âA gente, que dormia mais perto do quarto do papai â as duas [filhas] mais novas â, escutava mamãe de noite dizer: âGerardo, o que é que vai ser da gente se não chover?â. Se não chovesse não tinha café. Aà ele respondia: âVamos viver o hoje. As meninas estão alimentadas, com saúde, estudando⦠Amanhã é outro diaâ. E estamos aqui, até hojeâ. Nas memórias de Mônica e Rita Farias, é possÃvel traçar boa parte da história do café de sombra no Maciço de Baturité, mais especificamente no municÃpio de Mulungu, endereço do centenário SÃtio São Roque. O patriarca, Gerardo Farias, é considerado um dos cafeicultores agroecológicos pioneiros da região e foi o primeiro presidente da Associação dos Produtores Ecológicos do Maciço de Baturité.Â
Leu essa? As outras partes da reportagem especial Rota Verde do Café
Ao longo de seus 93 anos de vida, Gerardo dedicou-se ao cultivo do café arábica à sombra das árvores ingazeiras, sustentando os sete filhos a partir dos proventos da terra. Hoje, sob a administração de Mônica, o SÃtio São Roque perpetua a tradição familiar na cafeicultura, que já chega à quarta geração, produzindo a partir do terreno rico da serra cafés classificados como especiais, que priorizam a qualidade dos grãos em todo o processo, do pé à xÃcara.
Produzir café especial é arte de paciência e minúcias. O tempo do processo, local de armazenamento e até a forma como ele é embalado podem interferir em seu sabor e qualidade. No caso do arábica typica, variedade tradicional da região do Maciço, os grãos são colhidos apenas uma vez ao ano, em julho e agosto. âQuando chove, aparece uma florzinha branca, que fica três ou quatro dias. A gente reza para não chover quando ela está aberta, porque se cair com chuva, o grão não nasce. Aà quando ela cai, a gente reza para chover, para o grão crescer. Passa nove meses para o grão ficar maduro. Quando ele fica madurinho, que a gente chama o café cereja, a gente colheâ, ensina Mônica.Â
A colheita é manual e seletiva. Apenas os grãos maduros são retirados do pé â a partir deles que se obtém o sabor mais autêntico da bebida. Depois, são lavados e secos. A secagem é a pleno sol: os grãos são dispostos em um terreiro e é preciso mexê-los continuamente para evitar que queimem, além de monitorar sua umidade. Eles são então peneirados, para separar apenas os de tamanho ideal, e há ainda outra seleção, no qual o café é âcatadoâ manualmente para evitar que passem grãos considerados defeituosos.
Após a torra, a bebida precisa ser avaliada por um q-grader, espécie de provador profissional de café, que atesta sua qualidade a partir de análise sensorial na qual se identificam nuances como sabor, aroma, corpo e acidez. A partir dessa análise, é atribuÃda pontuação ao café, que vai de 0 a 100. Para ser especial, ele precisa atingir pelo menos 80 pontos.Â
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Veja o que já enviamosForam os melindres dessa produção tão especÃfica que encantaram Francisco Uchôa, dono de outra tradicional propriedade cafeeira do Maciço de Baturité: o SÃtio Ãguas Finas. Seu Uchôa, como é conhecido, herdou o terreno dos avós e decidiu dedicar-se ao café especial. Hoje, é uma das vozes que defendem a produção dessa bebida de alta qualidade na região, aproveitando todo o potencial e o sabor que a sombra das árvores oferece.
âÃs vezes as pessoas pensam que por ser um café diferenciado, plantado debaixo de floresta nativa, é só plantar e deixar lá. E não é. Exige trabalhoâ, argumenta Seu Uchôa. âSe você botar dez xÃcaras de café e chegar um especialista, ele vai dizer assim: âesse café aqui é diferenteâ. Ele consegue identificar que esse nosso café é diferente porque a floresta interfere no gosto do café. Então nós temos um potencial incrÃvel, mas tem que ter qualidade e procedimentoâ, defende o produtor.
