Ocorreu ali, no final de setembro do último ano. A Rocinha ainda estava ocupada pelas Forças Armadas quando pela manhã, uma mensagem, fixada na passarela projetada por Oscar Niemeyer, na entrada da comunidade, trazia pintada a frase: âINTERVENÃÃO MILITAR: NÃO à OPÃÃO, à A SOLUÃÃO!â.
Corta. Estamos em fevereiro de 2018, cinco meses depois, e passada a festa onde o sagrado e o profano se encontram, as notÃcias não são nada animadoras. A cidade faliu. E durante o Carnaval, o número de disparos por armas de fogo teve salto de 106% no Rio, segundo relatório do aplicativo Fogo Cruzado, hoje referência na apuração de dados sobre a violência.
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Veja o que já enviamosEnquanto a intervenção for só isso mesmo, militar ou policial, não haverá solução. No dia em que entenderem que as mudanças concretas e duradouras são as sociais, aàsim, haverá diálogo, conversa e evolução
[/g1_quote]Antes mesmo de o prefeito Marcelo Crivella passar as chaves ao Rei Momo e correr rumo à Europa, quatro crianças foram atingidas por tiros durante conflitos entre policiais e traficantes. Dentre eles a menina Emily, de 3 anos e o adolescente Jeremias, de 13. A violência não descansou na folia. Além dos tiros tivemos porrada, bomba e arrastões. No meio de tudo isso, o porta-voz da PolÃcia Militar, o major Ivan Blaz, dirigiu um singelo pedido à população da cidade: âNão utilizem seus celulares para selfies”. Sério? Claro que não adiantou…
Como se não bastasse, veio a chuva. Muita chuva. E dessa vez, não de cápsulas. Citando a amiga jornalista CecÃlia Oliveira, que escreveu na página pessoal dela no Facebook: âCom as chuvas as balas parecem acalmarââ. Era do céu o presente de grego: justo na cidade do bispo-prefeito aconteceu o dilúvio, mas sua autoridade não se fez presente, como tem sido desde a eleição dele. O bloco passou, a Beija-Flor ganhou e quem resolveu botar a bateria na rua foi o Executivo, que em caráter de urgência, decretou intervenção federal na cidade com a prerrogativa de “restabelecer a ordem”.
O General Walter Souza Braga Netto, do Comando Militar do Leste, passou a ser o mais novo responsável pela pasta de Segurança da cidade. Não demorou muito e um amontoado de pessoas nas redes e nas ruas comentavam a ação – inclusive na Rocinha. A profecia expressa na faixa estendida pelos intrépidos vizinhos meses antes, incomodados com a presença de uma favela tão próxima de bairros nobres da Zona Sul, como São Conrado, Gávea e Leblon, se concretizaria? E nós, da comunidade, também poderÃamos comemorar?
Dentro dos becos e nos grupos de mensagens da comunidade que em janeiro ficou em segundo lugar no ranking de tiroteios, ainda segundo o aplicativo Fogo Cruzado – 23 ao todo, perdendo somente para a Cidade de Deus, com 49 – , a sensação era outra. “Decretar isso significa dizer que antes os abusos eram comuns e não legitimados e que agora, a partir da decisão, ganharão força”, previu uma moradora.
Outro morador expôs descontentamento e descrença na ação. “Armas e drogas não são produzidas dentro de uma favela onde nem sequer tem saneamento básico”, constatou. Só em 2017 foram apreendidas 499 armas, 130 a mais do que no ano anterior. Cabe lembrar que em junho passado houve a maior apreensão de fuzis na história do Rio: 60 ao todo. E ela aconteceu dentro do Aeroporto Internacional Tom Jobim. Já em relação à s drogas, em 2017 foram 12 toneladas.
Na sexta-feira em que a intervenção foi anunciada, houve uma avalanche de posts nas redes sociais. Nelas e nos grupos de WhatsApp circulava uma espécie de âmanualâ com algumas recomendações sobre o que fazer num perÃodo como este. âNão corra na rua! Nunca corraââ; âNão saia sem documentos, principalmente a Carteira de Trabalhoââ e ââProcure estar sempre acompanhado na ruaââ são algumas das orientações. A lista termina com: âAs instruções acima sempre têm endereço certo, com intervenção ou nãoââ. Durante uma conversa, um amigo sentenciou: âPara nós pretos e favelados, esse panfleto pode salvar vidasââ. E pode mesmo.
O decreto que por ora quer restabelecer a ordem aciona em nós o medo, pelo risco de ser o próximo na linha do tiro ou do abuso. Nós, moradores não só da Rocinha, mas de outras comunidades que já conviveram com esse aparato militar, já vimos esse filme e infelizmente sabemos quem levará a pior. Resta a saber de que forma e quando será.
Enquanto esperamos o amanhã, acompanhamos inertes e insones as transformações mais do que visÃveis na cidade que há tempos vem sendo vendida, agredida, roubada e maltratada por uma ganância que veste terno, gravata e até guardanapo na cabeça. Lástima sentida até mesmo nas pessoas que, apavoradas, ainda precisam viver nela.
Tentamos, mergulhados na tristeza diária de nossos noticiários e também no que sabemos à boca miúda, achar alguma solução que não seja simplesmente uma Intervenção. Federal. Militar. Enquanto for só isso mesmo, militar ou policial, não haverá solução. No dia em que entenderem que as mudanças concretas e duradouras são as sociais, aàsim, haverá diálogo, conversa e evolução.
à cidade maravilhosa, por onde andarás? Teus filhos já não aguentam mais.
