, pensam na vocação de cada região, constroem transporte público com qualidade, e democratizam o acesso digitalâ, explicou. âA pandemia acelera tudo. Temos que ser mais ágeis, adaptáveis e enfrentar mais riscos. Se a gente não cuidar das questões de base, será piorâ, previu Viviane Mansi. âO efeito do confinamento vai criar outras discrepâncias a serem gerenciadas. A pandemia traz algo positivo para repensar espaços. Ser menos high tech, mais high touchâ.
No fim, Marina Grossi saudou os debatedores de todas as edições, com a certeza que a necessária busca por um mundo mais sustentável ganhou conteúdo valioso. A (Re)visão está em curso e começará muito antes de 2050.

Espero ajudar varias pessoas que necessitam de voltar a ter renda: uma boa ideia investir no ramo alimentÃcio. Eu conheço varias amigos que por conta da pandemia abriram pequenos negócios. Este aqui de comidas saudáveis é muito bom! Vejam! https://bit.ly/ricoefitness