Quem foi no show da Maria Gadu em Paris no domingo, dia 13 de março, exatos 5 meses após os atentatos, percebeu que já não se vai mais à concertos como se Ãa antigamente…. Quatro controles diferentes na entrada que não ficam nada a dever aos controles mais severos de aeroportos… Bolsas e casacos passaram por uma revista minuciosa e detalhada. Depois, homens de um lado e mulheres de outro para uma âapalpaçãoâ em busca de armas ou cinturões de explosivos. O New Morning estava lotado de estrangeiros â a grande parte da platéia era composta de patrÃcios, como eu, matando a saudade da terrinha â e talvez isso fizesse dele um alvo de atentados… pelo sim pelo não, tratei de me posicionar perto de uma saÃda de emergência e relembrei o passo-a-passo fartamente espalhado pela cidade para se defender no caso de um atentado.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]A última vez em que a população gritou âviva os policiaisâ foi em 24 e 25 de agosto de 1944 quando um desfile celebrou a liberação de Paris.
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Veja o que já enviamosMas Paris não é só festa, ao contrário do que escreveu Ernest Hemingway, e os atentados obrigaram os parisienses a viver e se divertir de uma forma mais prudente. Quem fala em prudência e segurança pensa no poder público e na polÃcia. E aà vem mais uma revelação do que é viver no estado de alerta. Antes dos atentados de Paris, ninguém imaginaria a população saudando os policias. Pois bem, o policial aqui alcançou o nÃvel de Ãdolo, herói nacional. A última vez em que a população gritou âviva os policiaisâ foi em 24 e 25 de agosto de 1944 quando um desfile celebrou a liberação de Paris. Esse mesmo processo de âheroificaçãoâ aconteceu com os bombeiros de Nova York, logo apos os atentados à s torres gêmeas.
Desde as passeatas de 11 de janeiro 2015, quando a população aplaudiu os policiais e alguns chegaram mesmo a receber flores e beijos, já dava para notar que a imagem da polÃcia tinha mudado.
O assassinato de um policial no ataque ao Charlie Hebdo, as cenas da polÃcia especial invadindo o Bataclan para liberar os reféns e todas aquelas cenas que se seguiram, criaram uma verdadeira revolução cultural nos jovens que passaram a considerar seriamente seguir uma carreira como policial: uma profissão útil e reconhecida. Numa recente feira destinada à estudantes em busca de uma oportunidade para começar sua vida profissional, o stand da PolÃcia Nacional atraiu pela primeira vez enorme fluxo de jovens estudantes. Depois dos atentados, eles ficaram menos crÃticos com relação ao papel da poÃcia e mais interessados na proteção do paÃs e da população.
Bom, isso talvez explique o enorme interesse e o recorde de inscrições para os próximos concursos abertos para integrar a polÃcia francesa: 47% a mais de candidatos em um ano, ou seja, 24.700 candidatos para 3.700 novos postos. 13.500 visitas por dia nos sites de recrutamento da polÃcia contra 4.700 antes dos atentados. O perfil dos candidatos também mudou: hoje praticamente a metade tem nÃvel superior enquanto nos anos 70, o Ãndice era de apenas 1%.
Se a população, e os jovens em particular, estão revendo seus conceitos com relação à polÃcia, algumas vozes começam a denunciar os abusos cometidos, e admitidos, enquanto vigorar o estado de alerta. Cerca de 400 mandatos de prisão domiciliar, realização de busca e apreensão a qualquer hora do dia ou da noite, sem autorização judicial, afrontam a liberdade individual prevista na Declaração dos Direitos do Homem e que é a base da constituição francesa. Essa afronta levou cinco ex-condenados à prisão domiciliar a entrar com uma ação contra o ministro do Interior Bernard Cazeneuve por privação de liberdade indivuidual, discriminação religiosa, danos materiais â eles perderam seus empregos – e danos morais. Eles se enquadram no perfil estereotipado do terrorista: homens, entre 30 e 50 anos e de religião muçulmana. Segundo um dos advogados, seu cliente ficou em prisão domiciliar pois foi encontrado embaixo do prédio do Charlie Hebdo tirando fotos quando, na verdade, ele estava ligando para a mãe…
Lei é lei, mas elas se adaptam
Fumar ainda faz parte dos arraigados hábitos da cultura francesa e basta passar em frente a um colégio para se assustar com o número de adolescentes que fumam na porta da escola. Fumam na porta porque uma lei em vigor desde 1991, proibia o fumo no interior das escolas. Proibia até novembro pois graças aos atentados, cabe ao diretor de cada escola avaliar o risco e liberar o fumo no interior das escolas. A alegação de alguns diretores é que com tanta gente saindo para fumar na mesma hora â os intervalos das aulas â os fumantes virariam um alvo fácil para novos ataques. Há controvérsias. Segundo Dr Alain Rigaud, presidente da Associação Nacional de Prevenção ao Alcool e Tabagismo, a medida é suicida e um verdadeiro âtiro no péâ: âA longo prazo, o fumo mata um em cada dois fumantes. Isso significa que, nos próximos 30 anos, 125 mil desses que hoje são estudantes morrerão de causa associada ao fumo. Isso é muito mais do que qualquer atentado terroristaâ.
Ainda na área da saúde, um outro dado alarmante diz respeito à s vÃtimas diretas e indiretas dos atentados. Além dos 130 mortos e mais de 300 feridos, há ainda uma população calculada em 4.000 pessoas que são consideradas vÃtimas – mesmo tendo sobrevivido aos ataques e sem ferimentos visÃveis, elas carregam traumas que precisam ser tratados. O governo francês rapidamente mandou instalar postos em hospitais que oferecem tratamento psicoterapêutico à essas vitimas. Uma delas, que sobreviveu ao Bataclan, procurou ajuda para enfrentar o trauma e voltar a ter uma vida normal. Normal, mas sem casa própria. A seguradora, que deveria aprovar o pedido de crédito imobiliário que ela tinha feito antes dos atentados, simplesmente negou o crédito pois não acredita que ela possa ser capaz de pagar seu empréstimo no futuro. Diante da pressão da opinião publica, a seguradora prometeu reestudar o caso. Será?
