Até os abraços foram plastificados em 2020. Muitas pessoas vestiram capa de plástico para romper o distanciamento social e abraçar pais, filhos, avôs, parentes, amigos… O aparato de plástico virou uma espécie barreira de proteção contra o CoronavÃrus. Foi um ano marcado pelo uso de máscaras e por encontros virtuais, lives, home office e delivery. Se antes da pandemia nossa vida já era mediada pelo uso intensivo dos diferentes tipos de plásticos, presente das embalagens aos computadores, passando pelos celulares e os painéis de carro; com a Covid-19, o consumo explodiu. Com a pandemia, para cada doente infectado, os hospitais foram obrigados a produzir, em média, 7,5kg de plástico por dia.
à contraditório pensar que ao mesmo tempo em que o contato com nossos entes queridos diminuiu, mais contato tivemos com plásticos de todos os tipos
[/g1_quote]âà contraditório pensar que ao mesmo tempo em que o contato com nossos entes queridos diminuiu, mais contato tivemos com plásticos de todos os tiposâ, resume Marcelo Montenegro, coordenador de Programas e Projetos de Justiça Socioambiental da Heinrich Böll, responsável pelo Atlas do Plástico. O estudo é, um raio-X da cadeia do plástico, produzido pela entidade em parceria com o movimento Break Free From Plastic (liberte-se do plástico, em tradução livre).
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Veja o que já enviamosSó no Brasil, são mais de 11 milhões de toneladas de plástico consumidos anualmente, o que coloca o paÃs na quarta posição do ranking mundial dos grandes produtores de lixo plástico no mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos, China e Ãndia. O percentual de reciclagem é irrisório: 1,28%.
Se, na metade do século XX, a descoberta de que um produto residual da indústria petroquÃmica poderia ser usado para fazer PVC foi considerada revolucionária; nos tempos atuais, o plástico virou uma verdadeira de maldição devido a sua durabilidade pós-uso. O que torna o plástico útil é exatamente o que o torna prejudicial: ele persiste. E ainda é onipresente: o plástico está na roupa que vestimos, nos produtos de higiene e até no peixe que consumimos.  Uma camisa de poliéster, por exemplo, pode emitir entre 3,8 e 7,1 quilogramas de CO2. à uma matéria-prima que polui em todos os estágios de seu ciclo de vida, desde quando o petróleo e o gás são extraÃdos para produzi-lo até quando é descartado indevidamente, depositado em aterros, reciclado de maneira equÃvoca ou queimado.
[g1_quote author_name=”Maureen Santos” author_description=”Autora de um dos capÃtulos do Atlas do Plástico” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Existe uma suposição de que os plásticos feitos de matérias-primas renováveis são ecologicamente corretos. Eles se degradam mais rapidamente â pelo menos, de acordo com seus patrocinadores corporativos. Um exame mais atento, no entanto, aponta para a geração de um novo conjunto de problemas
[/g1_quote]Tudo que envolve a cadeia de produção do plástico é superlativo. A começar pelo primeiro elo da cadeia, dominado por gigantes da indústria de petróleo. âExiste uma suposição de que os plásticos feitos de matérias-primas renováveis são ecologicamente corretos. Eles se degradam mais rapidamente â pelo menos, de acordo com seus patrocinadores corporativos. Um exame mais atento, no entanto, aponta para a geração de um novo conjunto de problemasâ, chama atenção Maureen Santos, autora do capÃtulo âA onda de biodegradáveis no Brasilâ.
O Atlas chama atenção para o fato de que o prefixo âbioâ não significa que o plástico é mais ecológico. Existem dois tipos de bioplásticos: o de base biológica, produzido a partir de matérias-primas como milho, cana de açúcar e outras commodities, por exemplo, e o biodegradável. à primeira vista, a substituição de matérias-primas fósseis foi considerada a solução para a crise do plástico. Um olhar mais atento, no entanto, desvenda uma problemática bem mais complexa. âSe considerarmos o crescimento previsto da produção de plásticos em relação ao uso de terra arável, uma coisa fica clara: a pressão sobre a área cultivada aumentará ainda maisâ. A conclusão a que Maureen chega é que âexpandir o cultivo de produtos agrÃcolas para uso como matéria-prima não é uma opção para produzir plásticos ecológicosâ.
[g1_quote author_name=”Maureen Santos” author_description=”Autora de um dos capÃtulos do Atlas do Plástico” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Os bioplásticos apenas desviam o problema e a atenção das soluções
[/g1_quote]Os plásticos biodegradáveis, por sua vez, foram projetados para serem degradados por microrganismos sob condições especÃficas. Segundo Maureen, 90% do plástico deve ser degradado após 12 semanas a 60 graus Celsius. Só que não. à que a maioria das plantas de compostagem permite que o resÃduo apodreça por quatro semanas e prorrogar este prazo não faz sentido, do ponto de vista econômico. Ao final do processo, complementa, apenas água, dióxido de carbono e aditivos minerais permanecem, sendo que nenhum destes materiais forma húmus. A conclusão é que a tentativa de simular ciclos biológicos não será suficiente para conter o fluxo de resÃduos plásticos. âOs bioplásticos apenas desviam o problema e a atenção das soluçõesâ.
